Livros exigidos nos principais vestibulares. Uma antologia de obras-primas da ficção curta. Para Júlio Cortazar, conto é aquele texto que corre em poucas linhas e em alta velocidade narrativa, capaz de nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado. Coube ao professor Ítalo Moriconi o desafio lançado pela Objetiva de garimpar os cem melhores textos do gênero produzidos no Brasil ao longo do século 20.
Um trabalho que deixasse de lado os rígidos critérios acadêmicos e fosse pautado somente pela qualidade e sabor dessas pequenas obras-primas. O resultado é a coletânea OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO, um passeio pela mais deliciosa e contundente ficção curta produzida no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90.
Uma antologia capaz de traduzir as mudanças do país e as inquietações de várias gerações de brasileiros, em cem anos de produção literária. A prova de que a arte do gênero não cessa de melhorar em nossa literatura.
Abrindo o volume, Pai contra mãe, de Machado de Assis que, por sorte do leitor, ainda estava vivo nos primeiros anos do século 20 (morreu em 1908). A edição separou os contos por períodos históricos, precedidos de nota introdutória apresentando os traços mais característicos do período: os diferentes caminhos da literatura no início do século; a consagração do modernismo nos anos 40 e 50; os conflitos de identidade dos anos 60; a violência da vida urbana dos anos 70; a exploração sem censura do corpo dos anos 80; a criativa irreverência dos anos 90.
Durante o trabalho de seleção dos contos, Ítalo Moriconi se deparou com algumas constatações. Entre elas a de que o Brasil produz um dos mais bem acabados contos do mundo, e que eles só melhoram com o passar do tempo.
Ainda: a partir dos anos 60, o texto curto explodiu no País, consolidando-se nos anos 70, que entrou para a história da literatura brasileira como a década do conto. Nos anos 80, houve um retorno do romance. Mas é justamente nesta época, ressalta Moriconi, que saltaram às prateleiras produções como as de Caio Fernando Abreu e Sérgio Sant`Anna.
Para ilustrar esse instigante e rico panorama, Moriconi escalou craques: João do Rio, Clarice Lispector, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Dinah Silveira de Queiroz, J.J.Veiga, Rubem Fonseca, Ana C. César, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hilda Hilst, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Victor Giudice, João Antônio, Luiz Fernando Veríssimo, Raduan Nassar e Nélida Piñon, entre outros.
Ítalo Moriconi é doutor em Letras e professor de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
DE 1900 AOS ANOS 30
MEMÓRIAS DE FERRO, DESEJOS DE TARLATANA
“Entre o passado triste e rural que persiste e o futuro vertiginoso que não chegou, o presente das primeiras décadas do século 20 explora linguagens diversas. Estamos rompendo os ferros da escravidão, alimentamos sonhos de carnaval e tarlatana, velocidade e multidão. São décadas em que ainda não existe uma linguagem brasileira padrão. Por isso, os contistas experimentam os mais variados estilos – desde os estrangeirismos à la mode de João do Rio aos regionalismos gaúcho e paulista de Simões Lopes Neto e Alcântara Machado, passando pelo insuperável, o eterno e moderno Machado de Assis. Por sorte, o maior escritor brasileiro do século 19 ainda estava vivo nos primeiros anos do século 20 (morreu em 1908). Tempo suficiente para escrever a obra-prima com que abrimos este volume”. (Ítalo Moriconi)
Pai contra mãe
Machado de Assis
Cândido Neves não gostava de trabalhar e não ficava muito tempo em emprego algum, depois de tentar vários ofícios assume a função de capturar escravos fugidos. Cândido casa-se com Clara que era órfã e morava com a tia Mônica. Os três passam a morar juntos e apesar da pobreza, divertem-se e fazem pancadas (festas). Até que o casal decide ter um filho, a contra gosto da tia.
Durante a gravidez, a situação financeira da família vai piorando até que no nono mês de gravidez de Clara, eles são despejados. Quando nasce o filho, tia Mônica insiste para que o menino seja entregue na “Roda dos enjeitados” para ser adotado. Cândido e Clara sofrem muito, mas aceitam. No caminho para a Roda, Cândido vê uma escrava fugida, captura a mulher e recebe uma gorda recompensa, podendo então manter seu filho em casa. Acontece que a escrava capturada estava grávida, e provavelmente abortou com os castigos recebidos pelo seu dono quando a recebera. Ficando,então, da amarga ironia de vida do filho de Candinho ter custado a vida do filho da escrava. Nesse final se justifica o título do conto Pai (Candinho) contra Mãe (escrava fugida).
O bebê de tarlatana rosa
João do Rio
Heitor de Alencar conta aos amigos barão Belfort, Anatólio de Azambuja e Maria Flor uma história que acontecera com ele num carnaval.
Na busca da luxúria e do prazer, Heitor cerca-se de amigos e atrizes no carnaval. Na primeira noite decidem ir a um clube de baixo nível o popular Recreio. Nesta boite Heitor se interessou por uma mulher fantasiada de bebê de tarlatana rosa, dá-lhe um beliscão e se separam.
Encontram-se brevemente mais uma vez na segunda de carnaval e na terça, quando Heitor no final da festa ia para casa, encontra novamente o “bebê”. Leva a moça para uma rua escura e começa a beijá-la, sente que ela tem um nariz postiço da fantasia, pede para tirá-lo e o “bebê” diz não. Mas Heitor insiste e enquanto beija, arranca o nariz postiço e vê “uma cabeça estranha, cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma caveira com carne...” Sentindo nojo, Heitor começa a sacudi-la quando um guarda apita, Heitor sai correndo em desespero. Quando chega em casa percebe em sua mão “uma pasta oleosa e sangrenta”. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa.
A nova Califórnia
Lima Barreto
É uma crítica à ganância. Neste conto, um químico misterioso chamado Raimundo Flamel aparece na cidade de Tubiacanga. Anos depois de sua chegada, faz uma experiência na qual transforma ossos humanos em ouro. Ele convida três testemunhas (o farmacêutico, um fazendeiro e o coletor) para o ato, o realiza e depois desaparece da cidade. Então, os túmulos do cemitério da cidade, o "Sossego", começam a ser violados. Quando depois de um escândalo prendem dois violadores, eles eram o fazendeiro e o coletor, duas das testemunhas da experiência alquímica. Os dois revelam que havia um terceiro violador: era o farmacêutico. Quando a população descobre, vai até a casa do farmacêutico que promete divulgar a fórmula para transformar ossos humanos em ouro no dia seguinte. Assim, naquela madrugada a população inteira se esgueira para o cemitério para violar tantos túmulos quanto puderem (e ter tanto ouro quanto puderem depois). O que acontece é uma carnificina que deixa no cemitério em uma noite mais mortos que nos 30 anos anteriores. O único que não se mete na confusão é um bêbado da cidade, que calmamente anda na cidade-fantasma.
Dentro da noite
João do Rio
Um homem no metrô ouve o diálogo entre Rodolfo e Justino. O segundo pergunta ao primeiro porque andava sumido. Perguntava-se na cidade o motivo do rompimento do noivado de Rodolfo com Clotilde, jovem bela que então vivia chorando, ela e a família que estavam antes tão felizes com o noivado. Rodolfo então explica que fora obrigado a terminar o compromisso com a moça depois de os pais descobrirem suas tendências sádicas. Rodolfo conta que sentia prazer em enfiar alfinetes nos braços de Clotilde e ela vendo que a perturbação mental do rapaz só diminuía com a satisfação daquela tara, resignada consentia. Depois de descoberto, Rodolfo é obrigado a terminar o noivado e passa a pagar prostitutas para satisfazer seu sadismo e ainda conversando com Justino no metrô revela que ultimamente andava a escolher suas vítimas na rua, e quando uma loura embarcou noutro vagão, Rodolfo deixa-o para persegui-la.
A caolha
Júlia Lopes de Almeida
Conta-se a história de uma mulher repugnante, sem o olho esquerdo e que vivia a soltar pus da cavidade ocular vazia. A caolha tinha um filho – Antonico – que desde cedo sofria humilhações por causa do defeito da mãe – era chamado “o filho da caolha”. Quando criança Antonico abraçava e beijava a mãe, mas com o tempo passou a ter nojo e vergonha dela.
Depois de ser humilhado na escola e nos empregos por que passava, Antonico, já na juventude trabalhando de alfaiate, arranja uma namorada que lhe impõe como condição para que se casem que o rapaz abandone sua mãe.
Quando Antonico vai comunicar sua saída de casa, inventando uma necessidade de trabalho, a mãe o expulsa dizendo saber que ele tem vergonha dela. Arrependido, no dia seguinte, Antonico procura a madrinha, única amiga da caolha, para que interceda em seu favor junto à mãe.
A madrinha o leva à casa da caolha e revela o que sempre a mãe ocultava ao filho: que ela havia ficado caolha por culpa do filho que quando neném enfiou-lhe um garfo no olho esquerdo. Ao saber disso o filho desmaia e a mãe lamenta.
O homem que sabia javanês
Lima Barreto
O Homem que sabia Javanês não o sabia realmente. O conto é um relato de um amigo a outro sobre uma das espertezas que usou para sobreviver: fingir saber javanês e ensiná-lo. Logo aprendeu o alfabeto e meia dúzia de palavras e pôs-se a ensinar o velho que o contratou; logo já “lia” em javanês para o velho (que desistira de aprender) e publicava sobre Java. Foi nomeado cônsul e representou o Brasil em uma reunião de sábios; deu palestras e publicou pelo mundo sobre Java. No final do conto ainda estava em cargos consulares por “saber” javanês.
Pílades e Orestes
Machado de Assis
Quintanilha e Gonçalves eram muito amigos, na verdade o primeiro travava o segundo como um pai, ou até mais. Quintanilha tinha por Gonçalves verdadeira adoração, brigou com sua família por causa do amigo, emprestava-lhe dinheiro, ajudava-o em seu trabalho, dava-lhe presentes.
Até que um dia Quintanilha se aproxima de uma prima chamada Camila e se apaixona por ela. Quando vai revelar isso a Gonçalves, percebe que o amigo também amava Camila e mesmo sofrendo desiste de seu amor em favor do amigo.
Camila e Gonçalves casam e Quintanilha torna-se padrinho dos filhos do casal. Quintanilha morre tempo depois, atingido por uma bala perdida. Em sua lápide a simples frase: “Orai por ele!”
O título remete à mitologia grega.
Contrabandista
João Simões Lopes Neto
Conto em 3a pessoa, escrito numa linguagem “gaúcha”, marca de seu autor, repleto de coloquialismos, neologismos e expressões regionais. Entre flashbacks e referências à história do Brasil e do Rio Grande (Farrapos, Paraguai) conta-se a história de Jango Jorge, homem velho e valente que daria festa de casamento à sua filha. Na madrugada de véspera do casamento saiu para trazer o enxoval da filha, mas naquela época, segundo o narrador, que era um dos convidados, não se podia haver comércio na região e o que se fazia era o contrabando. Quando todos esperavam no dia seguinte pelo vestido, chega Jango Jorge em seu cavalo, estava baleado. No momento em que tiram-no do cavalo percebem que ele trazia o vestido branco da filha manchado com o seu sangue.
Negrinha
Monteiro Lobato
Negrinha é narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças."
D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava. A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe beliscões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio.
Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
- Sentadinha aí e bico, hein?"
Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em hora. Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim...
Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da peste que grassava...
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..."
D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa roda de cocres bem fincados!..."
Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz...
O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa...
Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, reconchudas, louras, "criadas em ninho de plumas."
E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : "E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..."
Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim.
Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia.
Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre.
Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos..."
No final da narrativa, o narrador nos alerta:
“E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas”.
- "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?"
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia:
- "Como era boa para um cocre!..."
É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez.
Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda.
É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.
Galinha cega
João Alphonsus
Conto com toques de realismo fantástico, em 3a pessoa.
Um carroceiro compra uma galinha pela qual tem incomum carinho. Tempos depois de comprá-la, seu dono percebe que a galinha ficara cega. Então passa a dar-lhe de comer e beber pessoalmente todos os dias. Certo dia, crianças brincam de chutar a galinha e o carroceiro as chicoteia. Um dos meninos é filho do delegado e o dono da galinha é preso. Voltando pra casa, vê que a sua galinha fora estrangulada, pergunta à mulher quem fora e ela diz ter sido um gambá. Após esbofetear a mulher por não ter defendido sua galinha, o carroceiro é preso mais uma vez.
Depois de sair da prisão, o carroceiro arquiteta a vingança contra o gambá. Faz uma armadilha deixando cachaça para o animal. À noite quando finalmente está diante do gambá embriagado e pronto para a vingança, o carroceiro deixa o animal ir embora. O gambá sai do galinheiro.
Gaetaninho
Alcântara Machado
Gaetaninhio era um jovem que sonhava sempre em ir na frente de um cortejo fúnebre; atropelado por um bonde, acaba realizando, morto, seu sonho.
Observamos na obra de Alcântara Machado, como traço mais característico o uso de expressões italianas para marcar a influência da imigração e da miscigenação racial na constituição da sociedade paulistana.
Em Gaetaninho há uma divisão do conto em cinco cenas, característica notadamente cinematográfica, dada pelo corte narrativo existente de uma cena para outra, introduzindo uma nova situação, em um tempo e espaço também novos. Essa superposição de cenas compõe o todo como uma colagem, como se o narrador estive com uma câmera fotografando cena por cena.
Um dos recursos utilizados pelo autor para ilustrar a ação do personagem é a linguagem radiofônica. Como se fosse um locutor esportivo, o narrador descreve os fatos.
O ambiente da trama é constituído por traços leves, demonstrando uma certa preocupação jornalística, mas que, no entanto, consegue identificar perfeitamente a condição sócio-econômica das personagens, como na passagem:
“Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.”
Ainda neste trecho, notamos um certo valor social presente no desejo de Gaetaninho de andar de automóvel e ser admirado pelas pessoas, valor que talvez fosse associado como representação da elite, do status econômico.
O final do conto é surpreendente, tanto pela rapidez com que se dá a morte de Gaetaninho, quanto pela ambigüidade causada pela frase “Amassou o bonde”. Tomando-se o sentido do verbo amassar em português e sabendo que em italiano ammazzare significa matar, permite uma dupla interpretação do trecho final, já que não se sabe se foi o garoto que atropelou o bonde ou contrário, o que garante, para um final que parecia ser trágico, um caráter cômico.
Baleia
Graciliano Ramos
Baleia é um dos capítulos da obra Vidas Secas de Graciliano Ramos. Esta história começa com a fuga de uma família da trágica seca do sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinhá-Vitória, a mãe, os dois filhos e a cachorra Baleia. Fabiano é um vaqueiro, homem bruto que tem enorme dificuldade em articular palavras e pensamentos, que se sente um bicho e muitas vezes age como tal, grunhindo e se portando como um selvagem. Sinhá-Vitória, sua esposa, se sai melhor em seus pensamentos e diálogos, apesar de restritos. O menino mais novo parece não ter nome e nem uma forma comum de se comunicar. Sua única aspiração é ser como Fabiano. Nas mesmas situações está o filho mais velho, que só quer um amigo, conformando-se com a presença da cachorra Baleia. Esta, muitas vezes, parece ter um pensamento mais linear e humano que o resto da família, portando-se não só como um bicho, mas como um ser humano, uma companheira que ajuda Fabiano e sua gente a suportar as péssimas condições.
A história se desenvolve com o estabelecimento da família numa fazenda e a contratação de Fabiano como vaqueiro.
Em um dado momento da história, Baleia adoece e Fabiano se vê na árdua tarefa de sacrificá-la. Fere o pobre bicho com um tiro, mas não consegue matá-lo, já que este foge para longe. Baleia vem a falecer durante a noite, perto da casa, sonhando com um mundo cheio de lebres...
Uma senhora
Marques Rebelo
Dona Quinota é empregada, casada com seu Juca e mãe de Élcio, Élcia e Elcina. Trabalha o ano todo para extravasar no carnaval, esta festa é o único momento em que Dona Quinota esbanja e vive intensamente, fantasia a si e à família e aluga um carro para desfilar.
Após o término do baile, o vizinho invejoso, Adalberto, pergunta se os vizinhos se divertiram e dona Quinota responde “assim, assim”, mas na verdade Quinota apenas esconde sua realização da inveja do vizinho. O conto termina com a indignação de Quinota diante do resultado de um concurso de blocos.
ANOS 40/50
MODERNOS, MADUROS, LÍRICOS
Em torno da primeira metade do século, nossos escritores estão mais maduros. Escrevem numa língua que também amadureceu, está mais uniforme e representativa daquela usada no cotidiano pelos brasileiros educados, de qualquer lugar do país. O passado rural começa a desaparecer efetivamente, tornando-se objeto mais de nostalgia do que de rejeição. As relações afetivas passam a constituir a verdadeira utopia do brasileiro, e também exibem seu lado difícil. Descompassos na família. Saudades. Lirismos. Na época da consagração definitiva do movimento modernista, predominam na literatura o romance, a crônica e a poesia, mas a amostra apresentada nesta seção revela que alguns dos mais belos clássicos do conto brasileiro moderno foram publicados nesse período. (Ítalo Moriconi)
Viagem aos seios de Duília
Aníbal Machado
Depois de aposentar-se, José Maria volta ao lugarejo onde nasceu para reencontrar a moça que lhe proporcionara um momento inesquecível. Quando era adolescente e estava prestes a partir do interior para a cidade grande, Duília, uma adolescente, numa procissão, leva-o para trás de uma árvore e mostra a José os seios lindos e brancos. Agora José Maria aposentado e decepcionado com sua vida metódica e solitária decide voltar ao seu lugar de origem para rever Duília.
Após uma longa viagem do Rio de Janeiro até Pouso Triste, Minas Gerais, José Maria finalmente acha Duília, que se tornara professora e estava velha e decadente. Depois de conversarem alguns momentos, José percebe que não pode recuperar o tempo perdido e sai correndo da casa de Duília indo embora.
O peru de natal
Mário de Andrade
Juca rejeitava a figura do seu pai, homem de "natureza cinzenta", "ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre":
"...Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres".
Passavam-se cinco meses da morte do pai e era Natal.
Nas ocasiões natalinas anteriores, nada de "gostoso" acontecia. Tudo tinha sabor de chateação. Não se gastava dinheiro com peru. Agora, Juca queria um Natal com peru.
Era louco, sim. A família toda, mãe, irmãos, parentes chatos, todos o tinham por doido. Ele próprio se aproveitava de tal situação para dar explicação a seu comportamento "diferente".
Absurda a idéia de Juca venceu. Havia peru com farofa no Natal. À mesa, a mãe, ele e os irmãos. Juca sente extrema afeição pela mãe, pela tia (que morava com eles) e pela irmã, as três mulheres-mães dele.
Peru posto na mesa. E evocação da figura do pai. Uma raiva do defunto toma conta de seus sentimentos. O peru morto é destrinchado. O pai é destrinchado. É uma luta com o peru. É uma luta com a memória do pai.
Aos poucos, diante da felicidade de ver a família reunida, comungando a ceia de Natal, a figura indesejada do pai vai-se anulando. A guerra vai sendo vencida. O pai agora distante: uma estrelinha lá no céu.
Acabada a refeição, todos vão descansar. Juca sai para ver Rose. Beija as três. Para a mãe, ele pisca.
Nhola dos Anjos e a cheia de Corumbá
Bernardo Elis
Conto em 3a pessoa que apresenta transcrições da linguagem interiorana. Ex. “Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis.”
Nhola dos Anjos vive com o filho Quelemente e seu neto num rancho de palha castigado há décadas pelas chuvas constantes na região de Capivari, no Corumbá. Certo dia, a enchente inunda seu ranchinho e Nhola, Quelemente e o menino usam a porta do casebre como jangada improvisada para se salvarem da inundação. Quando a jangada aproxima-se perigosamente da cachoeira, Nhola dos Anjos, que era paralítica, cai e segura-se apenas por uma das mãos à jangada. Vendo que a posição da mãe arriscava sua vida e de seu filho, desesperado, Quelemente chuta o rosto da mãe, vendo que ela ainda se agarrava, o filho chuta novamente com mais força e a mãe se solta da porta-jangada. Contudo, este pontapé faz com que Quelemente caia. Só então ele percebe que estavam sobre uma parte rasa, pois seus pés tocam o chão. A mãe não podia saber disso por ser paraplégica. Então, Quelemente, arrependido começa a gritar pela mãe: “Mãe, ô mãe! Eu num sabia que era raso” e entra cada vez mais nas águas chamando pela mãe, sendo encoberto lentamente pela enchente.
Presépio
Carlos Drummond de Andrade
Conto de introspecção psicológica, em 3a pessoa. Conta a história de Dasdores que na noite de natal possui um dilema: ou assistia à Missa do Galo e encontrava o namorado Abelardo, ou montava o presépio em casa, função que no lar só ela desempenhava por tradição. O conto todo narra a angústia de Dasdores em aprontar o presépio e as lembranças do namorado. O narrador habilmente interpõe o trabalho de Dasdores “colocando os pastores na posição” e sua consciência “decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de Abelardo”. O conto termina com a noção de que Dasdores não consegue encontrar Abelardo, pois o senhor desta história é o relógio, ou seja, o tempo, contra qual não se pode lutar.
O vitral
Osman Lins
Conto em 3a pessoa, curto e extremamente lírico.
Matilde, uma senhora de idade, avisa ao marido Antônio que seu aniversário cairá num domingo e ela deseja tirar um retrato com o esposo. O marido zomba, no início, dizendo serem ambos velhos e sós, sem filhos, mas depois consente. Matilde fica apreensiva até o dia do aniversário, num estado em que se encontrara a vida toda entre “a espera das alegrias e o receio de não as obter”.
Quando chega o dia, Matilde sai com o marido para tirar o retrato e sente-se imensamente feliz e diz ao marido que a foto vai reter um pouco dessa felicidade, e o marido responde: “Não é possível guardar a mínima alegria. Em coisa alguma. Nenhum vitral retém a claridade.” Ele concorda refletindo: “Que este momento me possua, me ilumine e desapareça. Eu o vivi. Eu o estou vivendo.” Sentia que a luz do sol a trespassava, como a um vitral.
Um cinturão
Graciliano Ramos
“As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas(...). Eu devia ter quatro ou cinco anos (...) e figurei na qualidade de réu. (...)
Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. (...) Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. (...) Não guardei ódio da minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. (...)
Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme, (...) levantando-se de mau humor. (...) Sei que estava bastante zangado, (...) e fui encolher-me num canto. (...) Arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia. (...)
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam. (...)
Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. (...) Onde estava o cinturão? (...) A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. (...) O suplício durou bastante. (...)
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, (...) sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, era o maldito cinturão,que desprendera a fivela quando se deitara. (...)
Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu não o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou. (...) Esse foi o primeiro contato que tive com a justiça.”
O pirotécnico Zacarias
Murilo Rubião
Conto pertencente à literatura fantástica. Um morto insepulto sai em noitada com um grupo de jovens que o haviam atropelado, causando a sua morte.
"Teria morrido o pirotécnico Zacarias?" Uns achavam que Zacarias estava vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança com ele. Outros, mais supersticiosos, acreditavam que Zacarias estava morto: "o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano". Há os que estão convictos do seu falecimento "e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado. Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado".
O próprio Zacarias poderia dar explicações sobre as controvérsias, mas quando se aproxima dos amigos, eles fogem assustados. Ou então, ficam mudos, estarrecidos.
Zacarias estava caminhando tranqüilamente pela estrada (estrada no Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio), viu as luzes do automóvel (mas não ouviu a buzina) e foi atropelado. As moças soltaram gritos histéricos, os rapazes ficaram curados da bebedeira.
A primeira idéia consistia em levar o defunto para a cidade, onde o deixariam no necrotério. Mas o corpo poderia sujar o carro. "E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto". Jorginho, "forte e imberbe _ único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos _ propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério". Mas assim seria valorizar o cadáver e menosprezar as moças.
Por fim, a solução final: lançar o cadáver ao precipício, "um fundo precipício, que margeava a estrada". Depois, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa". Esta solução desagradou Zacarias; resolveu intervir:
"- Alto lá! Também quero ser ouvido".
"Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me".
O defunto falou com a mesma lógica que usava quando era vivo, e os seus argumentos deixaram o grupo em dúvida. Um dos rapazes arranjou a solução: propôs incluir o defunto no grupo e, juntos, terminarem a farra, interrompida com o seu atropelamento.
Só havia um obstáculo: eram três rapazes e três moças; o defunto ia ficar sem companhia. O mesmo rapaz que aconselhara a inclusão do cadáver no grupo encontrou a fórmula conciliatória: "que abandonassem o colega desmaiado na estrada". Para melhorar o aspecto do defunto, bastaria trocar as roupas dele pelas de Jorginho. O defunto aceitou na hora, e a farra continuou.
Os acontecimentos, no outro dia, ficaram meio confusos na cabeça de Zacarias.
"A bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em formas de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico".
Ao amanhecer, Zacarias lembra-se de alguém perguntando onde ele queria ficar. Não adiantou a sugestão do cemitério: Zacarias foi deixado em um lugar qualquer da cidade.
A vida depois da morte esbarrava na discriminação dos vivos. A falta total de notícias sobre sua morte elevava o grau de desespero. As tentativas de contato com os companheiros da noite fatal resultaram inúteis.
A vida de defunto foi ajustando-se aos poucos. Só um pensamento oprimia Zacarias: "que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a angústia crescia ao sentir que a sua capacidade de amar, discernir as coisas, era bem superior à dos seres que por ele passavam assustados".
Gringuinho
Samuel Rawet
Conto em 3a pessoa, marcado pelo fluxo da consciência. O narrador usa o discurso indireto livre para passear pelos pensamentos da personagem principal: um menino imigrante judeu, sofrendo ao tentar adaptar-se ao novo país. A história obedece aos vai-e-véns da memória do menino que relembra sua terra natal em comparação aos dias atuais, em que é provocado por colegas da escola pelo apelido “Gringuinho”.
O menino chega em casa, vindo da aula e recorda que fora chamado pela professora para ler, mas os colegas sussurrando o apelido “Gringuinho” o distraíram. A professora então vai castigá-lo dando-lhe reguadas nas mãos, ante a satisfação do restante da classe. Gringuinho, entretanto, afasta a professora, não se conteve e esmurrou-lhe o peito rasgando seu o vestido.
O afogado
Rubem Braga
Rubem Braga é o maior cronista brasileiro e nesta crônica que muito se aproxima do conto, apresenta em 3a pessoa um banhista que se vê na iminência de um afogamento. Vencendo o desespero, o cansaço e as ondas que ameaçavam arremessá-lo em um rochedo, o nadador consegue sozinho salvar-se. Depois de chegar à praia, olha com desdém os outros banhistas, pois ele sente-se superior a eles, uma idiota superioridade de quem não morreu.
Tangerine-Girl
Rachel de Queiroz
Uma moça que morava próximo a uma base norte-americana situada no Brasil (Ceará), certa manhã, depois do café, ao sacudir as migalhas de pão da toalha da mesa em seu quintal, desperta a atenção de um soldado que sobrevoava sua casa num dirigível (blimp ou zepelim). O soldado deixa então cair uma caneca branca com a mesma inscrição do blimp “U.S. Navy”. A partir daí, todos os dias a moça sai ao quintal para acenar e receber “presentes” de seu soldado. Um namoro entre “um gavião e uma gazela”. Após meses, a Tangerine-Girl, como era conhecida na base (por ser ruiva, ter um laranjal no quintal) recebe um bilhete para fazer uma visita à base.
No dia marcado ela está ansiosa por conhecer seu “marinheiro enamorado”, mas tem uma decepção, pois vai ao seu encontro um grupo de soldados que alegremente se apresentam.
Então a menina percebe que estava enganada. Não havia um enamorado, mas os soldados se revezavam nos vôos do blimp, muitos até já haviam sido transferidos. A Tangerine-Girl sai correndo, envergonhada, chorando.
Nunca mais a viram no laranjal; embora os soldados insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão esquecidos – ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.
Nossa amiga
Carlos Drummond de Andrade
Conto em 3a pessoa estruturado predominantemente de discurso direto (diálogos). É a descrição das atitudes de uma criança de três anos, Luci Machado da Silva. Em visitas constantes a um vizinho, são descritas com lirismo as “excentricidades” da criança. O conto encerra com a descrição da menina brincando de mãe com um filho imaginário, e quando interrompida pára a brincadeira fazendo desaparecer o filho.
“Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho, ante os soldados de Herodes.”
Um braço de mulher
Rubem Braga
Em 1a pessoa, esta crônica retrata um narrador-personagem num avião em meio a uma turbulência. Ao seu lado uma senhora se apavora e segura-se em seu braço. Sentindo-se seu protetor, o narrador afaga-lhe a mão para tranqüilizá-la. O homem que no início olha para a morte com certo desdém e tédio, após ver o braço da mulher apavorada na poltrona da frente, relembra bruscamente da alegria de viver e de amar uma mulher e deseja ardentemente a partir desse momento salvar-se. O avião consegue pousar com êxito e na despedida no aeroporto a mulher, agora acompanhada pelo marido, dá um último sorriso ao narrador.
As mãos de meu filho
Érico Veríssimo
Conto narrado em 3a pessoa, mas que se vale do discurso indireto livre para revelar o íntimo das personagens.
Num teatro há um concerto de piano feito pelo jovem pianista Gilberto. O narrador faz o leitor ir e vir no tempo, relatando ora o concerto, ora as lembranças da mãe na platéia, ora voltado ao concerto ora sondando as reflexões do pai que também assistia ao espetáculo.
Pelas memórias da mãe – D. Margarida – e do pai – Inocêncio, sabemos que o filho (Gilberto – Bentinho) devia sua carreira ao esforço da mãe que sempre trabalhara como costureira para sustentar a família, já que o pai não parava em emprego por ser alcoólatra e que só largara a bebida depois do filho dizer que sentia vergonha de ter um pai bêbado. No final do espetáculo, Bentinho divide os aplausos com sua mãe, em gratidão. O pai envergonhado vai saindo certo de que o filho nada lhe deve, mas ao passar pelo porteiro do teatro diz que o concertista é seu filho e lembra que certa noite quando era bebê e dormia entre o casal, o pai depois de sentir suas pequenas mãos tocando-lhe as costas, ficara acordado a noite toda com metade do corpo fora da cama para não lhe machucar as mãos. Então fica satisfeito por ter cuidado daquelas mãos que agora eram tão habilidosas. No conto todo a simbologia das mãos é importante, as mãos do filho que tocam, as mãos da mãe que costuram, as mãos da platéia que aplaudem... e as do pai, que nada fizeram a vida toda.
A moralista
Dinah Silveira de Queiroz
Narradora em 1a pessoa, conta que vivia na pequena cidade de Laterra apenas com o Pai e a Mãe. Esta era conselheira espiritual da cidade e sua fama crescia gradativamente.
Certa vez a cidadezinha ficara sem padre e a Mãe fazia as rezas, sendo mesmo chamada de “padra”. Aos domingos fazia sermões para o “Círculo de pais”. Uns chamavam-na santa. O pai acreditava, mas a filha narradora revela: “Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que sentia até vergonha.”
Um dia um viciado pede ajuda à mãe e ela chama o rapaz para morar na casa com a família. Aos poucos o rapaz deixa o vício e o jeito efeminado que tinha até então. O rapaz passa a seguir a Mãe em todos os lugares, causando desconfiança na população e desconforto para o marido.
Certo dia o rapaz diz algo à Mãe, que ergue a voz com ele e o manda embora. Em seguida encontram um corpo balançando numa árvore: o rapaz se enforcara. A mãe continua a dar conselhos, segundo a narradora, sem muita convicção.
Entre irmãos
José J. Veiga
“O menino sentado à minha frente é meu irmão, (...) ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. (...) A princípio quero tratá-lo como intruso, (...) mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho. (...) De repente fere-me a idéia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos. (...) O intruso sou eu, não ele. (...)
Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar. (...) Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho. (...) Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, (...) não tenho casa, há muito tempo tenho morado em hotel. (...)
Ficamos novamente calados. (...) O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa. (...) Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre, não sei como fugir daquela sala. (...) Eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. (...) Tenho vontade de sair dali. (...)
A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra (...): “Sua mãe está pedindo um padre.” Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus – que ele nos perdoe – pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.”
A partida
Osman Lins
“Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. (...) Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. (...) Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem (...) ela veio ao meu quarto, curvou-se: “Acordado?” (...) Beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas. (...) Passava de meia-noite, (...) minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu. (...) Com que finalidade? (...) Cobrir-me ainda? Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. (...) Que me deixasse em paz e fosse chorar longe. (...) Eu não estava morto. (...) Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou. (...) Acordei pela madrugada. (...) Veio-me então o desejo (...) de partir sem dizer nada(...). Ora, (...) que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus? (...) Toquei-lhe no ombro, (...) eu tomaria um café na estação. (...)
Enfim, beijei sua mão (...). Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta, e ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários).”
ANOS 60
CONFLITOS E DESENREDOS
Se o clima dos anos 60 foi de revolução em todos os quadrantes do mundo e dimensões de vida, devemos incluir aí a tremenda explosão de qualidade no campo da ficção curta brasileira. São desta década algumas das realizações máximas no gênero em nosso país. Contos de Clarice Lispector e Rubem Fonseca, por exemplo, legam modelos narrativos que vão influenciar todas as gerações seguintes de escritores. Os contos dos anos 60 falam de nossa contemporaneidade, quase sempre urbana, agitada por conflitos psicológicos e sociais. Desenredam-se laços, tradições. Homens e mulheres se dilaceram em conflitos de identidade. Não há mais lugar para a inocência, o lirismo puro. Ficamos mais adultos. Os leitores inclusive. Querem mais narrativas que traduzam com força dramática e riqueza metafórica as cruezas do real. A literatura brasileira nunca mais será a mesma depois do vendaval dos 60. (Ítalo Moriconi)
A força humana
Rubem Fonseca
Em 1a pessoa, rapaz que trabalha numa academia de musculação e é treinado pelo dono João para ser campeão de fisiculturismo.
