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O GUARANI - José de Alencar ( Resumo)
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Publicado em 13/10/2007
 
O Guarani (1857) é o primeiro de uma série de três romances indianistas  Iracema (1865) e Ubirajara (1874) produzidos pelo escritor.

Sobre o Romance:

 

O Guarani (1857) é o primeiro de uma série de três romances indianistas  Iracema (1865) e Ubirajara (1874) produzidos pelo escritor. Por que motivo, o leitor perguntará, Alencar ocupou-se em trazer à luz personagens como Peri, Iracema ou Ubirajara?

Por três motivos fundamentais:

1. Em primeiro lugar porque o Romantismo português, principalmente o de Alexandre Herculano, imitando o Romantismo europeu, buscou seus principais heróis na Idade Média, num tempo século XIX - em que a carência de heróis era predominante, período pós-revolução francesa;

2. Em segundo lugar, porque na Europa e, conseqüentemente, por influência, no Brasil, havia o forte impacto das concepções do mito do "bom selvagem"de Rousseau: quando mais distante da civilização, mais incorruptível era o homem;

3. Por último, porque o Brasil encontrava-se recém-libertado do jugo português e, dessa forma, devia fazer valer seus mitos. Quais? Talvez por inspiração gonçalvina, da primeira geração romântica, o índio tenha sido "redescoberto"por Alencar como uma forma de apresentar um legítimo herói: bom, belo, justo e verdadeiro.

Geralmente, quando se trata de ler um romance, as pessoas torcem o nariz: José de Alencar?! O Guarani?!

Pois é preciso levar em conta que o escritor é um clássico da literatura brasileira e que O Guarani, primeiro romance de vulto do autor que antes publicara Cinco Minutos ( 1856) e A Viuvinha ( 1857) - ,é uma obra-prima ; além disso, é uma obra-prima também do Romantismo brasileiro.

Publicado quando o escritor tinha apenas 29 anos, revela um prosador fundamentalmente importante, diante de quem Joaquim Manuel de Macedo, por exemplo, perde o encanto e o brilho.

O Guarani foi escrito sob a forma de folhetins para o Diário do Rio de Janeiro entre os meses de janeiro e abril de 1857 e, ainda naquele mesmo ano, editado em quatro fascículos ( cada uma das 4 partes que compõem o romance), o que dará à narrativa um contorno definitivo de "romance", não só de folhetim. É um clássico da nossa literatura e, no ano em que foi publicado, fez um sucesso estrondoso, o que deu, aliás, ensejo à sua publicação em volume.

Deve ser lido sem temor mesmo assim: é uma grande, curiosa e bela narrativa, com feitio épico.

Os romances alencarianos podem ser enfeixados sob quatro divisões temáticas:

1. romance urbano: aquele cuja ambiência é o Rio de Janeiro ; neles podemos observar que o móvel da ação é uma complicação sentimental qualquer, uma paixão avassaladora que une dois seres:

Cinco Minutos ( 1856)
A Viuvinha (1857)
Lucíola ( 1862)
Diva (1864)
A Pata da Gazela ( 1879)
Sonhos D'Ouro ( 1872)
Senhora (1875)
Encarnação ( 1893, publicação póstuma)

2. romance indianista: aquele que é voltado para a idealização heróica do índio; os valores como o Bem, o Belo, o Justo e o Verdadeiro são destacados. Esses romances valorizam o índio como representante máximo da brasilidade.

O Guarani ( 1857)
Iracema ( 1865)
Ubirajara ( 1874)

3. romance histórico: aquele que tem um núcleo histórico, mas cujo desenvolvimento é ficcional. O Guarani é um bom exemplo também de romance histórico, posto que D. Antônio de Mariz é personagem histórica dos primeiros tempos coloniais.

As Minas de Prata (1865-1866)
Alfarrábios (1873)
A Guerra dos Mascates ( 1871-1873)

4. romance regionalista: aquele que tem a espacialidade adaptada a regiões longínquas do Brasil e capta os seres dessas regiões, seus costumes, valores e, muitas vezes, até as expressões dos falares daquelas regiões.

