No braço das carteiras tem sempre rabiscada uma fórmula de física ao lado de um coração flechado em caneta esferográfica. Na hora do intervalo, mal dá para ouvir os próprios pensamentos com toda a gritaria, gargalhadas e conversas que se atropelam. Seja no Colégio Anchieta [Pituba] ou no Colégio Estadual Thales de Azevedo [Costa Azul]. Por mais distantes que estejam do ponto de vista econômico, as diferenças quase somem se olharmos apenas para as expectativas dos alunos.

Os dois colégios tiveram boas colocações no Exame Nacional do Ensino Médio de 2007 [Enem] em suas categorias. Entre os particulares de Salvador, o Anchieta ficou em primeiro lugar [com média 76,65]. Para estudar lá, os pais dos alunos do terceiro ano desembolsam mensalmente R$ 1.116. O que dá direito a material, acompanhamento psicológico, orientação vocacional, aulas de reforço com monitores e de aprofundamento “caso o aluno se interesse em participar de uma olimpíada de matemática, por exemplo”, explica Nadja Valente, coordenadora do terceiro ano.

O Thales ficou em primeiro lugar entre os estaduais [57,7] se excluirmos os dois Colégios da Polícia Militar [CPM], que são públicos, mas têm reserva para filhos de militares e teste para ingresso de estudantes, que seleciona alunos mais preparados. No Thales entra quem é sorteado pelos computadores da Secretaria de Educação do Estado.

Lá faltam recursos para manutenção e, em algumas turmas, professores. O diretor José Roque diz que os bons resultados são explicados mais pelo esforço de professores e alunos que pela infra-estrutura adequada.

A quadra de esportes está interditada, o alambrado que cerca o prédio caiu e, desde o início do ano letivo, duas turmas de terceiro ano estão sem aula de matemática por falta de professor. Érica Menezes, 18 e Helder Trindade, 18, reclamam. A direção diz que para suprir a falta, as turmas tiveram que ser condensadas a outras. “Mesmo assim, o programa está atrasado e a gente teme pelo vestibular”, queixa-se Érica.

ESTRESSE – Nadja Valente diz que o Anchieta encara o vestibular como uma conseqüência e não um objetivo principal. Roberto Sampaio, professor de educação física do Thales, prefere dizer que a intenção do colégio é “formar homens”. Sua entonação deixa no ar um H maiúsculo. Ainda assim, no terceiro ano, os alunos repetem que o é a única e atual preocupação.

Mais que com a pressão da escola e dos pais, eles têm que aprender a lidar com a auto-cobrança. “Meu medo é desperdiçar meu presente pensando demais no futuro”, quase filosofa Alexandre Vasconcelos, 17, aluno do último ano do Anchieta.
Ele, que quer passar em medicina, parece mesmo meio tenso com a inglória tarefa de conciliar estudo e “não morrer de estresse”.

Seu jeito de falar, de mover as mãos e um certo riso nervoso o denunciam. “É minha vida que está em jogo”, diz, ainda que saiba de toda estrutura facilitadora que está à sua disposição. O garoto é tão rígido consigo que, mesmo apontado por colegas como um dos mais estudiosos, se acha digno de um 7,5 e olhe lá.

“Aqui não tem como não aprender. Eles [a escola] cobram demais”, diz Maria Eugênia Barros, 17. Vinda da cidade de Serrinha [a 173 km de Salvador], a garota, que também quer ser médica, se assustou com o nível de cobrança do colégio. Todo sábado tem avaliação. Duas, na verdade. “Esse ano é só vestibular”. A coisa é tão séria que até no apoio da mãe ela enxerga uma espécie de cobrança disfarçada de boas intenções. O jeito é estudar ao menos cinco horas por dia. Mesmo que não seja com os livros de português ou história. Cada ação do dia vira um esforço utilitário. “Ler uma revista também é estudar”.

Tempo para as aulas extras que o colégio oferece não existe. Música, balé, judô, robótica, teatro, natação e outras atividades que fazem a vida valer a pena são sacrificadas em nome da absorção de um conteúdo impossivelmente extenso. O tempo livre é gasto nas aulas de monitoria à tarde. É proibido acumular dúvidas.

É por isso que Júlio Cezar Zaro, 17, se afastou um pouco do time de basquete. E altura o rapaz tem. Passa fácil do 1,85
m. “Se não passar no vestibular, não vou ter emprego”. Diz isso mesmo sem saber que emprego quer ter. Ao menos ele pensa que o convívio com os colegas [os bons e os ruins] preparam mais para a vida que fórmulas matemáticas aprendidas apenas para marcar um xis corretamente.

PÚBLICA – Ayala Melo,16, aluna do terceiro ano no Thales de Azevedo, é outra que anda em dúvida sobre qual carreira seguir. Fala em arquitetura, mas todo mundo acha que psicologia é a cara dela. Só sabe que quer passar na Ufba ou na Uneb. Sua idéia de realização está mais atrelada à garantia de sobrevivência no cruel mercado de trabalho do que a de satisfação pessoal. “Fazer uma faculdade pública é uma forma de se diferenciar da concorrência”.

Tempo integral de estudo, para ela, não existe. Durante a tarde trabalha como menor aprendiz na Riachuelo. Então se esforça e conta com o que tem. Ainda que a escola ofereça limitações, ela acha os professores qualificados o suficiente para obter uma boa educação. O que atrapalha é o calor da sala de aula, onde dois ventiladores de teto giram inutilmente.

Meio sem graça por dar entrevista e por virar alvo de uma câmera fotográfica ela aponta Arthur Calvetti, 17. “Fala com ele. Ele que é o aluno nota dez”. Nas feições e nos modos, Arthur é mesmo o estereótipo do CDF. Usa óculos, fala calmo, educado, desenvolto. Quer ser advogado. Estratégico, tirou esse ano apenas para aprender com calma. Nada de acumular conhecimento inútil. Só vai fazer vestibular à vera no ano que vem.

Ele reconhece e enumera alguns dos problemas pelos quais passa sua escola, mas também sabe reconhecer que os professores “levam a sério”. Só sente falta de um tipo de lição na escola. “Deveríamos ter aulas sobre direitos e deveres dos cidadãos”. O rapaz nasceu para a coisa.