1. Das irmãs
os meus irmãos sujando-se
na lama
e eis-me aqui cercada
de alvura e enxovais
eles se provocando e provando
do fogo
e eu aqui fechada
provendo a comida
eles se lambuzando e arrotando
na mesa
e eu a temperada
servindo, contida
os meus irmãos jogando-se
na cama
e eis-me afiançada
por dote e marido
QUEIROZ, S. O sacro ofício. Belo Horizonte: Comunicação, 1980.
O poema de Sonia Queiroz apresenta uma voz lírica feminina que contrapõe o estilo de vida do homem ao modelo reservado à mulher. Nessa contraposição, ela conclui que:
Resposta: letra E. A conclusão é a ideia a qual se chega pela leitura, em conjunto, de todas as estrofes do poema. Cada um dos elementos apresentados é justamente um exemplo apontando para a existência de diferenças marcantes entre os gêneros. A ideia da autorrealização desigual fica clara na última estrofe, em que se menciona a noção de que uma mulher deve ter no casamento o seu destino, enquanto os homens podem se entregar a descobertas sexuais inconsequentes.
  • a) a mulher deve conservar uma assepsia que a distingue de homens, que podem se jogar na lama.
  • b) a palavra “fogo” é uma metáfora que remete ao ato de cozinhar, tarefa destinada às mulheres.
  • c) a luta pela igualdade entre os gêneros depende da ascensão financeira e social das mulheres.
  • d) a cama, como sua “alvura e enxovais”, é um símbolo da fragilidade feminina no espaço doméstico.
  • e) os papéis sociais destinados aos gêneros produzem efeitos e graus de autorrealização desiguais.
2. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: - Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo mundo faz? – Quero criar nada não ... – me deu resposta: - Eu gosto muito de mudar... [...] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. [...] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. [...] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.
ROSA, J. G. ./)"#$%0$/'1+: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).
Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador:
Resposta: letra D. No fragmento, o narrador Riobaldo reflete sobre a relação entre proprietários de terra e agregados, a partir da situação do empregado Zé-Zim e de sua própria história familiar. Ambos viveram experiências de nomadismo, determinadas tanto por decisão pessoal (“Eu gosto muito de mudar”), quanto pela dependência estabelecida com proprietários (“quando [os Guedes] saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu”).
  • a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouco disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho.
  • b) descreve o processo de transformação de um meeiro — espécie de agregado — em proprietário de terra.
  • c) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.
  • d) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao mesmo, dependente.
  • e) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras.
3. E como manejava bem os cordéis de seus títeres, ou ele mesmo, títere voluntário e consciente, como entregava o braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como se desfazia de suas articulações e de seus reflexos quando achava nisso conveniência. Também ele soubera apoderar-se dessa arte, mais artifício, toda feita de sutilezas e grosserias, de expectativa e oportunidade, de insolência e submissão, de silêncios e rompantes, de anulação e prepotência. Conhecia a palavra exata para o momento preciso, a frase picante ou obscena no ambiente adequado, o tom humilde diante do superior útil, o grosseiro diante do inferior, o arrogante quando o poderoso em nada o podia prejudicar. Sabia desfazer situações equívocas, e armar intrigas das quais se saía sempre bem, e sabia, por experiência própria, que a fortuna se ganha com uma frase, num dado momento, que este momento único, irrecuperável, irreversível, exige um estado de alerta para a sua apropriação.
RAWET, S. O aprendizado. In: Diálogo. Rio de Janeiro: GRD, 1963 (fragmento).
No conto, o autor retrata criticamente a habilidade do personagem no manejo de discursos diferentes segundo a posição do interlocutor na sociedade. A crítica à conduta do personagem está centrada:
Resposta: letra A. A crítica à conduta do personagem reside no fato de ele ser um “títere” (marionete) “consciente”, pois acredita dominar os jogos de poder na linguagem. Sua conduta é forjada segundo a conveniência, sem expressar um posicionamento pessoalmente verdadeiro.
  • a) na imagem do títere ou fantoche em que o personagem acaba por se transformar, acreditando dominar os jogos de poder na linguagem.
  • b) na alusão à falta de articulações e reflexos do personagem, dando a entender que ele não possui o manejo dos jogos discursivos em todas as situações.
  • c) no comentário, feito em tom de censura pelo autor, sobre as frases obscenas que o personagem emite em determinados ambientes sociais.
  • d) nas expressões que mostram tons opostos nos discursos empregados aleatoriamente pelo personagem em conversas com interlocutores variados.
  • e) no falso elogio à originalidade atribuída a esse personagem, responsável por seu sucesso no aprendizado das regras de linguagem da sociedade.
4. O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.
Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é:
Resposta: letra D. A questão da identidade nacional aparece na síntese de elementos opostos: tupi e alaúde. O primeiro remete ao elemento nativo do Brasil; o segundo, ao proveniente do estrangeiro. A proposta de assimilação crítica da cultura europeia aparece também no Manifesto Antropófago (1928) de Oswald de Andrade.
  • a) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.
  • b) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.
  • c) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).
  • d) problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.
  • e) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
5. Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das coisas do tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. A pátria que quisera ter era um mito; um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete.
BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 nov. 2011.
O romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, foi publicado em 1911. No fragmento destacado, a reação do personagem aos desdobramentos de suas iniciativas patrióticas evidencia que:
Resposta: letra C. O ufanismo do protagonista do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, além de exortatório da grandeza da pátria brasileira, não se adequam à realidade, às práticas políticas, agrícolas, geográficas, linguísticas e culturais da nação. A inadequação entre as vontades de Policarpo e as insolúveis dificuldades apresentadas pela realidade trazem o gosto de frustração à boca.
  • a) a dedicação de Policarpo Quaresma ao conhecimento da natureza brasileira levou-o a estudar inutilidades, mas possibilitou-lhe uma visão mais ampla do país.
  • b) a curiosidade em relação aos heróis da pátria levou-o ao ideal de prosperidade e democracia que o personagem encontra no contexto republicano.
  • c) a construção de uma pátria a partir de elementos míticos, como a cordialidade do povo, a riqueza do solo e a pureza linguística, conduz à frustração ideológica.
  • d) a propensão do brasileiro ao riso, ao escárnio, justifica a reação de decepção e desistência de Policarpo Quaresma, que prefere resguardar-se em seu gabinete.
  • e) a certeza da fertilidade da terra e da produção agrícola incondicional faz parte de um projeto ideológico salvacionista, tal como foi difundido na época do autor.
6. No Capricho
O Adãozinho, meu cumpade, enquanto esperava pelo delegado, olhava para um quadro, a pintura de uma senhora. Ao entrar a autoridade e percebendo que o cabôco admirava tal figura, perguntou: “Que tal? Gosta desse quadro?”
E o Adãozinho, com toda a sinceridade que Deus dá ao cabôco da roça: “Mas pelo amor de Deus, hein, dotô! Que muié feia! Parece fiote de cruis-credo, parten do deus-me-livre, mais horríver que briga de cego no escuro.”
Ao que o delegado não teve como deixar de confessar, um pouco secamente: “É a minha mãe”. E o cabocô, em cima da bucha, não perde a linha: “Mais doto, inté que é uma feiura caprichada.”
Por suas características formais, por sua função e uso, o texto pertence ao gênero:
Resposta: letra A. O texto pertence ao gênero anedota, que se caracteriza pela brevidade e simplicidade do enredo, visando à comicidade e, normalmente, culminando em um efeito-surpresa. Não procura exibir um estilo literário refinado, nem necessariamente uma experiência real.
  • a) anedota, pelo enredo e humor característicos.
  • b) crônica, pela abordagem literária de fatos do cotidiano.
  • c) depoimento, pela apresentação de experiências pessoais.
  • d) relato, pela descrição minuciosa de fatos verídicos.
  • e) reportagem, pelo registro impessoal de situações reais.
7. Mal secreto
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
CORREIA, R. In: PATRIOTA, M. Para compreender RaimundoCorreia. Brasília: Alhambra, 1995.
Coerente com a proposta parnasiana de cuidado formal e racionalidade na condução temática, o soneto de Raimundo Correia reflete sobre a forma como as emoções do indivíduo são julgadas em sociedade. Na concepção do eu lírico, esse julgamento revela que:
Resposta: letra A. As conveniências sociais fazem que a cólera e o sofrimento humanos não sejam visíveis, pois são dissimulados. A “máscara da face” torna-os, portanto, imperceptíveis para a sociedade.
  • a) a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissimulada.
  • b) o sofrimento íntimo torna-se mais ameno quando compartilhado por um grupo social.
  • c) a capacidade de perdoar e aceitar as diferenças neutraliza o sentimento de inveja.
  • d) o instinto de solidariedade conduz o indivíduo a apiedar-se do próximo.
  • e) a transfiguração da angústia em alegria é um artifício nocivo ao convívio social.
8. Olá! Negro
Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos
e a quarta e a quinta gerações de teu sangue sofredor
tentarão apagar a tua cor!
E as gerações dessas gerações quando apagarem
a tua tatuagem execranda,
não apagarão de suas almas, a tua alma, negro!
Pai-João, Mãe-negra, Fulô, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro íoruba,
negro que foste para o algodão de USA
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreenda agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!
Olá, Negro! Olá. Negro!
A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!

LIMA. J, Obras completas Rio de Janeiro Aguilar, 1958 (fragmento).
O conflito de gerações e de grupos étnicos reproduz, na visão do eu lírico, um contexto social assinalado por:

Resposta: letra B. Nesses versos, a preservação da cultura ancestral dos negros está assegurada, por mais que se tente renegar. A musicalidade dessa cultura persiste, contrapõe-se ao tédio, à apatia dos opressores, quais sejam, a raça branca.
  • a) modernização dos modos de produção e consequente enriquecimento dos brancos.
  • b) preservação da memória ancestral e resistência negra à apatia cultural dos brancos.
  • c) superação dos costumes antigos por meio da incorporação de valores dos colonizados.
  • d) nivelamento social de descendentes de escravos e de senhores pela condição de pobreza.
  • e) antagonismo entre grupos de trabalhadores e lacunas de hereditariedade.