O Gaúcho ( 1870)
O tronco do Ipê ( 1871)
Til ( 1872)
O sertanejo (1875)

Alencar escreveu ao todo 21 romances; dentre eles, nenhum merece qualquer tipo de repreensão quanto ao enfoque ou estilo Classificação: histórico ou indianista? Uma "língua brasileira":

" Nós, escritores nacionais, se quisermos ser entendidos de nosso
povo, havemos de falar-lhe em sua língua, com os termos e locuções
que ele entende, e que lhe traduzem nossos usos e sentimentos."
( José de Alencar)

A estrutura do romance:

O romance esta dividido em quatro partes:

Parte I - Os Aventureiros ( 15 capítulos: Cenário, Lealdade, A Bandeira, A Caçada, Loura e morena, A Volta, A Prece, Três linhas, Amor, Ao Alvorecer, No Banho, A Onça, Revelação, A Índia, Os Três)

Parte II - Peri ( 14 capítulos: A Carmelita, Iara!, Gênio do Mal, Ceci, Vilania, Nobreza, No Precipício, O Bracelete, Testamento, Despedida, Travessura, Pelo Ar, Trama, A Xácara)

Parte III - Os Aimorés ( 14 capítulos: Partida, Preparativos, Verme e Flor, Na Treva, Deus dispõe, Revolta, Os Selvagens, Desânimo, Esperança, Na Brecha, O Frade, Desobediência, Combate, O Prisioneiro)

Parte IV - A Catástrofe ( 11 capítulos: Arrependimento, O sacrifício, Sortida, Revelação, O Paiol, Trégua, peleja, Noiva, O Castigo, Cristão, Epílogo)

Parte I

PRÓLOGO

Minha prima. Gostou da minha história, e pede-me um romance; acha que posso fazer alguma coisa neste ramo de literatura.
Engana-se; quando se conta aquilo que nos impressionou profundamente, o coração é que fala; quando se exprime aquilo que outros sentiram ou podem sentir, fala a memória ou a imaginação.
Esta pode errar, pode exagerar-se; o coração é sempre verdadeiro, não diz senão o que sentiu; e o sentimento, qualquer que ele seja, tem a sua beleza.
Assim, não me julgo habilitado a escrever um romance, apesar de já ter feito um com a minha vida.
Entretanto, para satisfazê-la, quero aproveitar as minhas horas de trabalho em copiar e remoçar um velho manuscrito que encontrei em um armário desta casa, quando a comprei.
Estava abandonado e quase todo estragado pela umidade e pelo cupim, esse roedor eterno, que antes do dilúvio já se havia agarrado à arca de Noé, e pôde assim escapar ao cataclisma.
Previno-lhe que encontrará cenas que não são comuns atualmente, não as condene à primeira leitura, antes de ver as outras que as explicam.
Envio-lhe a primeira parte do meu manuscrito, que eu e Carlota temos decifrado nos longos serões das nossas noites de inverno, em que escurece aqui às cinco horas.
Adeus.

Minas, 12 de dezembro.

Antes de iniciar o romance, a parte I guarda este Prólogo, uma espécie de explicação do porquê do romancista ter escrito o seu livro, uma maneira de proteger-se, apegar-se a algo conveniente ou, talvez, um motivo que o justifique.

Uma "prima" pede um romance, o narrador oferece-lhe um manuscrito que "encontrou" em um armário da casa, quando a comprou. Mais: previne a prima de que encontrará nele "cenas que não são comuns atualmente, não as condene à primeira leitura, antes de ver as outras que as explicam."

Assim, portanto, se inicia nosso romance: um livro que está sendo refeito pelo narrador e que, pelo assunto de que trata, será surpreendente...

E quão surpreendente será.


Parte I
Parte I Os Aventureiros

Primeiro Capítulo ( Cenário)

Aqui, há uma indicação temporal: "No ano da graça de 1604" e, como o nome do capítulo ressalta, o espaço é delimitado. A Serra dos Órgãos, o Rio Paquequer, a vegetação:

" Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa."

E uma casa surge diante de nossos olhos:

"Entretanto, via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma eminência, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique. (...)

Descendo dois ou três degraus de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construída sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, chegava-se à beira do rio, que se curvava em seio gracioso, sombreado pelas grandes gameleiras e angelins que cresciam ao longo das margens. (...)

As paredes e o teto eram caiados, mas cingidos por um largo florão de pintura a fresco; nos espaços das janelas pendiam dois retratos que representavam um fidalgo velho e uma dama também idosa.

Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão de armas em campo de cinco ou seis vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre palas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata orlada de vermelho, via-se um elmo também de prata, paquife de ouro e azul, e por um timbre um meio leão de azul com um vieira de ouro sobre a cabeça."

Está pronto o cenário onde acontecerá nossa história: a natureza exuberante e a casa de D. Antônio de Mariz, fidalgo lusitano.

Capítulo II (Lealdade)

"A habitação que descrevemos pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português de cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.