Um dia o narrador, que gostava de ficar ouvindo música em frente a uma loja, vê um jovem crioulo, Waterloo, dançando na rua para ganhar dinheiro. Depois da dança, o narrador percebendo o belo físico do crioulo o leva para a academia. João ficara impressionado com a musculatura de Waterloo e lhe dá emprego de ajudante do narrador na academia. Em pouco tempo, Waterloo ganha a preferência de João. Para saber qual o mais forte, Waterloo e o narrador tiram uma queda-de-braço, da qual o narrador ganha com dificuldade e vai embora em silêncio. Vai para a casa de sua namorada, a prostituta Leninha. Vão a uma boate, voltam para casa. Transam pela última vez e o narrador se despede dela. Anda a madrugada toda e de manhã pára na loja de discos mais uma vez.
Amor
Clarice Lispector
Ana, uma mulher casada, pacata e mãe de dois filhos, tinha uma vida doméstica muito calma, donde cuidava dos seus com o esmero e amor típicos de uma pessoa fraterna e sensível. Aliás Ana, em hebraico significa "pessoa benéfica, piedosa".
Certo dia, depois de ir às compras, viu um cego mascando chiclete que muito a impressionou; com a freada brusca do bonde onde se encontrava, os ovos que carregava acabaram quebrando-se. Pronto! A sua paz tão duramente conquistada desapareceu.
Ana começa a pensar na razão e na verdadeira utilidade de sua vida. Transtornada acabou por descer no Jardim Botânico que por sua beleza fê-la temer o próprio inferno.
Ao voltar para casa sentia que alguma coisa havia mudado dentro de si, abraçou o filho tão fortemente que o assustou e foi ajudar o marido quando este derrubou o café. Carinhosamente este pegou-lhe a mão e levou-a para o quarto para dormirem.
Gato gato gato
Otto Lara Resende
“(...) Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. (...) No se olharem, o menino suspendeu a respiração. (...) O ar de enfado, de sabe-tudo do gato. (...) Nenhum movimento na estátua viva de um gato. (...) Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. (...)
O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. (...) O gato (...) deu três passos de veludo e parou. (...) Ah, o estilingue distante – suspira o menino. (...) O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. (...) Sumiu. (...)
O menino (...) percebeu que lhe escorrera do joelho esfolado um filete de sangue. (...) Agarrou-se à janela (...) e alcançou o telhado. (...) Até que localizou embaixo, (...) junto ao tanque, um gato dormindo, a cara escondida entre as patas. (...) O menino apanhou o tijolo. (...) Gato gato gato. (...) O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranqüila rodilha do gato. (...) A morte inesperada. (...) Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. (...)
Em cima do muro um gato, (...) outro gato(...) transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. (...)”
As cores
Orígenes Lessa
“Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de amor. (...) Sabia estar só na casa que conhecia tão bem, (...) casa grande (...) onde se movia livremente, as mãos olhando por ela. (...) Como seria cor e o que seria? (...) Que seria o claro, afinal? (...) Que seria a cor, detalhe que fugia aos seus dedos, escapava ao seu olfato. (...) E que seria ver? (...) Era o sentido que permitia encontrar o bonito sem tocar. (...) A piedade alheia a cada passo a torturava e Maria Alice tinha o pudor de seu estado. Seria mais feliz se pudesse estar sempre sozinha como agora, movendo-se como sombra muda pela casa. (...)
O livro abandonado sobre a mesa, o pensamento de Maria Alice (...) recordava o tempo que passara no Instituto, (...) onde aprendera a ler. (...) E ali começava a odiar os dois mundos diferentes. O seu, de humildes e resignados, cônscios de sua inferioridade humana, o outro, o da piedade e da cor. (...) Com o tempo, Maria Alice fora identificando as cores com sentimentos. O branco era como barulho de água. (...) Cor-de-rosa se confundia com valsa. Verde, aprendera a identificá-lo com cheiro de árvore. (...) Aquelas associações materiais, porém, não a satisfaziam. A cor realmente era o grande mistério. (...)
E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo que lá conhecera. (...) Lembrava-se da ternura daquela voz. (...) De como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se encontrado... De como um dia seus pais (...) a retiravam do Instituto e quando ela disse que pretendia se despedir de um amigo (...) com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado: (...) “Casar-se com um mulato? Nunca!”
Mulato era cor. Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia. (...)
- Tudo azul? – perguntou Ana Beatriz, entrando na sala.
- Tudo azul – respondeu Maria Alice.”
A máquina extraviada
José J. Veiga
Um narrador do interior conta ao compadre, provavelmente da cidade, a última novidade de onde vive. Certo dia chegaram vários homens em três caminhões e descarregaram uma máquina enorme diante da prefeitura, saindo de madrugada sem darem explicações. Na cidadezinha ninguém havia encomendado tal máquina, muito menos se sabia para que ela servia.
Passado o primeiro momento de espanto e desconfiança, a cidade toda, com exceção do vigário, passa a adotar a máquina como monumento da cidade, sendo ela motivo de orgulho aos seus moradores, tornando-se ainda ponto turístico visitada pelos habitantes das cidades vizinhas. O narrador termina dizendo que o único medo é que surja de repente um jovem instruído da capital e bote a máquina para funcionar “e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.”
O moço do saxofone
Lygia Fagundes Telles
Caminhoneiro fica numa pensão barata e ouve um saxofonista – que sempre toca músicas tristes. Pergunta a James, outro pensionista, sobre o músico e o colega responde: “A mulher engana ele até com o periquito. Dormia em quarto separado da mulher.” “Mas por quê?” “Uma mulher como ela tem que ter seu próprio quarto”. Uma noite a mulher do moço do saxofone marca com o caminhoneiro para se encontrarem em seu quarto, mas ele, por engano, entra no quarto do saxofonista que calmamente lhe diz que o quarto de sua mulher é na porta adiante.
“E você aceita tudo isso assim quieto?” “Eu toco saxofone.” Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a maçaneta. Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. “Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco”.
Feliz aniversário
Clarice Lispector
Tudo preparado para o encontro anual da família. Na casa de Zilda, a única filha, as bolas coloridas espalhavam-se pela sala e o bolo confeitado enfeitava o centro da mesa. Na cabeceira, arrumada e perfumada com água de colônia para disfarçar o cheiro de guardado, estava Cornélia, a matriarca e aniversariante que completava 89 anos.
Primeiro chegaram as noras com os netos, depois os filhos. A velha. sentada. impassível, se perguntava como ela, tão forte, pudera gerar uma família tão medíocre.
Cantaram parabéns, atrapalhados todos fingiam entusiasmo, incapazes de uma alegria verdadeira. A velha foi ríspida o quanto pôde. Escandalizou os presentes e envergonhou Zilda, cuspindo no chão.
Temos o retrato de uma velha amargurada pela morte do filho que admirava, e o desprezo por todos os demais é oriundo neste fato. É preciso observar que Cornélia é a matriarca de todo o clã e seu nome é de acepção latina e significa duro, forte.
O homem nu
Fernando Sabino
Em 3a pessoa. Homem acorda pela manhã dizendo à mulher que virá o cobrador da televisão e que não tem dinheiro para pagá-lo. Combina então com a esposa que quando tocar a campainha ficarão em silêncio até que o cobrador se vá. A mulher entra no banho, e o homem nu vai fazer café. Quando vai pegar o pão deixado na frente do apartamento, a porta se fecha com o vento, deixando-o nu no corredor.
Aflito toca a campainha, mas a mulher pensando ser o cobrador não abre. O homem tenta sem êxito se esconder e acaba chamando a atenção da vizinhança que ameaçam chamar a polícia.
Finalmente a mulher abre a porta e o homem entra ofegante, esquece o café, veste-se para trabalhar, quando toca a campainha. O homem vai atender pensando ser a polícia, não, era o cobrador da TV.
O vampiro de Curitiba
Dalton Trevisan
De todas as criações do contista paranaense a mais famosa é Nelsinho, protagonista de quase todas as histórias de O vampiro de Curitiba. Atormentado pelo sexo – que é visto ao mesmo tempo como possibilidade de desmesurado prazer e como maldição que o obriga a peregrinar pelas ruas curitibanas – o jovem galã de bigodinho e brilhantina nos cabelos espreita as mulheres. Todas as mulheres. Trata-se, portanto, do próprio cafajeste suburbano. Porém, a sua riqueza como personagem vem menos do tipo convencional do “gostosão” (como ele próprio se define) e sim da exasperação erótica a qual é submetido. Algo como uma fatalidade psicológica o condena a buscar incessantemente a realização dos instintos. Dalton Trevisan, usando a técnica do discurso indireto livre, que permite a completa revelação da consciência do personagem frente aos acontecimentos, consegue fixar admiravelmente a sexualidade atormentada de Nelsinho, como se pode observar neste fragmento do conto-título do livro: Ai, me dá vontade até de morrer. Veja só a boquinha dela como está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de taturana. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. É das que molham os lábios com a ponta da língua para ficar mais excitante. Por que Deus fez tão boas as mulheres? Não é justo para um pecador como eu. Ai, se eu morro só de olhar para ela, imagine então se... Não imagine, arara bêbada. (...) Se eu fosse me chegando perto, como quem não quer nada – ah, querida é apenas uma folha seca ao vento – e me encostasse bem devagar na safadinha. Acho que morria. Era só fechar os olhos e derreter-me de gozo. Vou postar-me diante dela, pode ser que se encante com o meu bigodinho. Desgraçada! Fingiu que não me enxergou – é o golpe de todas. Malditas feiticeiras, todas elas mereciam ser queimadas vivas, em fogo lento. Não têm piedade no coração negro de pedra. Não sabem o que é gemer de amor.
(...)
Se não me querem, por que exibem as graças em vez de esconder? Hei de chupar a carótida de uma por uma. Até lá enxugo os meus conhaques. Por causa de uma cadelinha como essa que aí vai, rebolando-se inteira. Eu estava quieto no meu canto, foi ela que começou. Ninguém diga que sou taradinho. No fundo de cada filho de família dorme um vampiro – não deixe que ele sinta o gosto de sangue. (...)
Estão sempre se enfeitando, se pintando, se adorando no espelhinho da bolsa. Se não é para deixar assanhado um pobre cristão por que é então? Essa é uma das lascivas que gostam de se coçar. Ouço daqui o raspar das unhas na meia de seda. Que ela me arranhasse o corpo inteiro, pingando sangue do peito. Enxergo tudo vermelho à minha frente. Diz-me, gênio do espelho, existe em Curitiba alguém mais aflito do que eu? Tende piedade, Senhor, são tantas e eu tão sozinho. (...) Em troca da última das fêmeas sou capaz de caminhar sobre brasas – e sem queimar os pés. Ai, me dá vontade de morrer até. Veja só a boquinha daquela como está pedindo beijos – beijo de virgem é mordida de taturana. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.
A mulher do vizinho
Fernando Sabino
3a pessoa. General vai ao delegado reclamar dos filhos do vizinho sueco que jogavam futebol na rua e a bola às vezes bate em seu carro.
O delegado para agradar ao general chama o sueco que vai com sua mulher. Por parecer humilde (na verdade era grande empresário) o delegado humilha o sueco: “Eu ensino o senhor a cumprir a lei. Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos.” O sueco faz menção de sair mas sua mulher diz ao delegado: “Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo. Sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou?”
