Yennydy Moura, 18, foi aprovado para estudar fisioterapia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia [Uesb], no segundo semestre de 2007. Ele estava ansioso para as aulas, que deveriam ter começado em julho. Mas, por causa da greve dos professores no ano passado, ele só vai começar a estudar em março de 2008. O semestre para quem passar no vestibular dos próximos dias 24, 25 e 26 também começará mais tarde. Para os novos calouros, aulas só em julho.
A Uesb aboliu a aprovação em dois semestres para não haver choque entre 2008.1 e 2007.2, segundo a Comissão Permanente de Vestibular. Por isso, serão oferecidas apenas 1.305 vagas no processo seletivo, número 21% menor que o do ano passado, quando 1.665 foram aprovados. Talvez por isso, a Uesb teve a maior queda proporcional de inscritos entre as instituições públicas baianas. Mais que o dobro do segundo lugar, Ufba/Ufrb, que tiveram 8,2% de inscritos a menos.
Dentro da universidade, a greve divide opiniões. Anderson Bastos, 20, faz biologia em Jequié e apoiou o movimento. Já Davi Fogaça, 22, aluno de engenharia de alimentos em Itapetinga, reclama de ver sempre as mesmas bandeiras e mudança nenhuma.
Entre os motivos da greve, estavam pedidos de verbas, mais professores, autonomia universitária e melhoria da carreira docente. O único resultado foi o aumento de uma das gratificações em 7,2%. Cristiano Freitas, presidente da Associação dos Docentes da Uesb [Adusb], não se sente desanimado. "Nenhum governo atende a uma greve de imediato para dissociar as conquistas do esforço do movimento".
Estrutura – Mesmo sem greve, os alunos de todos os campi reclamam da falta de professores na sala. Roque Moura, 21, que estuda fisioterapia em Jequié, ficou sem cursar três matérias no último semestre porque os professores já estavam com a grade ocupada por outras turmas. Nas férias, a sala dele vai receber um curso de verão, onde só serão repostas duas disciplinas. Um semestre vai virar 10 dias, cada um com quatro a sete horas de aula.
Abel Rebouças, reitor da Uesb desde 2002, diz que sabe do problema e promete um concurso para professores ainda este ano.
Para Anderson, a biblioteca é deficiente. O exemplo está na sua turma: “Muitas vezes, 80 alunos precisam dividir três exemplares de um mesmo livro“. Manuelle Cardozo, 21, namorada dele, faz enfermagem e tem a mesma queixa. “Ou faltam livros ou eles estão muito mal conservados e desatualizados”. Em Itapetinga, onde foi construída uma nova biblioteca, Soliene Adorno, 22, aluna do curso de química, diz que os livros são tão poucos que as prateleiras ficam vazias.
Segundo Abel Rebouças, serão investidos, ainda este ano, R$ 500 mil na compra de obras novas. “O reitor só vê alegria na Uesb“, ironiza Renato Freitas, 19, aluno de direito em Conquista, que gasta em média R$ 280 por semestre com livros.
Renato reclama também da falta de projetores e retroprojetores. Segundo ele, algumas aulas são improvisadas por falta do audiovisual. Soliene e Davi, de Itapetinga, concordam. “Além disso, cabia fazer uma reforma nos laboratórios, falta muito material e têm até goteira“, critica Davi.
Laboratórios também são problema para Ney Santana, 25, veterano de jornalismo em Conquista. Ele vai concluir o curso este ano e nunca entrou em um laboratório de fotografia. Na aula de jornalismo impresso, 40 alunos dividem 15 computadores. Na sala de rádio, a impressora é matricial.
“Implantaram o laboratório de telejornalismo no ano passado. Tudo aqui é conseguido com luta. Nada é fácil”, revela Ney, que é o coordenador geral do DCE da cidade.
O reitor segue gestão até 2010. Ele reconhece as críticas dos alunos e promete, também para 2008, a construção de dois novos prédios, um em Vitória e um em Jequié – projetos que, segundo os estudantes, estão no papel há dois anos. Abel Rebouças também assegura que os laboratórios serão reformados em três anos. Para ele, os problemas existem porque “a instituição é nova e tem crescido muito depressa“.