Era dos cavaleiros que mais se haviam distinguido nas guerras da conquista, contra a invasão dos franceses e os ataques dos selvagens."

Um dado histórico é introduzido, esclarecendo-se sobre D. Antônio de Mariz. É preciso observar que Alencar utilizou-se de um núcleo histórico realmente ocorrido, de que tomou ciência por documentos. Tal personagem realmente existiu e habitou aquelas paragens:

"Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da vitória alcançada pelos portugueses, auxiliou o governador nos trabalhos da fundação da cidade e consolidação do domínio de Portugal nessa capitania.

Fez parte em 1578 da célebre expedição do Dr. Antônio de Salema contra os franceses, que haviam estabelecido uma feitoria em Cabo Frio para fazerem o contrabando de pau-brasil.

Serviu por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da alfândega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo pela república e a sua dedicação ao rei.

Homem de valor, experimentado na guerra, ativo, afeito a combater os índios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do interior de Minas e Espírito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma légua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito tempo devoluta.

A derrota de Alcácer-Quibir, e o domínio espanhol que se lhe seguiu, vieram modificar a vida de D. Antônio de Mariz.

Português de antiga têmpera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a ele devia preito e menagem. Quando, pois, em 1582, foi aclamado no Brasil D. felipe II como sucessor da monarquia portuguesa, o velho fidalgo embainhou a espada e retirou-se do serviço."

O fidalgo D. Antônio esperou que D. Pedro da Cunha viesse em expedição ao Brasil, para onde se dizia que a coroa portuguesa seria transferida. Como se isso não se realizasse, o fidalgo tomou seus penates, brasão, armas e família e foi estabelecer-se na sesmaria que lhe concedera Mem de Sá.

Era abril de 1593. D. Antônio deu à habitação que mandara construir o máximo conforto e mandou vir de Portugal oficiais mecânicos e hortelãos que deram aos habitantes daquela sesmaria todo o conforto necessário.

Ao redor da casa, estabeleceram-se os aventureiros, quarenta, gente sob as ordens do fidalgo e que quando da ocasião da aproximação ou ataque dos índios, vinham todos se reunir na casa do fidalgo. Deviam-lhe, por tratos de palavra, obediência absoluta e quando iam ao Rio de Janeiro trocar mercadorias produzidas na terra, uma parte dos lucros era de D. Antônio.

Com ele, na casa, habitavam: sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, meio egoísta, mas de bom coração; o filho D. Diogo de Mariz; Cecília, que tinha, então, dezoito anos, "deusa desse pequeno mundo" e D. Isabel, uma sobrinha, mas de origem duvidosa e que os homens ser filha de amores entre D. Antônio e uma índia que cativara durante as expedições.

Capítulo III A Bandeira

Um grupo de cavaleiros, composto por 15 pessoas voltava do Rio de Janeiro, costeando a margem direita do Paraíba.

"Naquele tempo dava-se o nome de bandeiras a essas caravanas de aventureiros que se entranhavam pelos sertões do Brasil, à busca de ouro, de brilhantes e de esmeraldas, ou à descoberta de rios e terras ainda desconhecidas. A que nesse momento costeava a margem do Paraíba, era da mesma natureza: voltava do Rio de Janeiro , onde fora vender os produtos de sua expedição pelos terrenos auríferos."

Um dos cavaleiros, um moço de 28 anos, chamado Álvaro de Sá, vai à frente do grupo e os incita a prosseguirem mais rapidamente: faltavam apenas 4 léguas para que chegassem à sesmaria de D. Antônio. Loredano, com seu sotaque italiano e impertinente, pôs-se a zombar do moço.

Sabia que ele se interessava vivamente por Cecília; sarcástico, de espírito mordaz, incomoda D. Álvaro:

"- Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma coisa, mas falta-vos o ânimo de a proferir. Uma vez por todas, falai abertamente, e Deus vos guarde de tocar em objetos que são sagrados."

Álvaro está irritado com a desfaçatez com que Loredano trata de assuntos que só a ele pertencem. Acaba por perder a paciência e :

"- Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavalo e encostando-se ao italiano, falo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por Deus, que à primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como a uma cobra venenosa."

Nesse momento, um rugido fez estremecer toda a floresta e os cavaleiros engatilharam os arcabuzes.

Capítulo IV A Caçada

Você vai conhecer neste capítulo o índio Peri.

Quando a cavalgada chegou à clareira, deparou com esta cena:

"Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade.

Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem.

Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor de cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte: a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência. (...)

Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa, ornada por uma axorca de frutos amarelos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flechas na mão direita caída, e com a esquerda mantinha verticalmente diante de si um longo forcado de pau enegrecido pelo fogo."

Perto dele, escondida por entre a folhagem, havia uma onça enorme que o índio quer matar sozinho, conforme anuncia. E vai matá-la numa luta onde a competência do índio leva a melhor. Amarra-a viva e a carrega para as terras de D. Antônio.

Capítulo V Loura e Morena

"Caía a tarde.

No pequeno jardim da casa do Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente numa rede de palha presa aos ramos de uma acácia silvestre, que estremecendo deixava cair algumas de suas flores miúdas e perfumadas.

Os grandes olhos azuis, meio cerrados, às vezes se abriam languidamente como se para embeberem de luz, e abaixavam de novo as pálpebras rosadas.

Os lábios vermelhos e úmidos pareciam uma flor de gardênia dos nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite: o hálito doce e ligeiro exalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de algodão, tingia-se nas faces de uns longes cor-de-rosa, que iam, desmaiando, morrer no colo de linhas suaves e delicadas."

Observe o trecho e o compare, por exemplo, a um romance realista. Aqui e lá existe descritivismo. No entanto, no Romantismo o descritivismo é cheio de detalhes que levam à idealização. Cecília é "linda moça", há uma "acácia silvestre", as flores são "miúdas e perfumadas". Vá seguindo o trecho: "grandes olhos azuis", "pálpebras rosadas", "lábios vermelhos e úmidos"... tudo é perfeito, ideal.

Um romance realista, embora descreva detalhes, aproxima-se mais da realidade, indica o que existe, nunca idealiza.

Você há de contestar e dizer que a descrição de Luísa, em O primo Basílio, por exemplo, também é idealizada. Lá, no entanto, o narrador está apenas construindo uma personagem romântica, uma heroinazinha menor. Compare, então, a descrição de Cecília com Juliana, também de O primo Basílio:

" (...) Juliana entrou, arranjando nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitíssimo magra. As feições, miúdas, espremidas, tinham a amarelidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de retrós imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um tique nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto de roda, tufado pela goma das saias mostrava um pé pequeno, bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz."

Voltemos à análise: Em "Loura e Morena" duas moças nos são apresentadas; Cecília e Isabel. Cecília loura e Isabel morena. Ambas são primas e corre uma história: que Isabel seja filha de D. Antônio de Mariz com uma índia, quando de suas expedições.

Cecília sonhava que chorava, mas que aparecia ao seu lado um cavalheiro que lhe enxugava as lágrimas. Ao lado dele, um selvagem, como escravo, que lhe erguia uns olhos suplicantes.

Isabel entrou pela portinhola do jardim:

"Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabelos pretos, olhos desdenhosos, sorriso provocador, davam a este rosto um poder de sedução irresistível."

Ambas falam sobre Peri, que desaparecera na tarde anterior e Isabel demonstra certa intolerância para com ele; completa dizendo que também a tratam com desdém. Cecília tenta minimizar a impressão da prima, mas sabe que a mãe a despreza.

Ouve-se o tropel dos cavaleiros que chegam à casa. Cecília chama Isabel para que ambas vejam "as coisas lindas que eles nos trazem".

Capítulo VI A Volta

Ao mesmo tempo em que Cecília e Isabel estavam no jardim, dois homens conversavam do outro lado da esplanada. Eram D. Antônio e Aires Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de vida aventureira. Falavam sobre o fato de D. diogo, irmão de Ceci, ter cometido a barbaria de ter matado uma índia.

Eis D. Antônio:

" Uma simples preguilha de linho alvíssimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bela e nobre cabeça de velho.

Do seu chapéu de feltro pardo sem pluma escapavam-se os anéis de cabelos brancos, que caíam sobre os ombros; através da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavam suas faces rosadas, sua boca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.

Este fidalgo era D. Antônio de Mariz que, apesar de seus sessenta anos, mostrava um vigor devido talvez à vida ativa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade."

D. Antônio está preocupado que a ação do filho atraia a fúria dos índios contra a casa do Paquequer. D. Aires Gomes garante que os índios o respeitam.

Ao se aproximar do filho, está furioso:

"- Apesar das minhas recomendações expressas, ofendestes um desses selvagens e excitastes contra nós a sua vingança. Pusestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãe e dos homens dedicados. Deveis estar satisfeitos de vossa obra.

- Meu pai! ...

- Cometestes uma ação má assassinando uma mulher, uma ação indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis à cinta.

- Não mereço esta injúria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho.