Uma galinha
Clarice Lispector
“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. (...) Alcançou um telhado. (...) O dono da casa (...) resolveu seguir o itinerário da galinha. (...) De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. (...) Afinal, (...) o rapaz alcançou-a. (...) De pura afobação a galinha pôs um ovo. (...) “Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!” (...) O pai afinal decidiu-se (...): “Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida”. “ Eu também! jurou a menina com ardor.”
A mãe, cansada, deu de ombros. (...) A galinha passou a morar com a família. (...) Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.”
Menina
Ivan Ângelo
“(...) Ana Lúcia sempre sentira esse mistério: não ter pai. (...)
- Ana Lúcia, seu pai ainda está viajando?
- Está.
- Mentirosa! Sua mãe é desquitada.
Ficou impotente diante da palavra desconhecida. (...) Passou dias tentando solucionar sozinha. Seria uma coisa como burra, feia? Não, não parecia. Flor? Flor parecia, mas não explicava nada: orquídeas, rosas, sempre-vivas, desquitadas... Parecia (...) como quem diz sem-vergonha. (...) Nesses dias amou a mãe (...) defendendo-a contra a palavra que poderia feri-la: desquitada, sem-vergonha. (...)
No dia seguinte recomeçou. Mais uma vez preocupava-se com a palavra, agora não nova, mas mistério, sombra. (...) “Mamãe, o que é desquitada?” (...) Era muito forte aquele instante. (...) Olhou a filha com carinho. (...) “Desquitada é quando o marido vai embora e a mãe fica cuidando dos filhos.” (...) Pronto, estou livre – sentiu Ana Lúcia. Desquitada, desquitada, desquitada – repetia sem medo. (...) Bom, que desquitada não fosse um insulto. (...) “Marido é o pai?”, ela quis confirmar. (...) A mãe sorriu e confirmou. (...) Ia Ana Lúcia aprendendo, descobrindo. (...) Por exemplo: o que ela chama de marido é o que eu chamo de pai. Essa é uma diferença entre mãe e filha. Ela sabia cada vez mais.”
A caçada
Lygia Fagundes Telles
Em 3a pessoa. Homem obcecado por uma tapeçaria velha de uma loja de antiguidades tem a nítida sensação de ter participado da cena exposta no tapete: uma caçada. Um caçador lançando uma seta em direção a uma presa. Depois de várias idas ao antiquário, o homem vê a cena cada vez mais nítida, até que tem o delírio de estar dentro do tapete vivendo a caçada, sem saber se é o caçador ou a caça. Então sente sangue em sua boca. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor! “Não...” – gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.
O burguês e o crime
Carlos Heitor Cony
O burguês
“(...) Figueiredo fora com a mulher Ema assistir uma peça. (...) Quando ia ao cinema, sempre podia dormir, (...) mas no teatro era difícil o cochilo. (...) A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. (...) Matar ou morrer? (...) Não era agradável pensar em morrer(...) e ficou apenas com o matar. (...) Tinha de matar e permanecer impune. (...) Como obter o crime perfeito? (...) Na cama (...) a palavra e o conceito retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito não tinha insônia. A firma prosperava. (...) Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. (...) “Se não fosse a polícia, eu matava!”
O crime
(...) No dia seguinte ao do enterro, (...) estava rico e livre agora da chatice do sócio Anselmo e da chatice da mulher. (...) “Aquela cachorra!” Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro. (...) Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade foi devidamente provada. (...)
O crime e o burguês
(...) Uma semana antes da tragédia. (...) “Se mato esta mulher – a minha mulher.” (...) Riu. (...) Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. (...) Se matasse o sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos. (...) Dois dias depois, avisou a mulher que ia a São Paulo, viagem rápida. (...) Subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua (...) deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava novamente em casa. (...) “Uê? Você já voltou?” “Você esta vendo.” Foram dormir.
(...) Dessa vez, pela primeira vez em muitos anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar, (...) mas logo levou a mão ao peito: “Ema, o enfarte!” (...) “Vou buscar a coramina!” “Não! Chame o Anselmo, (...) mas diga a ele para não contar a ninguém.” (...) Ema foi ao telefone. (...) Quando voltou ao quarto (...) encontrou o marido em pé, com um copo na mão:
- Uê? Já ficou bom? (...)
- Beba isso! (...)
- Para que é isso?
- É um afrodisíaco. (...)
Ema (...) caiu próximo à cama. (...) Anselmo saiu do elevador e deu com Figueiredo na porta.
- E o enfarte?
- Entre depressa!
- Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?
- Prove esta droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.
(...) Anselmo provou. (...) Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa, deitou-o ao lado de Ema, (...) apagou as luzes. Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis. (...) Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.
Moral
O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.”
Uma vela para Dario
Dalton Trevisan
Conto narrado em terceira pessoa. Extraído do livro “Cemitério de Elefantes, 1964”. É a estória de Dario, um cidadão comum que passa mal na rua e agoniza.
Vem por uma esquina e encosta-se numa parede. Alguns passantes perguntam se não está bem, mas Dario já não tem forças para responder, escorre pela parede e sua boca se enche de espuma.
Um rapaz o ajuda, desapertando suas roupas, seu cachimbo apaga e Dario rouqueia feio junto às bolhas de espuma que lhe surgem da boca.
As pessoas que passam se acercam da cena e um senhor gordo repete que Dario caíra e deixara cair seu guarda chuva e seu cachimbo, que já não mais estão ali.
Arrastam-no para um táxi, mas ninguém quer pagar a corrida. Cogita-se em chamar uma ambulância e Dario já não tem seus sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. Dario continua à mercê daqueles que o cercam e alguém fala da farmácia, mas é no outro quarteirão e pelo seu peso, as pessoas desistem de levá-lo. É abandonado em frente a uma peixaria.
Aparece mais um que se prontifica a ajudá-lo sugerindo que lhe examinem os papéis. Ele é revistado e ficam sabendo quem ele é, mas ninguém resolve nada.
Chega a polícia e a cena é cercada de uma multidão de curiosos. Dario é pisoteado e o guarda não pode identificar o seu cadáver. Ainda lhe resta a aliança de ouro que Dario só conseguia tirar molhando com sabonete.
“A polícia decide chamar o rabecão”. “A última boca repete — Ele morreu, ele morreu.”
Há uma dispersão, quando as pessoas observam agora a um defunto. Um senhor piedoso aproxima-se e arruma o corpo da maneira que pode, ajeitando a cabeça sobre o paletó enrolado e cruzando as mãos sobre seu peito. A multidão termina por se espalhar e Dario, incógnito, agora só representa mais um cadáver, um indigente sem valor no meio da rua. A narrativa coloca as pessoas da cena como que indiferentes em sua rotina, diante do cadáver: “Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.”
Fecha-se a estória sem que a esperança de humanidade seja possível. Só o gesto de um menino salva a morbidade do desfecho. Dario é completamente saqueado e abandonado. “Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver”. “fecha-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra sem o paletó e o dedo sem aliança. O toco de vela apaga-se...”
ANOS 70
VIOLÊNCIA E PAIXÃO
Os anos 70 marcam um momento de apogeu do conto no Brasil, depois do salto de qualidade na década anterior. Intensificam-se ímpetos revolucionários e dilaceramentos pessoais, agora num contexto de violência política e social até então inédito no país. O conto confirma-se como instrumento adequado para expressar artisticamente o ritmo nervoso e convulsivo desta década passional. Entra na moda um novo e carinhoso retrato de escritor, o “contista mineiro”, descendente legítimo das gerações de Carlos Drummond, Fernando Sabino e Otto Lara Resende. Diante do consumismo e da internacionalização em que mergulha a classe média, a arte do conto busca trazer à tona o outro lado – o lado violento e obscuro da realidade. O contista brasileiro dos anos 70 quer desafinar o coro dos contentes. (Ítalo Moriconi)
Passeio noturno
Rubem Fonseca
Parte I e II
Contos em 1a pessoa.
Empresário de meia idade, bem sucedido, casado, dois filhos, descarrega as tensões do dia-a-dia, a frustração e o tédio da sua vida passeando todas as noites com seu jaguar preto e matando pessoas, atropelando-as com seu carro.
Na Parte I a vítima é uma mulher. Na parte II, a vítima é uma jovem chamada Ângela. A violência urbana é um dos temas principais de Rubem Fonseca.
A morte de D.J. em Paris
Roberto Drummond
Conto extenso e surreal. Vários focos narrativos. Dividido em cinco atos temos entre vários flashbacks o julgamento sobre a morte do protagonista D.J. em Paris (ou em Belo Horizonte?). D.J. era professor e tinha duas obsessões: Paris e encontrar a Mulher Azul (Femme Bleue). Por ser um conto fantástico o final é aberto. “Agora você me pergunta se D.J. está morto; respondo: alguns hão de querer que D.J. esteja vivo, outros não. Os que quiserem podem matar D.J., mas ele voltará no primeiro samba, num frevo tocando e, até mesmo, quem sabe?, num grito de gol”.
Aí pelas três da tarde
Raduan Nassar
Uma espécie de conselho que se dá a um provável senhor advogado ou profissão afim para sair do escritório aí pelas três da tarde: “Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, e se achegue depois junto à rede. Largue-se nela, goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.”
Felicidade clandestina
Clarice Lispector
Uma menina apaixonada por leitura pede um livro (As Reinações de Narizinho) emprestado a uma colega de escola ruiva, gorda, e extremamente má. A colega, que era filha de um dono de livraria do Recife, maltrata a narradora, pois sempre que esta ia buscar o livro na casa da colega ruiva, a mesma dizia que acabara de emprestá-lo a outra amiga e pedia para que a narradora voltasse no dia seguinte. Mas no dia seguinte repetia-se a mesma história.
Até que um dia, já saindo a menina desolada da casa da colega, a mãe da ruiva intercede em seu favor, obrigando a filha a emprestar-lhe o livro. O conto termina da seguinte forma: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
O elo partido
Otto Lara Resende
“Subitamente, não sabia mais como se ata o nó da gravata. (...) Logo suas mãos inconscientes se organizaram (...) e ataram a gravata. (...) Ia a um jantar.
Até que dias depois, achando graça, a mulher (...) atou por ele a gravata. (...) Uma terceira vez ocorreu dias depois. “Estou ficando gagá”, pensou, entre divertido e irritado. (...) Mas logo esqueceu e saiu para a rua, (...) foi até o edifício do escritório. (...) Só o elevador demorava mais do que de costume. (...)
Ocorreu-lhe que tinha esquecido de calçar as meias. (...) Um desejo ardente de esticar uma perna, (...) arregaçar as calças e olhar, (...) mas o medo irracional do ridículo, como se toda a fila (...) esperasse apenas um gesto de sua parte para vaiá-lo. Sorriu sem sorrir. (...) A obsessão agarrou-o: (...) as suas meias (...) de que cor eram? (...) Até que foi invadido pela certeza cruel de que usava meias vermelhas. (...) O terno era azul. Mas as meias, (...) ridículo, um vermelho-vivo. (...) Foi preciso quase que o empurrassem (...) para que ele, morto de vergonha, (...) se animasse a entrar no elevador. Saltou no sétimo andar e (...) trancou-se na sua sala. (...) Suspendeu as calças, fixou com espanto (...): agora de novo as suas meias eram azuis. (...) E o dia prosseguiu. (...)
Nas semanas seguintes (...) esquecera o nome de um amigo de infância. (...) Amnésias assim, sabia, acontecem a todo mundo. (...) Dias depois, porém, (...) não conseguia (...) saber qual a posição que habitualmente tomava para dormir. (...) Não sabia mais deitar-se e dormir. (...) Noite longa. (...) Cochilou na cadeira de balanço, como um agonizante. (...) Até que uma semana depois:
- Esqueci como é que eu durmo – disse ansioso à mulher.
