Perguntas espontâneas que surgem tanto para quem se interessa pelo curso de História quanto para os que desejam saber as razões que levam alguém a estudar História.

Estudar História não é um privilégio universitário. Mas é na universidade que esse estudo ganha sua forma organizada, sistemática. Estudar História é descobrir e apropriar-se do resultado da ação dos homens no tempo, que se transforma em realidade concreta individual e social.

Essa realidade, para a História, forma o passado. Esse passado é experimentado – no presente – como algo a ser conhecido, entendido, explicado. Por quê? Para alcançar-se uma compreensão adequada do presente. Para quê? Para entender o conjunto da realidade social humana e projetar a ação presente e futura.

Todo ser humano, de uma forma ou de outra, lida com o passado para situar-se em seu espaço de identidade e no mundo em que vive. O estudante que deseja obter um diploma universitário de História objetiva alcançar uma capacitação profissional que o habilita a investigar o passado de acordo com procedimentos metódicos, com o fito de elaborar narrativa que apreenda, descreva e explique – cientificamente – o passado que é patrimônio comum dele, de sua comunidade e da humanidade.

O estudante interessado em torna-se um historiador deve estar consciente de que a História é um dos mais antigos saberes constituídos pela civilização. Com a Filosofia e a Literatura (poesia e teatro) a História está presente desde os primeiros momentos da nossa tradição ocidental. O esforço sistemático de compreensão racional do passado, resultando em uma obra escrita, remonta ao grego Heródoto, no século V a.C. No século XIX, com o desenvolvimento de vários instrumentos de pesquisa e de análise do documento, a História ganhou assumiu sua pretensão metódica de cientificidade.

Ao buscar estabelecer os fatores explicativos confiáveis da ação humana no passado, a História ganhou reconhecimento entre as chamadas Ciências Humanas e Sociais. Hoje em dia, a construção do saber histórico tem consciência das variáveis de sua produção, de que dependem a verdade e a objetividade sociais a que se candidata. Assim, os historiadores hoje dedicam-se também às formas de apresentar o resultado de suas pesquisas não só na historiografia, isto é, nas narrativas historiográficas, mas igualmente no ensino e na formação dos novos historiadores.

A História, por ser científica, dialoga com os demais campos do saber, como a Literatura, a Filosofia, a Política, a Antropologia, a Sociologia, o Direito, a Economia, pois o produto final do trabalho do historiador é um texto científico de múltiplas facetas, uma composição literária, em estilo que permita ser lido com prazer.
 
Os futuros historiadores, portanto, devem buscar não só a competência em lidar com as fontes documentais e de outra natureza (visuais, plásticas, arquitetônicas, etc.), com a bibliografia acumulada ao longo das tradições e presente nas bibliotecas e arquivos, mas igualmente desenvolver a habilidade narrativa, com o ofício do escritor.

Em particular desde o século XIX, a História desempenha um papel relevante na construção da identidade de várias nações. Assim como cada indivíduo tem uma memória pessoal, cada sociedade constrói uma memória coletiva, cada Estado promove uma “marca” própria.

Certamente, os historiadores estão entre os principais artífices da memória coletiva, responsáveis não só pela constituição de um passado coletivo, nacional, como pela vigilância dos usos e abusos que deste passado possam vir a ser feitos.

Há quem diga que, em função da contemporânea globalização, as histórias nacionais estão em baixa. Não é verdade. Hoje, ao mesmo tempo em que se assiste à mundialização econômica e cultural, verifica-se o recrudescimento das identidades, étnicas, religiosas e também nacionais.

A História, contudo, tem dentro de si várias Histórias. Ela é plural tanto pela diversidade das perspectivas, a partir das quais é produzida, quanto pela riqueza dos temas que aborda. A História pode ser política, econômica, religiosa, das idéias, das mentalidades, dos costumes, da cultura, do cotidiano, das relações internacionais, das regiões, dos municípios, do mundo, antiga, medieval, moderna, contemporânea.
 
Ela pode ser recortada em diversos ângulos e em diversos períodos. Sem embargo, em todas permanece a matéria-prima básica do historiador: o tempo e a ação humana nele. Os ritmos das ações humanas no tempo não são uniformes. Há um tempo longo, sedimentado, cuja transformação é lenta, como o da geografia ou das mentalidades. Pode-se falar também de tempos intermediários, como os dos ciclos econômicos, dos regimes políticos, das organizações sociais.