- Não é vosso pai que vos rebaixa, sr. cavalheiro, e sim a ação que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir dela, proíbo-vos que a tireis da bainha que seja para defender a vossa vida."

O pai determina ao filho que peça serviço a Diogo Botelho, nas expedições.

D. Lauriana, que apareceu à porta, toma as dores do filho e D. Antônio a repreende por tomar as dores do filho e anuncia à mulher que Diogo partirá para Salvador. Apesar da mulher protestar, D. Antônio anuncia que assim será porque ele assim decidiu.

O tropel dos animais vinha chegando, subiram a ladeira e saudaram respeitosamente o casal. Cecília e Isabel também vêm saudar os cavalheiros recém-chegados. Álvaro , corando, foi saudar Cecília e "três olhares bem diferentes a acompanhavam, e partindo de pontos diversos cruzavam-se sobre essas suas cabeças que brilhavam de beleza e mocidade.

D. Antônio de Mariz, sentado a alguma distância, considerava aquele lindo par, e um sorriso íntimo de felicidade expandia o seu rosto venerável.

Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, cravava nos moços um olhar ardente, duro , incisivo; enquanto as narinas dilatadas aspiravam o ar com a delícia da fera que fareja a vítima.

Isabel , a pobre menina, fitava sobre Álvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquele raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço."

Loredano percebeu o sorriso de D. Antônio e compreendeu o que significava. D. Diogo, ainda entristecido pela conversa com o pai, veio saudar os recém-chegados.


VII A Prece

VII A Prece

Este capítulo é muito conhecido, tome cuidado porque alguns professores que fazem perguntas do vestibular podem ter uma recaída de saudade dos seus livros didáticos:

"A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com seus últimos raios.

A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores.

Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas e o ouricuri abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada: enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.

Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda, e ceder à doce influência da tarde.

Era a Ave-Maria."

Todos se ajoelharam para rezar, descobriram a cabeça solenemente. Somente Loredano conservava seu sorriso desdenhoso, observando Álvaro que, embebido pela beleza de Cecília, contemplava-a como se ela fosse a deusa para quem se dirigia a prece.

D. Antônio convidou Álvaro para partilhar do serão e da refeição da família; só aos sábados e domingos isso poderia acontecer porque durante a semana todos vivam apartados em seus afazeres. Álvaro deu um jeito de chamá-la para a conversa e contou-lhe que encontrara Peri brincando com uma onça.

A moça soltou um grito e achou que o amigo deveria estar morto àquela hora, confessando ter sido o motivo da tamanha loucura porque dissera a Peri que queria ver uma onça viva.

D. Álvaro elogiou o selvagem, D. Lauriana disse que se estava morto não perderia grande coisa e , afastados os velhos, Álvaro sentiu o coração saltar-lhe do peito. Entregou a Ceci sua encomenda. Duas pistolas, rendas, sedas e adereços femininos; Ceci foi deitar-se , mas antes viu o vulto de Peri que retornava à casa. Ficou tranqüila.

Depois , pensou em Álvaro e na recusa do presente que lhe trouxera, o que tinha causado mágoa ao rapaz.

Capítulo VIII- Três Linhas

Tudo estava sossegado, longe da casa os aventureiros se reuniram para comer, conversar e beber no edifício em que habitavam. Entre eles, três homens de diferentes origens e caráteres, tinham a mesma idéia e "seus espíritos quebravam essa barreira moral e física, e se reuniam num só pensamento, convergindo para um mesmo ponto como os raios de um círculo.

Sigamos, pois, cada uma das linhas traçadas por essas existências, que mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vértice."

Os homens conversam e gracejam e acreditam que Loredano esteja apaixonado, pois está quieto; fazem gracejos. Aires Gomes, o escudeiro de D. Antônio, apareceu à porta do saguão e veio pedir que fizessem silêncio, além de observar que os homens deveriam estar em boa guarda porque poderiam ser atacados por índios.

Loredano levantou-se e, seguido de Rui Soeiro e Bento Simões, caminhou até o meio do terreiro. Então, o italiano murmurou-lhes: Amanhã!

Após afastar-se, Loredano viu reluzir uma luz no quarto de Cecília e pára, olhando. Álvaro está triste porque Cecília não aceitou seu presente e Peri , equilibrando-se sobre o precipício, teima em ver pelo menos a sombra da sua senhora, a quem não vê há dois dias. São três corações diferentes, movidos por diferentes sentimentos; três que convergem para um mesmo ponto.

Capítulo IX Amor

"As cortinas da janela cerraram-se; Cecília tinha-se deitado.