- Bobagem – ela resmungou, morta de sono.
- Minha posição na cama. (...)
Foi a primeira insônia completa de sua vida. (...) Pensou em consultar mesmo um clínico, (...) mas não gostava de médico. (...) Uma tarde, ao falar pelo telefone, com o sócio, (...) não conseguia se lembrar da cara do sócio. (...) Precisou telefonar para a mulher, (...) lembrava do número, claro (...): “Alô – disse ela.” (...) Desligou. (...) Não se lembrava da própria mulher, seu nome, seu rosto. (...) Saiu imediatamente para casa. (...) Trancou-se no quarto (...) e leu de cabo a rabo o jornal. (...) Voltou à primeira página. Lia e relia, (...) chegava ao fim e era como se não tivesse lido. (...) Deixou o jornal cair no chão. (...)
- Quem sou eu? – ele perguntou num último esforço. (...)”
A estrutura da bolha de sabão
Lygia Fagundes Telles
Uma mulher conta seu reencontro com um físico ex-namorado seu que estava então casado. “(...) Estávamos num bar. (...) Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim? (...) Convidaram-me e sentei. (...) Mas ela queria fazer perguntas. Uma antiga amizade? (...) Não, nos conhecemos numa praia. (...) Aos poucos o ciúme foi tomando forma. (...) “Estou com dor de cabeça”, (...) ele pediu a conta. (...) Quando me voltei dobravam a esquina. (...)
O segundo encontro foi numa exposição de pintura. (...) Ele me puxou para ver um quadro. (...) Quando voltamos, os olhos dela já estavam reduzidos aos dois riscos. (...) Um dia me disseram: “Ele está doente, sabia? Aquele cara que estuda bolhas.” (...) O que tinha? (...) Não sabia os detalhes. (...) Não ele, eu repeti. (...) “Vocês não viveram juntos?”. (...) Mais ou menos, respondi. (...)
Fui até sua casa, ela abria a porta, bem-humorada. (...) “Foi mesmo um grande susto” – ela disse. “Mas passou, ele está ótimo ou quase” – acrescentou levantando a voz. (...) Entramos no quarto. (...) Estava de chambre verde, recostado na cama. (...) Comecei a sentir falta de alguma coisa. (...) Ela voltou-se para mim, “preciso ir aqui na casa da mamãezinha, (...) você não se importa em ficar mais um pouco?” (...) Saiu e fechou a porta. Fechou-nos. Então descobri o que estava faltando, ô! Deus. Agora eu sabia que ele ia morrer.”
O peixe de ouro
Haroldo Maranhão
Descrição surreal de um peixe de ouro, que possui pernas, cintura, cabeleira, ancas, pescoço, etc. este peixe é disputado e destroçado pelas pessoas que utilizam suas partes para diversos fins, até que resta somente partículas de peixe, microtalco de ouro.
Gestalt
Hilda Hilst
Isaiah, um matemático, encontra um porco, dá a ele comida e depois percebe ser o animal uma fêmea e dá-lhe o nome de Hilde, nome de sua mãe. Tempos depois, Isaiah casa-se sendo feliz e Hilde também.
Conto em 3a pessoa. Aspecto importante: a linguagem com neologismos a la Guimarães Rosa. Ex: peluginoso, rigorismos, humildoso.
Feliz ano novo
Rubem Fonseca
Três marginais decadentes, Pereba, Zequinha e o narrador do conto estão na pior. Sem dinheiro e com fome, eles pensam em fazer sua ceia de revelion com restos de despacho de macumba. Então decidem assaltar uma mansão. Entram na mansão e matam quatro pessoas, roubam e estupram. Depois de voltarem pra casa, os marginais conferem o resultado do roubo e desejam uns aos outros: “Feliz Ano Novo”. A marca mais importante deste conto é a violência urbana e a linguagem dura usada por Rubem Fonseca.
“A velha também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saia. Fiquei puto e dei um dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma trouxa. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.”
Correspondência completa
Ana Cristina César
Uma espécie de carta escrita por Júlia a alguém chamada de my dear. São relatos desconexos, frases sobrepostas, divagações. Importante ressaltar o caráter metalingüístico do texto. “Escrever é a parte que chateia. Inventar o livro antes do texto. Inventar o texto para caber no livro. O livro é anterior. O prazer é anterior, boboca...Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas...”Podemos encarar Júlia como alter-ego da autora do conto, Ana Cristina César, que era poetisa.
Fazendo a barba
Luiz Vilela
Em 3a pessoa. Um barbeiro e um rapazinho, seu ajudante, vão a uma casa para barbear um homem morto. Durante o trabalho o rapazinho questiona: “Será que ele está vendo a gente de algum lugar? Por que a gente morre? Por que será que a gente não acostuma com a morte?” Ao que o barbeiro responde: “A morte é uma coisa muito estranha.” Quando saem, o barbeiro convida o rapaz para tomarem uma pinguinha, e os dois entram no boteco.
Característica: uso dos diálogos, discurso direto.
Sem enfeite nenhum
Adélia Prado
“A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco. (...) Cinema, só uma vez. (...) Um dia o pai (...) anunciou (...): “companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom’, danado de bom pra do Carmo”. (...) Ela não gostava de luxo.
(...) Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. (...) Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava. (...) Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair. (...) Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um par de sapato para ela. Foi três vezes na loja e ela botando defeito. (...) Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, (...) tinha a cara severa. (...) Era raiva não. Era marca de dor.”
La Suzanita
Eric Nepomuceno
Narrador envolvido com questões sindicais vai a um encontro secreto com um homem numa cidadezinha (provavelmente mexicana) em um bar chamado La Suzanita. Depois de esperar algum tempo, uma moça muito bela aparece e diz “Sucedió algo” e manda-o fugir. À noite no hotel o narrador vê pelo noticiário que seu contato havia sido morto pela polícia e a moça do bar que era filha dele, fora presa e se chamava Suzanita. Marcado pela beleza da jovem, o narrador recorta sua foto do jornal e a guarda na carteira. Tempos depois é preso e a foto guardada o incrimina.
Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon
José Cândido de Carvalho
Um homem chamado Lulu Bergantim chega a uma cidade (Curralzinho) e é eleito prefeito. No meio da posse tira o paletó, arregaça as mangas, pega uma enxada e sai pelas ruas carpindo o mato, no que é imitado pela população. Nos meses seguintes pinta os muros da cidade e depois pega a picareta para abrir caminho à água encanada. Quando a cidade começa a erguer uma estátua em sua homenagem, Lulu é arrancado do posto de prefeito: enfermeiros o levaram para o Hospício Santa Isabel de Lavras, de onde era interno fugido.
A maior ponte do mundo
Domingos Pellegrini
Em 1a pessoa. Um barrageiro (eletricista) conta de como perdeu seu alicate de estimação trabalhando com o amigo de apelido “50 Volts” na construção frenética da ponte Rio-Niterói, a maior ponte do mundo.
Crítica da razão pura
Wander Piroli
Em 1a pessoa, Moacir conta que fora pescar com os amigos Cainca e Dr. Fontes e para fazerem fogo, arrancaram moirões (palanques) de uma cerca.
O dono da propriedade, um velho de espingarda na mão, diz querer a cerca de volta, mas sofre um ataque cardíaco e morre. Os três amigos abandonam o corpo e vão embora.
A porca
Tânia Jamardo Faillace
Um menino medroso presencia a morte de uma porca prenha. A mãe sangra o animal e o sangue jorra manchando a roupa do pai e do empregado, e também cobrindo o rosto da mãe. Depois disso o menino nunca mais beijou a mãe.
O arquivo
Victor Giudice
Conto irônico e fantástico em 3a pessoa.
Funcionário chamado joão (com letra minúscula) vai cada vez mais diminuindo seu salário, ficando mais pobre, passando fome e ficando cada vez mais feliz (ironia). Ao pedir aposentadoria já não tem mais salário, trabalha de graça. E o patrão diz: “ Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto?” A emoção impediu qualquer resposta. joão afastou-se. E joão transformou-se num arquivo de metal.
Guardador
João Antônio
Em 3a pessoa. História de um guardador de carros, o velho Jacarandá e suas peripécias para sobreviver. A casa: o oco de uma árvore; o instrumento de trabalho: a flanelinha. O vício é a cachaça. No final do conto rejeita uma moeda dada por um ricaço num carro importado: “Doutor, isso aí eu não aceito. Trabalho com dinheiro; com esse produto, não.” O homem arranca o carro e Jacarandá vai dormir no oco da árvore.
ANOS 80
ROTEIROS DO CORPO
Forças liberadas desde os anos 60 encontram aqui seu momento paradoxal de clímax e crise. A geração que fez a revolução sexual agora coloca no papel suas histórias. Explode o erotismo feminino. As grandes metrópoles fornecem cenários para as aventuras do corpo. As trocas sociais, no contexto totalmente urbanizado e erotizado, são roteirizadas pela cultura da mídia, cuja língua internacional é o inglês. Emerge a problemática homossexual. Mas a década que começou eufórica termina cética e deprimida por causa da Aids e da crise dos ideais coletivistas. Sensações de fracasso e vazio parecem anunciar um fim de século melancólico. (Ítalo Moriconi)
O Vampiro da Alameda Casabranca
Márcia Denser
Em 1a pessoa. Uma moça conta a história de uma noite regada a álcool, drogas, sexo, falsos intelectuais e frustração.
A narradora vai ao cinema com um poeta metido a filósofo e guru espiritual, ela o despreza, mas mesmo assim ao saírem do cinema, vai para o seu apartamento. Depois de submete-la à leitura de seus poemas, o poeta tenta levá-la para a cama, entretanto ela recusa.
Vão então para uma festa no apartamento de um amigo do poeta chamado Klaus. A narradora protagonista descreve as pessoas que encontra com desprezo e ironia. A festa é assim descrita: “A madrugada evoluiu naquele apartamento neoclássico, com ativa movimentação de garrafas de vinho, rodadas de cocaína, camembert rançoso e conversas idiotas”. No final da noite, a narradora chapada vai ao banheiro, vomita e sente uma tristeza secreta por se saber mole, dobrável, e ainda uma vez voltar a fazer coisas que não queria, não precisava, não desejava, todavia o álcool e a droga levavam a fazê-las.
O poeta a leva para a cama, mas “pobre animal sonâmbulo, se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes, uma vez que não conseguia” (uma ereção).
Ela então adormece e quando acorda Klaus está entre suas pernas, ela pula da cama vestindo a roupa e vomitando. Vai para a rua, come um sanduíche, tenta ir a pé para casa, mas acaba dormindo num banco de praça. Horas mais tarde é acordada pelo vigia dizendo que haviam roubado seu casaco e sua bolsa. Pensa em voltar para casa e então lembra: estavam todos viajando. Todos os amigos, todos os sujeitos, todas as amigas etc. estava sem a bolsa, sem as chaves, com frio, fome e precisando de um banho. No táxi, suspirando, deu o endereço de Klaus.
Um discurso sobre o método
Sérgio Sant’Anna
“Ele se encontrava sobre a estreita marquise do 18o andar. Tinha pulado ali a fim de limpar pelo lado externo as vidraças. (...) Ele era um empregado recém-contratado da Panamericana – Serviços Gerais. O fato de haver se sentado à beira da marquise, com as pernas balançando no espaço, se devera simplesmente a uma pausa para fumar a metade de cigarro que trouxera no bolso. (...) Quando viu o ajuntamento de pessoas lá em baixo, apontando mais ou menos em sua direção, (...) chegou à conclusão de que o único suicida em potencial era ele próprio. (...)