Não se pode esquecer do tempo volátil, curto, o do quotidiano imediato, dos jornais, dos acontecimentos políticos. O historiador, no fundo, é um tecelão de temporalidades. O tecido final: a História, sobre cuja trama temporal se destaca o bordado no agir humano pensado e narrado pelo historiador.
Áreas de atuação

O profissional com formação em História encontra-se tradicionalmente ligado à área do magistério, podendo exercer essa atividade nas escolas de ensino fundamental e médio, no caso de ter alcançado a licenciatura na graduação, ou nos estabelecimentos de ensino superior, quando portador de diploma de pós-graduação. A experiência de pesquisa e a aptidão de realizá-la com qualidade e autonomia são requisitos para a atividade acadêmica em estabelecimentos de ensino superior.

“... Ensinar História é ensinar a fazer História. É impossível ensinar História sem o domínio suficiente de como se dá a produção histórica. Ensinar não se perfaz com transmitir conhecimentos, muito menos informação.
 
Nem é o professor mero revendedor de mercadoria disponível no estoque do curso, ou simples executante de um programa de distribuição (facilitada por técnicas didáticas) de noções consolidadas pelo uso. Ao contrário, a reconstrução do próprio processo de pesquisa deve participar, de uma forma ou outra, do processo pedagógico.

Já se vê que esta perspectiva permite resolver também a falsa dicotomia de objetivos de um curso de História, indeciso entre a formação do pesquisador e do professor: as diferenças existem, é clero, mas são de grau, contexto e organização prática do trabalho, não de natureza.”

Nos últimos tempos, entretanto, os historiadores têm encontrado formas novas de exercer suas competências. Além do ensino e da pesquisa universitária, importantes campos de atuação para o historiador são aqueles ligados aos mais variados tipos de informação: arquivos, museus, bibliotecas, administração pública, perícia técnica (demarcação de quilombos e áreas indígenas, por exemplo) etc.

Nos últimos decênios, o campo da pesquisa tem aberto caminhos instigantes, um deles, a atuação em organizações (principalmente as não-governamentais - ONGs), interessadas em compreender fenômenos sociais atuais cuja perspectiva histórica esclarece nuanças que, de outra forma, permaneceriam imperceptíveis. Os historiadores são também requisitados para trabalhar como assessores políticos.

A História é uma das formas em que as sociedades interrogam criticamente a si mesmas. Cada época faz a trajetória temporal dos homens as perguntas e solicitações que suas próprias realidades e necessidades sugerem.

A busca de respostas às nossas inquietações, aos dilemas políticos e pedagógicos tem um alvo: a educação escolar. A escola, como lugar social, local de trabalho, espaço de conflitos, de formas culturais de resistência,   exerce,  um papel fundamental na formação da consciência histórica dos cidadãos. A História e o seu ensino são,  fundamentalmente,  formativos. 

Esta formação não se dá exclusivamente na educação escolar, mas é na escola que experienciamos as relações entre a formação, os saberes, as práticas, os discursos, os grupos e os trabalhos cotidianos. Os professores de História  sujeitos do processo vivenciam uma situação extremamente complexa e ambígua: trata-se de uma disciplina que é ao mesmo tempo extremamente valorizada, estratégica para o poder e a sociedade e ao mesmo tempo desvalorizada pelos alunos e por diversos setores do aparato institucional e burocrática.

É na instituição escolar que as relações entre os saberes docentes e os saberes dos alunos defrontam-se com as demandas da sociedade em relação à reprodução, transmissão e produção de saberes e valores históricos e culturais . Neste sentido, as práticas escolares exigem dos professores  de História muito mais que o conhecimento específico da disciplina, adquirido na formação universitária.

Ora, o que o professor de História ensina e deixa ensinar na sala de aula vai muito além da sua especialidade. Daí decorre, o que parece óbvio: a necessidade de articular diferentes saberes no processo de formação. No caso, do professor de História, as dimensões éticas e políticas da formação, são extremamente importantes, pois o objeto do ensino de História é constituído de tradições, idéias, símbolos e representações que dão sentido às diferentes experiências históricas vividas pelos  homens nas diversas épocas.

O profissional de História é aquele que, independentemente do fato de estar atuando neste ou naquele setor específico, deve estar capacitado a discernir criticamente entre as perguntas, as respostas, as modalidades diversas em que a disciplina que escolheu dialoga com o social de que emerge e que a sustenta (em todos os sentidos do verbo sustentar).