Junto da inocente menina adormecida na isenção de sua alma pura e virgem, velavam três sentimentos profundos, palpitavam três corações bem diferentes.

Em Loredano, o aventureiro de baixa extração, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue: o instinto brutal dessa natureza vigorosa era ainda aumentado pela impossibilidade moral que a sua condição criava, pela barreira que se elevava entre ele, pobre colono, e a filha de D. Antônio de Mariz, rico fidalgo de solar e brasão. (...)

Em Álvaro, cavalheiro delicado e cortês, o sentimento era uma afeição nobre e pura, cheia de graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do entusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquele tempo de crença e lealdade.(...)

Em Peri, o sentimento era um culto, espécie de idolatria fanática, na qual não entrava um só pensamento de egoísmo: amava Cecília não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ela, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse imediatamente uma realidade.

Ao contrário dos outros ele não estava ali, nem por um ciúme inquieto, nem por uma esperança risonha: arrostava a morte unicamente para ver se Cecília estava contente, feliz, alegre: se não desejava alguma coisa que ele adivinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante."

Se Loredano desejava; Álvaro amava; Peri adorava nos informa o narrador.

Os dois homens ficam observando o quarto de Cecília, com corações inquietos. Peri , no entanto, os observa, pronto para defender sua senhora. E percebeu a paixão que habitava o peito de ambos.

Cecília não poderia ser molestada por nenhum deles porque seu quarto tinha a janela virada para o precipício, rocha cortada com um abismo ao fundo, cheio de répteis. Peri retirou-se sossegado para a cabana. Enquanto isso, Isabel velava pensativa, lembrando o que acontecera à tarde, quase adivinhando as palavras dele ditas a Cecília.

Aperta entre os dedos uma medalha que traz dependurada no pescoço, cujo tampo de cristal guardava uma mecha de cabelos. Além dos cabelos havia outra coisa:

" Era o pó sutil do curare, o veneno terrível dos selvagens.
Isabel colou os lábios no cristal com uma espécie de delírio.
- Minha mãe! ... minha mãe! ...
Um soluço rompeu-lhe o seio."

Capítulo X Ao Alvorecer

Quando amanhece o dia, Cecília abre a portinha do jardim e chama Peri. O índio apareceu à entrada da cabana, alegre, mas tímido e submisso.

Cecília mostra-se contrariada com ele pois fora caçar uma onça viva para atender um desejo dela. Adverte-o de que poderia ter morrido e deixado sua senhora sozinha.

O selvagem diz que se acaso Cecília desejasse uma nuvem no céu, ele iria de imediato buscá-la.

"- Isso não é razão, continuou ela; porventura um animal feroz é a mesma coisa que um pássaro, e apanha-se como uma flor?
- Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
- Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciência, se eu te pedisse aquela nuvem? ...
- E apontou para os brancos vapores que passavam ainda envolvidos nas sombras pálidas da noite.
- Peri ia buscar."
- A nuvem? perguntou a moça admirada.
- Sim, a nuvem.

Cecília pensou que o índio tinha perdido a cebaça; ele continuou:

- Somente como a nuvem não é da terra e o homem não pode tocá-la, Peri morria e ia pedir ao Senhor do céu a nuvem para dar a Ceci.

Estas palavras foram ditas com a simplicidade com que fala o coração."

Cecília dá a ele o par de pistolas que Álvaro havia trazido e o índio fica feliz. Isabel chega; ela e o índio se odeiam. Peri as acompanha ao banho e vigia de longe a fim de que nenhum aventureiro venha perturbá-las.

Quando cruzaram a esplanada. Álvaro e Cecília se viram. secretamente o rapaz queria adivinhar naquele rosto um pouco de afeto: não viu. Álvaro cruza com Loredano e ambos se cumprimentam rispidamente. Foi nesse momento que Peri, enfiando a pistola na cinta, passou entre eles com a cabeça erguida, disposto a defender a todo custo a honra da sua senhora.

Capítulo XI No Banho

No caminho do banho, Cecília pergunta à prima porque não falava com Álvaro; Isabel estremece e dá resposta evasiva. Cecília diz que não torna a falar com ela se não disser o motivo vai pensar que é por outra coisa. Isabel empalidece e diz que sua presença aborrece o cavalheiro. Consegue esconder da prima o amor que sente por ele, apesar de trazer a mão no peito e o coração aos saltos.

"O sol vinha nascendo.

O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céu anilado, e ia beijar as brancas nuvenzinhas que corriam ao seu encontro.

Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e surpreendia as sombras indolentes que dormiam sob a copa das árvores.