Levantou-se imediatamente para retornar à limpeza das vidraças, quando um silêncio de expectativa neutralizado por um clamor de incentivo veio lá de baixo, para logo depois se transformar numa vaia, quando perceberam que ele era apenas um homem trabalhando, (...) e esta vaia foi recebida por ele com mágoa. (...) Ele virou-se novamente para a platéia e deu um passo miúdo adiante, para ouvir distintamente os gritos de “pula”, “pula”. (...)
Se pulasse transformar-se-ia numa personagem de jornal, um mártir da crise. (...) Um cordão de isolamento já fora estendido para que ele não caísse em cima das pessoas. (...) Não era belo. Era um rapaz de vinte e cinco anos, embora não parecesse. (...) Ele não era burro, apenas não crescera num ambiente propício a aprimorar sua educação. (...)
E o que o homem fez foi abrir os braços para o Cristo Redentor, movido um pouco por uma súplica vaga (...) e um pouco por exibicionismo ou espírito de imitação, (...) a massa vibrou lá embaixo. (...) Foi neste momento que se fez ouvir a voz. A voz trovejou não das alturas, mas da sala da firma de engenharia: “O senhor desça já daí porque está preso”, disse um policial. (...) O homem (...) então recuou na marquise até um limite (...) que (...) o colocava sob a jurisdição do corpo de bombeiros.
O representante mais categorizado desta corporação, que ali estava, (...) assumiu o comando das operações com um discurso (...): “Rapaz – ele disse. – Pra tudo na vida há remédio. (...) Por que não chega mais perto pra gente conversar?” (...) É preciso não esquecer que o homem não se instalara ali com a intenção de pular. (...) Virou-se então para o bombeiro, (...) poderia ter explicado, simplesmente, que estava limpando as vidraças, (...) mas a verdade é que haviam ocorrido em sua mente alguns fenômenos bastante complexos. (...) “É como se fosse um “outro”, compreende? – ele disse ao bombeiro, que o abraçava sem encontrar resistência, para conduzi-lo à sala. – Alguém possível dentro de mim, que estivesse soprando pensamentos na minha cabeça.” (...)
“É louco” – avisou lá para dentro, ao mesmo tempo que empurrava o homem para o interior da sala, onde foi imobilizado. Ele fora traído. (...) Mas nesse ínterim chegava (...) o chefe de pessoal da Panamericana – Serviços Gerais (...): “Você desonrou o uniforme (...) e portanto está demitido.” (...) Já o bombeiro (...) disse que o rapaz só ia trocar de roupa no hospital psiquiátrico, para onde seria levado. (...)
O homem da marquise, ao saber do seu destino, (...) previa, intuitivamente, que lá no hospital deveria haver um pátio onde, flanando à vontade debaixo das árvores ou sentado num banco, ele teria todo o tempo do mundo para encontrar e conhecer o tal “outro”, até que os dois se tornassem a mesma pessoa e falassem com a mesma voz.”
Alguma coisa urgentemente
João Gilberto Noll
“Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai (...) vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. (...) Um homem amargurado por ter sido abandonado pela minha mãe quando eu era de colo. Morávamos (...) em Porto Alegre.
No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (...) No dia em que ele foi preso (...) puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. (...) Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar comida dos padres. (...) Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. (...) Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. (...) “Vamos para o Rio”, ele me comunicou. (...)
Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. (...) Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento. (...) Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai (...) a cada exigência do colégio.
O dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite. (...) Vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. (...) “Quer entrar?”, o homem me disse. Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro. “Trezentas pratas”, falei.
Ele abriu a porta e disse entra. (...) No dia seguinte meu pai voltou (...) e resolvi contar: “Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.” Meu pai olhou-me sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo: “Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura.” (...)
Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. (...) Ele já não acordava, tinha certos espasmos, enrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. (...)
A campainha tocou. (...) Era o Alfredinho, (...) sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada. (...) Quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, (...) o Alfredinho (...) foi caminhando de costas em direção à porta, (...) e o meu pai me chamou de novo com sua voz agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, (...) e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.”
Idolatria
Sérgio Faraco
“Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. (...) Nosso Chevrolet era um trinta e oito (...) onde meu pai anunciava que fazia carreto na cidade. (...) A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou (...) e tombou de ré na valeta. O pai (...) deu um murro no guidom: “Puta merda”.
Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados, (...) suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo. (...)
- Pai, pai, o caminhão ta afundando! (...)
- Não vê que é a água que ta subindo, ô pedaço de mula?
E riu. (...) Tirou do bolso uma fatia de pão: “Toma. Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola, (...) eles puxam a gente. (...) Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?” Fiz que sim (...) e ele me jogou sua japona: “Veste isso, vai esfriar.” (...) E ele riu de novo. (...) A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo, mas receava, (...) até que ele me chamou outra vez: “Como é, vens ou não?” Ai eu fui.”
Hell’s Angels
Márcia Denser
“(...) Conheci Robi precisamente no dia em que eu completava trinta anos, dirigindo amargurada meu automóvel para o analista. (...) Quando o ronco de uma motocicleta ao lado do automóvel sobrepujou a música em FM. (...) Havia esquecido que deixara o vestido levantar, exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela. (...) Bem na verdade, fiz tudo para livra-me dele, mas o destino conspirou: (...) Motoca seguiu-me até a vaga da zona azul e, após observar divertido cerca de dezoito manobras humilhantes e malsucedidas, ofereceu-se para estacionar o automóvel de madame. Acertou na primeira. (...) Obrigada. Você tem telefone? (...) Meu nome é Robi. (...) O meu é Diana. Tchau. (...)
Passaram duas semanas. (...) Certa tarde (...) no escritório, eis Robi que surge (...): vamos sair? Caninos pingando sangue. (...) Ele, Robi, o motoqueiro. Era incrível. “Sente-se”, sorri divertida, (...) mas meus dedos tremiam. (...) Saímos. (...) Estávamos num bar. Eu bebia vodca com suco de laranja, ele coca-cola. (...) Classe média alta paulistana, Robi estudava bastante, (...) tinha papai, mamãe, uma governanta romena (...) e só pensava em duas coisas: garotas e moto. (...) Robi tinha 19 anos. (...)
Estávamos na época do Natal. Natal de 1976, (...) mais precisamente no dia 22 de dezembro, sexta-feira, o Robi tinha um problema: a irmãzinha de quatro anos, faltava comprar o presente dela. (...) “Uma boneca”, sugeri (...) e tive de ajudar a pagar. (...) Ele guiava sem destino (a boneca no banco de trás), perdidos no trânsito pesado daquela cidade cheia de luzes. (...) O olhar dele desceu agudo (...) sobre minhas pernas cruzadas. Senti-me desconfortável. Sugeri comermos. Ele disse está bem. (...) Fomos a uma cantina italiana. (...) Ajeitei-me na cadeira, pedi mais vinho, segurei sua mão debaixo da mesa, (...) apalpei suas pernas musculosas debaixo do grosso índigo blue, pedi-lhe para afastar as coxas, mergulhei a mão com segurança. (...) Retirei a mão, voltei ao vinho. (...) Não gostaria de ir para outro lugar? (...) Está bem. (...)
O quarto tinha um espelho redondo sobre a cama. (...) Robi respirou fundo e agarrou-me por trás. (...) Eu disse calma e ele me jogou no colchão como uma bola de pingue-pongue. (...) Deitou sobre mim, tentando desabotoar-me. Esta perdendo tempo, eu disse levantando e me despindo. (...) Estava deitada, fumando, quando sua massa rija desabou sobre mim. Procurei seus lábios mas ele disse não, estou resfriado. (...) Ajeitando-me de bruços, abraçava-me com as palmas e dedos gelados, comprimindo minhas costelas, machucando-me, em vez de acariciá-las. A coisa funciona só da cintura para baixo, como um vibrador elétrico, mas é bom, pensei, deixando-me penetrar rijamente pelas costas, usando, por assim dizer, só uma parte do meu corpo, como se o resto estivesse paralisado, ou morto. (...) Espiei Robi e seu desempenho: (...) braços esticados, mantendo-me firmemente afastada de seu corpo para ver melhor. O que me chateia é esse distanciamento crítico, parece estar consertando a moto – essa máquina de prazer – está olhando a coisa funcionar, (...) mais lento, mais acelerado, mais lento, agora rápido, acelere, mais rápido, mais rápido. Pronto. Terminou. Ouvi Robi ofegar. Continuei de costas. Estendi o braço e peguei um cigarro. (...) Virei-me para olhá-lo: havia algo de comovedor (...) no jovem adormecido. (...)
Vesti-me rapidamente, em silêncio. Fechei a porta sem ruído. Desci. (...) Ao entrar no automóvel, vi o pacote no banco de trás. (...) Carreguei essa boneca tempo demais. (...) Reunindo minhas últimas forças, consegui tirá-la do carro e levá-la até à portaria do hotel. (...) “É para o rapaz do 35. Acorde-o às seis e quarenta e entregue o presente. Com votos de Feliz Natal, pensei. Virei as costas e saí. (...)”
Bar
Ivan Ângelo
Em 3a pessoa. Moça entra num bar em que estavam três homens. Um no caixa, um funcionário no balcão e um freguês. A moça pede para telefonar, e enquanto os homens ouvem, ela marca um encontro com o namorado e em seguida faz mais uma ligação para sua mãe dizendo que vai ao cinema com uma amiga e posará na casa dela. Depois de se despedir da mãe, a moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é. O homem do caixa não estava mais lá e falou “pra você não é nada, gostosa”. A moça voltou-se rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas. Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela.
Aqueles dois
Caio Fernando Abreu
Raul e Saul, dois homens jovens e bonitos, se conhecem numa repartição e vão, aos poucos, um se afeiçoando ao outro.
Lentamente começam a se aproximar, visitando-se aos domingos, indo a festas, posando juntos, há entre ambos a revelação gradual de um sentimento maior, de uma relação homossexual.
Até que um dia os dois são chamados pelo chefe da repartição que os despede por causa da “moral” do escritório. No fim ambos altivamente saem da repartição sendo observados pelos colegas.
Intimidade
Edla Van Steen
“(...) Ema e Bárbara eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. (...) No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.
- Porcaria, meu sutiã arrebentou.
- A alça?
- Deve ter sido o fecho – ergueu a blusa – veja.
Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.
- Não dá, quebrou pra valer. (...)
- Você acha que eu tenho seio demais?
- Claro que não. Os meus são maiores...
- Está brincando – Ema sorriu. (...)
- Duvida? Pode medir...
- De sutiã não vale – argumentou. – Vamos lá em cima. (...)
Ema acendeu a luz do quarto. (...)
- Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus – a outra admitiu, confrontando.
Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.
- O que não significa nada, de acordo? – deu-lhe um beijo. (...)
- Que horas são? – Ema escovava o cabelo.
- Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.
- Que pena. (...)
- É tarde, Ema. Tchau. (...)
- Ora, Bárbara... (...)
- Boa noite, querida. Durma bem.
Ema (...) pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?”
I love my husband
Nélida Piñon
Este conto, em primeira pessoa, traz uma senhora de meia-idade que discorre com ironia sobre sua condição de esposa e de mulher. É nítido o desencanto com que ela observa sua posição submissa dentro da família e passiva dentro da sociedade. Sua vida limita-se a ser a sombra do marido, que mesmo de forma inconsciente, a trata com o machismo característico da nossa sociedade. O final assim como o título é de uma ironia melancólica: “Não posso reclamar. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.”