Ensino – O conhecimento na Uesb fica limitado a sala de aula para a maioria dos alunos. São oferecidas 387 bolsas de atividades extracurriculares, o que atende a 5,8% dos estudantes. “Tento uma bolsa de monitoria há dois semestres e não consigo“, reclama Anderson. Das bolsas bancadas pela Uesb, o maior valor pago era R$ 140 e o menor, R$ 120. Mas segundo a gerente de pesquisa Elizane Teles, “o valor antigo foi considerado muito baixo e irá para R$ 300 em 2008“.
Apesar da estrutura problemática, os alunos elogiam o ensino. “Temos excelentes professores no curso de direito, que têm a cabeça boa e abrem espaço para discussão“, elogia Renato. Soliene também gosta da universidade e é otimista quanto ao futuro. “Em janeiro, fizemos uma manifestação e nos garantiram melhorias. Espero que não fique só na conversa“.
Alunos reclamam da falta de assistência estudantil
Não existem residências universitárias na Uesb. Atualmente, os estudantes de outras cidades precisam arcar com gastos de moradia e alimentação, além de despesas adicionais, como compra de livros e cópias, devido a deficiência da biblioteca. Ainda há gasto de impressão para os alunos que entregam os trabalhos feitos no computador. “Para alguém de fora se manter bem em Jequié, só ganhando mais que R$ 350”, diz Anderson, que recebe ajuda dos pais. Ele, que faz um curso diurno, considera quase impossível estudar de manhã, de tarde e trabalhar à noite.
Para diminuir as despesas, Anderson foi morar em uma república. Ele saiu de Salvador para dividir uma casa com duas colegas. Um de seus maiores gastos é com alimentação, já que não há restaurante universitário no campus da cidade.
Buscando melhorias, entrou no Centro Acadêmico do seu curso. “As pessoas acham que é só passar na universidade, se formar e ir trabalhar. Mas e os nossos filhos, que Uesb vão encontrar?”
Em Itapetinga, Davi Fogaça também se mantinha com ajuda dos pais, mas hoje usa o dinheiro de uma bolsa de iniciação científica da Fapesb, que paga R$ 350. Ele mora numa república com quatro colegas e sente falta de apoio da universidade.
Ney deu mais sorte que Davi e Anderson. Em Conquista, ele e dez colegas moram em uma residência universitária da prefeitura. A secretaria de educação paga o aluguel, água e energia, o que diminui seus gastos em mais de R$ 100. “Foi algo conseguido em vésperas de eleição. Não sabemos o que pode acontecer se mudar o prefeito“, ressalva. Além da casa, em Conquista há um bandejão universitário, que cobra R$ 3,25 pelo almoço.
Ney reclama: “Falta uma política efetiva de assistência estudantil. E isso é sério, porque aumenta a desistência. É muito difícil se manter na universidade”.
A falta de programas de apoio é a queixa mais freqüente entre os alunos. Segundo o reitor, 64% vêm de escola pública e 30% de outras cidades. Este ano, ele promete investir R$ 500 mil em assistência estudantil. A principal garantia dos estudantes, garante, é a residência universitária em Vitória da Conquista, que “com certeza” será implantada em março. No campus da cidade, 12 alunos ocuparam um dos prédios do campus e fizeram uma residência provisória, mas não têm estrutura adequada e podem ser expulsos a qualquer momento.
Para o professor Reginaldo Silva, que estuda a implantação da assistência na Uesb, R$ 500 mil é pouco para as necessidades da instituição. “Esse dinheiro vai embora só na construção do restaurante universitário e das moradias”. Segundo Reginaldo, o governo havia prometido R$ 2 milhões. “Com isso, dava para começar a resolver alguma coisa“.
A comissão dele apresentará em março o relatório final com as prioridades da Uesb em assistência estudantil. Eles também definirão a implantação ou não das cotas. Atualmente, a Uesb é a única universidade pública da Bahia que não adota o sistema.
Colaborou Tatiana Mendonça