Era hora em que o cacto, a flor da noite, fechava o seu cálice cheio das gotas de orvalho com que destila o seu perfume, temendo que o sol crestasse a alvura diáfana de suas pétalas."

Observe aqui como o romantismo alencariano é nativista, descrevendo a natureza como algo paradisíaco, divino.

Peri se lembra da onça que deixara presa e desaparece numa moita, pensa em matá-la para não desgostar mais ainda sua senhora. Cecília vai trocar-se para o banho:

"A inocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir espiar os tesouros de beleza que ocultava a cambraia de suas roupagens.

Assim, depois desse exame escrupuloso, e ainda corando de si mesma, que começou o seu vestuário de banho. Mas quando o corpinho da anágua caindo, descobriu suas alvas espáduas e seu colo puro e suave, a menina quase morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as folhas, um gárrulo travesso e malicioso, gritara, distintamente: - bem-te-vi!"

Enquanto Isabel ficava sentada na beira do rio, Ceci dava braçadas vigorosas, com prazer. Incansável, sobre uma árvore, Peri de tudo tomava conta e viu, entre o arvoredo, dois selvagens que observavam o banho de sua senhora.

Temendo por sua senhora e vendo que os selvagens apontavam-lhe a flecha, ele matou os dois com tiros de pistola, esmigalhando-lhes o cérebro. Ficara ferido no ombro por um dos selvagens. As moças se assustaram e Peri viu o vulto de uma índia que se pôs a correr no mato.

Mas o sangue que perdia, quase que o fez desmaiar; pensou em Cecília, tomou o óleo de uma copaíba e colocou-o sobre o machucado. sentiu-se renascer.

Capítulo XII A Onça

Enquanto Peri e as moças tinham ido ao banho, Loredano meteu-se pelo mato com Rui Soeiro e Bento Simões. O pátio ficara deserto e Álvaro andava pela esplanada.

Mal as janelas da casa tinham sido abertas para receber a luz do sol, puvem-se os gritos de D. Lauriana que aparece à janela toda despenteada, chamando por Aires Gomes, o escudeiro de D. Antônio. De espada em riste, o homem procura o animal, mas não o encontra e só então fica sabendo tratar-se de medo de D. Lauriana porque Peri tinha trazido, dia antes, a onça com a qual teria imaginado agradar sua senhora.

D. Lauriana encarrega o escudeiro de achar a onça trazida pelo índio e matá-la sem dó:
"- O que é feito da fera. Sra. D. Lauriana?
- Algures deve estar. Procurai-a, Aires; corram tudo, matem-na , e tragam-me aqui."
Aires Gomes tomou por companhia vinte aventureiros e saíram atrás do animal.

"Depois de percorrerem quase todo o vale e baterem o arvoredo, voltavam, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:

- Ei-la, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!

Com efeito, por entre a ramagem das árvores via-se a pele negra e marchetada do tigre e os olhos felinos que brilhavam com seu reflexo pálido.

Os aventureiros levaram o mosquete à face, mas no momento de puxarem o gatilho, largaram todos uma risada homérica, e abaixaram as armas.

- Que é lá isso? Tem medo?

E o destemido escudeiro sem se importar com os outros, mergulhou por sob as árvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.

Aí porém caiu-lhe o queixo de pasmo e de surpresa.

A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo laço que apertando-se com o seu próprio peso, a estrangulara.

Enquanto viva, um só homem bastara para trazê-la desde o Paraíba até a floresta, onde tinha sido caçada, e da floresta até àquele lugar onde havia expirado."

Peri havia matado o animal... Os homens levaram a onça até a casa e mostraram-na a D. Lauriana. Ela pediu que eles a deixassem ali, na porta, a fim de que D. Antônio visse o perigo que Peri representava; no entanto, o fidalgo era de todo grato ao índio que um dia salvara sua filha.

"Desta vez, porém, D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossível que seu marido não punisse severamente esse crime abominável de um homem que ia ao mato amarrar uma onça e trazê-la viva para casa. Que importava que ele tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existência de toda a família, e sobretudo a dela?"

D. Lauriana obriga Aires Gomes a mentir, dizendo que matou a onça e quando chega D. Antônio de Mariz, ela conta que o índio representava perigo, que não fosse o escudeiro, todos já poderiam estar mortos. Acrescenta, ainda, que o bugre trará jacaré, cascavel ou jibóia, cobras e lacraus...

"- Exagerais muito também, D. Lauriana. É certo que Peri fez uma selvajeria; mas não há razão para que receemos tanto. Merece uma reprimenda: lha darei e forte. Não continuará.