Toda Lana Turner tem seu Johnny Stompanato
Sonia Coutinho
Uma mulher comum, Melissa, lê uma reportagem sobre a atriz Lana Turner. Lana, depois da fama em Holywood, no auge da beleza, se envolve com o mafioso Johnny Stompanato. Depois de um tempo de relação, Johnny a persegue por todos os países nos quais Lana vai fazer seus filmes.
Um dia a filha de Lana, Cheryl, durante uma briga do casal, mata Stompanato com uma facada. A menina é julgada e absolvida, enquanto Lana vê sua fama e beleza decaírem.
King Kong X Mona Lisa
Olga Savary
“(...) Ela acha que o amou desde esse primeiro momento. (...) Um amor sem quase nada de particular. (...) Então era isso amar? Amor não era. Era paixão. (...) E a paixão é um tanto trágica. Assim a aceitava: com esforço, com dor, mas também com gozo. (...) King Kong – ela pensou –, vou chamá-lo assim, assim vou chamar a fera que me dará vida. (...) Uma vez que lhe dissera o nome que secretamente lhe dava, houve o espanto: mas não combina com você, que é minha Mona Lisa. Ela sorriu sem dizer nada. (...) Um ser amorável essa fera, mas também de aguda crueldade. (...) King Kong: o êxtase e o horror.”
Flor de cerrado
Maria Amélia Mello
“(...) Anda logo pra cá e fica quietinha ou te passo fogo. Se eu dissesse que o medo nasce no estômago como uma flor do cerrado, deveria acrescentar que nascia uma plantação bem no meio da minha barriga. (...) Ele me olhava como um menino. (...) Que que tá olhando, hein dona? Nunca viu não, é? (...) Me diz seu nome, diz. Ele se espantou. Que qui há, dona? (...) Por que é que você assalta? Ah! que isso, dona? (...) Tá querendo o quê, hein dona? Fazer uma sacanagenzinha, é? (...) E foi chegando mais perto. (...)
Vem cá, vem. (...) Ele beijava sem rancor. (...) Ele balançava o corpo contra o meu. (...) Machucava e eu gostava. (...) Gostosa, faz assim, abre mais. Eu deixava tudo. Ele passava a mão, esfregava o peito contra o meu, forçava a perna, mordia meu ombro, babava meu rosto todo e me chamava de puta, vaca, vagabunda... (...) Ele suava. (...) Estou gozando, gozando. (...) Eu estava aberta, vasculhada, escancarada pra rua. (...) Ainda colado em mim, amparado, ele mandou eu virar. Obedecia. Anda, dá logo essa bunda, senão leva é muita porrada. (...) O prazer alastrava corpo inteiro. (...) Relaxamos. A voz do menino cortou o silêncio. Fica aí quietinha, nada de virar. (...) Ouvi os passos dele se afastando, correndo no asfalto. Minha perna estava bamba. (...) Estranho, ele não levou o relógio. Ficaria tão bem nele. (...) Ele podia ter me matado, eu sei. Ele bem que podia ter me salvado.”
Obscenidades para uma dona-de-casa
Ignácio de Loyola Brandão
Conto em 1a pessoa. Mulher de meia-idade, casada, recebe dia sim dia não cartas obscenas com palavrões referentes a sexo. A senhora que aparentemente demonstra indignação com o teor das cartas, na verdade fica ansiosa por recebê-las. O certo é que ela é uma mulher enrustida, frustrada por não conseguir fazer com o marido tudo o que se descreve nas cartas. Fora criada de maneira tradicional para manter a compostura e aparentemente sente aversão a palavras e atos relacionados ao sexo. No fim do conto revela-se que ela escrevia as cartas e as mandava pro seu próprio endereço. Todas as obscenidades eram escritas por ela mesma.
O santo que não acreditava em Deus
João Ubaldo Ribeiro
Conto bem humorado em linguagem coloquial. Um pescador conhece um homem que diz ser Deus. Depois de provar que realmente era Deus, pede ao pescador que o leve à feira de Maragogipe, pois precisa convencer Quinca das Mulas a se tornar santo. Chegando à feira e encontrando Quinca, Deus e o pescador vão com o homem a um bar e depois passam a noite num bordel.
No outro dia, Deus revela a Quinca sua identidade e o convida a ser santo. Depois de muito brigarem, Quinca termina por não acreditar e não aceitar ser santo. Quando o pescador (que é o narrador) vai levar Deus ao lugar onde o encontrou, o Divino ascende ao céu, dizendo: “Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes.” E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu.
O japonês dos olhos redondos
Zulmira Ribeiro Tavares
Dois amigos aposentados discutem sobre o vizinho tintureiro de um deles. Com uma argumentação forte um dos amigos consegue “provar” que apesar de o tintureiro ser loiro e ter olhos azuis, na verdade se tratava de um japonês. O conto é uma sátira àqueles que usam argumentação falsa, mas segura, para tentar provar coisas estapafúrdias.
Vadico
Edilberto Coutinho
Em 1a pessoa. Um velho, que é o narrador do conto, vê na televisão de um bar um documentário sobre Vadico, um grande jogador na juventude que agora estava velho, pobre e esquecido. Enquanto o velho assiste ao documentário, senta-se uma mulher ao seu lado e começa a beber conhaque.
No final do documentário noticia-se que Vadico havia se suicidado naquele dia, nesse mesmo momento o velho percebe que a mulher ao seu lado tomara um vidro de pílulas com o conhaque e também se suicidara.
Linda, uma história horrível
Caio Fernando Abreu
Conto em 3a pessoa. Filho chega na casa da mãe, depois de muitos anos de ausência. Mãe e filho conversam até que a mulher decide dormir. Quando fica só o filho olha para a velha cadela da família, chamada Linda. A cachorra está doente com manchas rosadas sob o pêlo. Nesse momento ele tira a camisa e vê no espelho seu próprio peito, também coberto por manchas rosadas sob os pêlos. Subentende-se que o rapaz era aidético.
Os mínimos carapinas do nada
Autran Dourado
Na cidadezinha de Duas Pontes, os homens ricos, os coronéis fazendeiros tinham um passatempo: trabalhar pedaços de pau com canivete. Era uma forma de usar o tempo livre para não fazer nada. Havia três grupos desses carapinas (carpinteiros) do nada. O primeiro grupo era dos que fazia carrinhos, caminhões, presépios que eram dados de presente, pois quem se dedicava a este “ofício” eram os coronéis abastados, assim como o 2o e o 3o grupo.
A segunda categoria era dos fazendeiros que moldavam a madeira com canivete para fazer colher de pau, algo de grande inutilidade.
A terceira e mais “sublime” categoria era dos coronéis que passavam boa hora do dia moldando pedaços de pau com seus canivetes até virarem: nada. Um dos representantes deste grupo é o avô do narrador do conto, vovô Tomé, que morre com o canivete na mão fazendo caracóis na madeira.
“E os anos passaram e eu me afastei de vovô Tomé. Fui para Belo Horizonte, onde fiz meu curso superior sustentado por ele. É com remorso que me lembro de que lhe escrevi apenas umas minguadas cartas. Fiquei sabendo por uma carta de vovó Naninha que ele tinha morrido.
Voltei imediatamente a Duas Pontes. Vovó Naninha disse que ele morrera de pé, tirando um enorme caracol. Tinha encontrado o seu nada.
Vovó Naninha me deu o seu canivete preferido. Não sei o que fazer com ele, é de outra maneira que procuro o meu nada.”
Conto (não conto)
Sérgio Sant’Anna
Conto metalingüístico que versa sobre a arte da escrita: o que, quem e como narrar uma história.
“Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar esta história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha.
Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para contar.”
ANOS 90
ESTRANHOS E INTRUSOS
Os anos 90 descartam o baixo astral e inventam um fim de século rico de imagens e criatividade. É uma década de estranhos e intrusos na festa da cultura: às mulheres somam-se os negros, os gays, os brasileiros em Nova York... Na época que celebra a diferença, nossos contistas produzem alegorias do híbrido. Combinam o humano ao animal, exploram a fusão com o tecnológico. Pelo que deixa entrever a arte de nossos melhores contistas atuais, parece que no futuro próximo vamos viver num país mais heterogêneo, mais plural, embora um pouco hesitante em relação às suas novas metas. A diversidade de estilos aponta para um período de transição, como aconteceu no final do século passado. Mas não há temor nem entusiasmo diante do inesperado, diante do todo outro que pode vir – ou não. (Ítalo Moriconi)
A Confraria dos Espadas
Rubem Fonseca
Numa sociedade secreta (A confraria dos espadas), um grupo de homens desenvolve o orgasmo múltiplo sem ejaculação, buscando uma forma mais requintada de sexo, que os distanciasse dos animais, meros procriadores. Embora esta técnica se transforme em uma prisão, ela revela que, para Rubem Fonseca, adiar o orgasmo rápido é evitar o sem sentido da vida, através da tentativa de interromper o nascimento e a morte. Neste seu universo corrompido, aos seres resta apenas o encontro entre dois corpos, prolongado ao máximo.
Estranhos
Sérgio Sant’Anna
“Cheguei à portaria daquele edifício em Botafogo, para ver o apartamento, quase ao mesmo tempo que uma mulher. (...) Quando o porteiro estendeu a chave na minha direção ela disse:
- Não podemos subir todos juntos?
(...)
- Também está procurando apartamento há muito tempo? – perguntei, para quebrar o gelo entre nós.
- Não. Este é o segundo.
Chegamos ao décimo primeiro andar, peguei a chave e introduzi facilmente na fechadura. Ela entrou. (...)
- Você é da polícia? – ela perguntou.
- Não, sou jornalista.
(...)
- Estou com trinta e quatro anos – a mulher disse.
- Parece ter bem menos – falei.
- Ele parece que não acha – ela retrucou.
- Ele quem?
- Não interessa. E você, quantos anos tem?
- Trinta e dois.
- Ele tem cinqüenta – ela falou com orgulho.
Foi aí que eu disse a grande besteira:
- Ele te abandonou?
Sem qualquer aviso prévio, ela desatou num chovo convulsivo. (...) Ela arrancou o vestido de baixo para cima, de um só golpe. Havia parado de chorar. Eram seios perfeitos. (...) A mulher, por sua vez, desatava meu cinto, para depois baixar minha calça e minha cueca. (...)
Segurei os braços dela.
- Eu sou noivo.
Ela deu uma gargalhada artificial. (...)
Creio poder revelar que gastamos duas camisinhas e fizemos de tudo. (...)
- Pretende ficar com o apartamento? – perguntei enquanto nos vestíamos.
- Uma gaiola dessas? Você deve estar brincando.
(...)
- Me diga ao menos o seu nome – implorei.
- O que passou, passou, está certo?
- Não quer nem saber o meu?
- Não – ela disse, batendo a porta.
O que tenho mais a dizer?
Terminei com a Clarice e vim morar sozinho no apartamento 1101, B, do Condomínio Bois de Boulougne, na expectativa de que o coroa um dia aprontasse mais alguma com a mulher, e ela, farejando o meu destino, viesse me usar para uma nova vingança.”
Nos olhos do intruso
Rubens Figueiredo
Conto surreal em que um homem encontra cópias (clones) de si numa cidade moderna.
O anti-Natal de 1951
Carlos Sussekind
Em 3a pessoa