Benefício a estudantes indígenas aumenta polêmica entre não-cotistas. Entre os índios caingangues, Lucíola Maria Inácio Belfort é chamada de Nivãn. Está escrito na certidão de nascimento indígena que carregará, todos os dias, às aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para mostrar a quem contestar sua origem.

Beneficiada pelo recém-criado sistema de cotas, ela é a primeira índia a cursar Medicina no Estado, conforme o Conselho Estadual dos Povos Indígenas.

Além da adaptação do começo do curso, nas primeiras semanas de estudo ela precisará conviver com as críticas. Sua matrícula virou alvo de polêmica entre os universitários.

Filha de mãe índia e pai branco, a aluna vem sendo bombardeada por mensagens em sua página no site de relacionamentos Orkut, nos últimos dois dias. Estudantes contrários às cotas contestam o ingresso, alguns com palavras agressivas.

No começo, deletava os recados. Depois, resolveu deixá-los. Em uma das comunidades da UFRGS no Orkut, com 20.699 membros, até ontem à noite havia 321 manifestações, quase todas contrárias à cota indígena.

Para a aluna de 31 anos, dois fatos podem ter despertado a ira dos contrários às cotas: ela não tem a pele parda e já é formada
em Enfermagem pela Unijuí, universidade particular. Ela ressalva que concluiu o curso graças a uma bolsa integral de um programa da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Céli Pinto, que foi presidente da Comissão de Políticas de Ações Afirmativas responsável pela implantação do sistema de cotas, salienta que a discussão é desnecessária, uma vez que os estudantes indígenas não competiram com os vestibulandos tradicionais.

- São vagas criadas especificamente para eles. Se na Medicina há 140 vagas, ela é a estudante 141 - explica.