Com o desenvolvimento das cidades, Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da Grécia, vivendo seu período de esplendor durante o século V a.C., conhecido como Século de Péricles.


A democracia grega possuía, entre outras, duas características de grande importância para o futuro da Filosofia. Em primeiro lugar, ela afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da pólis.

Em segundo lugar, a democracia, que era indireta e não previa a eleição de representantes, garantia aos cidadãos a participação no governo, concedendo a eles o direito de discutir e defender suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do cidadão.


Ora, pra conseguir que sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadão precisava saber falar e ser capaz de persuadir.


Quando não havia democracia, mas dominavam as famílias aristocráticas, senhoras das terras, o poder lhes pertencia. Essas famílias criaram um padrão de educação próprio dos aristocratas. Esse padrão afirmava que o homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e bom.


Quando, porém, a democracia se instala e o poder vai sendo retirado dos aristocratas, esse ideal educativo ou pedagógico vai sendo substituído por outro. O ideal da educação do Século de Péricles é a formação do cidadão.


Ora, qual é o momento em que o cidadão mais aparece e mais exerce sua cidadania? Quando opina, discute, delibera e vota nas assembléias. Assim, a nova educação estabelece como padrão ideal a formação do bom orador, isto é, aquele que sabe falar em público e persuadir os outros na política.


Para dar aos jovens essa educação, surgiram na Grécia os sofistas, dos quais os mais importantes foram: Protágoras de Abdera, Górgias de Leontini e Sócrates de Atenas.

Eles diziam que os ensinamentos dos filósofos cosmologistas (aqueles que buscavam uma explicação racional e sistemática sobre a origem e transformação da natureza e do homem) estavam repletos de erros e contradições e que não tinham utilidade para a vida da pólis. Apresentavam-se como mestres de oratória ou de retórica, afirmando ser possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem bons cidadãos. Que arte era essa? A arte da persuasão.


O filósofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra os sofistas, dizendo que eles não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse vantajoso. Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valerem tanto quanto a verdade.


Sócrates concordava com os sofistas em um ponto: por um lado, a educação antiga do guerreiro belo e bom já não atendia às exigências da sociedade grega, e, por outro, os filósofos cosmologistas defendiam idéias tão contrárias entre si que também não eram uma fonte segura para o conhecimento verdadeiro.


Sócrates propunha que, antes de conhecer a natureza e de querer persuadir os outros, cada um deveria, primeiro, conhecer-se a sim mesmo. A expressão “conhece-te a ti mesmo”, gravada no pórtico do templo de Apolo, deus da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.


Esse filósofo andava pelas ruas de Atenas, pelo mercado e pela assembléia indagando a cada um: “Você sabe o que é isso que está dizendo? Você sabe o que isso em que você acredita?” “Você diz que a coragem é importante, mas o que é a coragem? Você acredita que a justiça é importante, mas o que é a justiça? Você crê que seus amigos são a melhor coisa que você tem, mas o que é a amizade?”


As perguntas de Sócrates deixavam os interlocutores embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao célebre “o que é?, descobriam que não sabiam responder a essa questão e que nunca tinham pensado em suas crenças, seus valores e suas idéias.


A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia. O que procurava Sócrates? Procurava a definição daquilo que uma coisa, uma idéia, um valor é verdadeiramente. Procurava a essência verdadeira da coisa, da idéia, do valor. Procurava o conceito, e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das idéias e dos valores.


Ora, as perguntas de Sócrates se referiam a idéias, valores práticas e comportamentos que os atenienses julgavam certos e verdadeiros. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os fazia pensar não só sobre si mesmos, também sobre a pólis. Aquilo que parecia evidente acaba sendo percebido como duvidoso e incerto.


Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se ninguém pensar. Para os poderosos de Atenas, Sócrates tornara-se um perigo, pois fazia a juventude pensar. Por isso, eles o acusaram de desrespeitar os deuses, corromper os jovens e violar as leis. Diante da assembléia, à qual foi levado, Sócrates não se defendeu e foi condenado a tomar um veneno – a cicuta – e obrigado a suicidar-se.