Eles moram em São Francisco de Paula, na serra gaúcha, e freqüentam à distância algumas das melhores universidades públicas do país

Uma tradição começa a ser quebrada no Ensino Superior. Jovens de pequenos municípios não precisam mais sair de casa para estudar em uma universidade pública. Em São Francisco de Paula, cidade serrana com 21 mil habitantes, os estudantes já podem optar entre quatro instituições federais.

O município está entre os 32 do Estado que aderiram à educação à distância por meio da Universidade Aberta do Brasil (UAB), um programa do Ministério da Educação que oferece a modalidade com o padrão de qualidade das melhores escolas do país.

Além da maior diversidade de instituições federais, São Chico, como é chamada por seus moradores, se destaca porque abriga ainda a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs). Ao todo, são oito cursos superiores gratuitos nas áreas das ciências humanas e exatas.

- Tem gente que pergunta por que eu ainda não saí de São Francisco de Paula, como todo jovem da minha idade costumava fazer. Mas não preciso. Quero ficar para estudar e trabalhar - diz Isadora Schuch de Castro, 22 anos.

Graduada sábado pela Uergs como tecnóloga em Meio Ambiente, Isadora prestou vestibular para Matemática da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e foi aprovada. Vai emendar dois cursos superiores sem sair de casa.

- Já cursei uma disciplina à distância e estou sentindo a diferença. A exigência é muito maior. Não tem como o aluno não participar. - diz a estudante.

O impacto da educação à distância na vida de Clarines Thewes Reis, 25 anos, foi ainda maior do que uma mudança de tecnologia. Ex-aluna de uma faculdade privada, ela passou a sonhar novamente com a formatura.

- Ia me formar velhinha - diz a estudante de Pedagogia da UFPel, que cursava poucas disciplinas por semestre para poder bancar a mensalidade.

Existe vida fora do campus


Distante 110 quilômetros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, Bruno Moraes Teixeira, 20 anos, é o calouro que terá mais chance de freqüentar o campus. Com a carteira de estudante, poderá almoçar no restaurante universitário (RU), usar a biblioteca e desfrutar de todos os benefícios da instituição.

Mas ele não tem pressa. Prefere se dedicar aos estudos na sua cidade e entendeu o que significa ser aluno de uma das mais conceituadas universidades do país. Para cursar Planejamento
e Gestão para o Desenvolvimento Rural vai ao pólo da UAB diariamente.

- Podia estudar em casa, mas o computador do pólo é bem mais rápido que o meu, e os tutores auxiliam bastante, sem falar no convívio com os colegas - diz Bruno, filho de pecuaristas da cidade.

Além dos 60 colegas da UFRGS, Bruno encontra no pólo amigos de outras instituições, como Jean Heitelvan, 22 anos, aluno de Ciências Contábeis da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Até pouco tempo, os dois se encontravam nas ruas de São Chico. Agora, as conversas são por e-mail.

- Eles estão criando uma nova cultura na cidade. Ganharam autonomia, disciplina e ensino de qualidade - diz a coordenadora Maria Lúcia Teixeira.

O próximo vestibular em São Francisco de Paula será para Letras, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Entre os candidatos, está Luciana Gross, 26 anos.

- Já podia estar formada desde 2004. Sempre cursei faculdade fora e com crédito educativo. É longe, é complicado, é cansativo, e o transporte é caro. Quero estudar na minha cidade - diz.