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CONSELHOS DE UM DOUTOR MULTIMÍDIA
Os corredores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo são testemunha: antes mesmo de pendurar o diploma de médico psiquiatra na parede, Jairo Bouer, 42, viu o consultório ficar pequeno.
Começou como colaborador da Folha de S. Paulo após o fim de sua residência, em 1993, mas sua atuação em revistas, no rádio e, acima de tudo, na televisão [MTV e Rede Globo] o transformaram numa personalidade midiática, reconhecível em todo o País.
Nesta entrevista ao repórter Vitor Pamplona, ele comenta seu papel de comunicador e aconselha: “O médico precisa aprender a lidar com seus limites”.
A TARDE – Você se especializou em psiquiatria, vertente da medicina comportamental. Como se aproximou do estudo da sexualidade?
JAIRO BAUER – Sexualidade era uma das áreas de concentração no final da residência médica em psiquiatria. Havia um grupo de estudo [Prosex] e atendimento de pacientes que estava se formando nessa época no Instituto de Psiquiatria da USP, onde eu estudei, e acabei entrando nesse grupo.
AT – A medicina exige profissionais sempre atualizados. O que mudou desde o seu tempo de faculdade?
JB – Muita coisa, principalmente o amplo acesso ao mundo eletrônico, que facilitou a aquisição de novas informações e atualizações. Antes isso ficava restrito aos jornais médicos e ao conhecimento de um ou outro chefe do grupo ou médico que viajava para fora. Hoje, tudo é mais fácil.
AT – Há uma crítica, feita inclusive por médicos, à grande quantidade de especializações da profissão, o que diminuiu a existência dos clínicos gerais, os médicos da família. O que você acha disso?
JB – Acho que há lugar para tudo. Com o conhecimento acumulado ao longo das últimas décadas, era impossível que um clínico geral pudesse acompanhar tudo o que acontecia, daí a necessidade de especialistas. Por outro lado, o especialista, muitas vezes, perde a visão do todo. Em um país gigantesco e tão diferente como o nosso, há espaço para o generalista, para o médico de família e para o especialista.
AT – Historicamente, a medicina é o curso mais concorrido nas universidades e essa grande concorrência contribui para socialmente ser vista com glamour. Isso existe? Os médicos se sentem especiais?
JB – Glamour é como uma bolha de sabão que se rompe ao primeiro contato com a realidade, ou pelo menos deveria. Com uma situação ainda tão precária em termos de saúde no País e com a baixa remuneração da maior parte dos médicos em seu início de carreira, o glamour é colocado no fundo da gaveta e encara-se o mundo como ele é. Talvez o estudante ou o jovem médico se sintam especiais pela dificuldade de acesso, pela dedicação ao curso, por tratarem do ser humano, mas a maior parte logo desce da nuvens e pisa no chão.
AT – No fim de janeiro, foi publicado um estudo nos EUA sobre profissões deprimentes e os médicos estavam entre os mais insatisfeitos, apesar de terem uma vida financeira confortável. Você considera o cotidiano médico depressivo?
JB – Depressivo não, mas muitas vezes estressante e desgastante, o que pode levar a quem não está muito bem a entrar em um quadro de ansiedade e depressão. Principalmente os médicos em início de carreira, que têm que acumular três ou quatro empregos ao mesmo tempo. Por isso é importante que se reserve espaço para lazer, diversão, namoro, viagem, coisas que todos, independentemente da profissão, deveriam fazer.
AT – Sua experiência na TV e na imprensa é incomum na profissão. Como você lida com o papel de divulgador da medicina?
JB – Sempre me interessei por comunicação e a faculdade de medicina não dava conta desse meu desejo. Cheguei a prestar vestibular para jornalismo, fui aprovado em publicidade, não cursei. Fiz aulas de criação literária e roteiro durante e depois da faculdade para tentar suprir essa vontade. Assim que acabei a residência comecei a trabalhar como uma espécie de repórter médico na Folha de S.Paulo. Isso já faz 15 anos. De lá para cá, jornais, revistas, rádio, televisão, livros, internet, tudo faz parte do meu dia a dia, talvez hoje até mais do que a prática clínica [consultório]. Acho que acabei tendo uma outra especialidade, que não está muito nos currículos, que é um comunicador na área da saúde e do comportamento.
AT – Você vê problema em às vezes ser confundido com um consultor sentimental?
JB – A idéia nos diversos meios de comunicação é aumentar o nível de informação das pessoas, esperando que elas consigam ter mais saúde e um comportamento mais seguro. A gente tenta encurtar o caminho até um médico fazendo com que as pessoas procurem ajuda se tiverem mesmo algum problema. Se enxergam isso como consultor sentimental, por mim, tudo bem.
AT – É comum decidir ser médico pela vontade de ajudar os outros. Muitos pacientes vêem nos médicos verdadeiros salvadores. Como é ter que lidar com a impotência que, às vezes, vocês têm que experimentar?
JB – Como em qualquer profissão, o médico também tem seus limites. Muitas vezes ficamos impotentes diante do destino, do corpo, da evolução da vida. Todos vamos, um dia, morrer. Temos que aprender a lidar com essa realidade.
AT – O que é preciso para ser bom médico?
JB – Curiosidade, esforço, vontade de aprender e gostar do ser humano. Acho que é isso.