- Se o conhecêsseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis ralhar-lhe quanto quiserdes; ele o fará mesmo por pirraça!

- Prevenções vossas, que não compartilho.

A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.

- Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéia de que uma jararaca sobe-me à cama; de dia a todo momento julgarei que algum gato montês vai saltar-me pela janela; que a minha roupa está cheia de lagartas de fofo! Não há forças que resistam a semelhante martírio!"

E, vendo sua mulher exasperada, D. Antônio imagina que poderá convencê-la de que nada disso aconteceria. D. Lauriana imaginava ter convencido o marido de que Peri era perigoso.

Capítulo XIII Revelação

Isabel e Cecília voltam do banho e se assustam com a presença do animal morto, na entrada da casa. O pai é brando. Observe como Alencar descreve a graça de Cecília:

"Com efeito, Cecília estava nesse momento de uma formosura que fascinava.

Tinha os cabelos ainda úmidos, dos quais se escapava de vez em quando um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão; a pele fresca como se ondas de leite corressem pelos seus ombros; as faces brilhantes como dois cardos rosas que se abrem ao pôr do sol."

O pai mostra-lhe a onça, a mãe está irritada. É quando Isabel conta que nãoe ra apenas esse o erro de Peri, mas um outro tinha acontecido há pouco.

Referia-se ao incidente da beira do rio; D. Lauriana, que despreza Isabel, acaba por ouvi-la e toma-a como aliada.

O pai resolve mandar Peri embora, não sem antes agradecer pelo que ele fizera à família.

Pouco depois, Cecília encontra Álvaro que passava pelo jardim e lhe oferece uma flor de jasmim; é nesse instante que entra Isabel. Cecília se sente constrangida e assustada com a chegada da prima, deixa cair o botão de flor e foge. A prima foge também para o quarto e Cecília acaba por descobrir que ela amava Álvaro, já não há como negar.

Capítulo XIV A índia

Mal recuperara a sua força, por causa do ferimento, Peri entrara na floresta, tentando saber de onde vieram os índios que ele tinha visto. Pusera-se a buscar os caminhos, seguindo o rastro da índia que vira fugir na beira do rio.

Havia um motivo para isso: é que dias antes, enquanto estava na floresta, seguira D. Diogo e vira quando ele matara a índia, fato que tanto irritara D. Antônio. Estava claro que os índios que quase mataram Ceci e Isabel tentavam vingar-se da irmã morta.

Os índios eram aimorés, gente feroz e vingativa. Peri resolve avisar D. Antônio para que ele esteja preparado porque os índios foram embora e devem voltar com reforços a fim de assaltar a casa do fidalgo.

Peri está preocupado.

Capítulo XV Os Três

"Loredano, que nessa mesma manhã saíra de casa tão cedo, apenas se embrenhou na mata, esperou.

um quarto de hora depois vieram ter com ele Bento Simões e Rui Soeiro.

Os três seguiram juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava adiante, e os dois aventureiros o acompanhavam trocando de vez em quando um olhar significativo."

Caminham muito tempo pela mata , o que inquieta os acompanhantes que querem saber o porquê estavam se embrenhando cada vez mais. Os homens reclama e Loredano diz que o destino dos dois está selado, se voltarem, denuncia os dois.

Loredano revela que deixara um testamento em mãos de D. Antônio, que só deve abri-lo quando o julgar morto e que lá denuncia que os três haviam feito planos de conspiração para matar a todos da casa de D. Antônio. Os homens ficam lívidos e mais ainda o ficam quando o aventureiro diz a eles que se pensam em matá-lo e voltar, que o testamento os denunciaria e que D. Antônio mandaria executá-los por traição.

Os homens descobrem, ainda, que no testamento existe a idéia de que Loredano ficaria com Ceci e daria a sobrinha aos homens, para que se divertissem com ela.

E os adverte:

"- De hoje em diante , obediência cega e passiva!"

Chegam a uma gruta onde Loredano fará uma revelação: ali há um tesouro enterrado, o tesouro de Robério Dias , uma lenda no lugar. Robério iria oferecê-lo ao rei de Espanha, que na volta ao Brasil o faria nobre, mas ficara ali escondido:

"- Aqui tendes, disse ele lentamente, o tesouro de Robério Dias: pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdá, e mais poderosos que o doge de Veneza."

Observação: Robério Dias ofereceu a Felipe II o segredo de uma grande mina de prata, descoberta por ele nos sertões de Jacobina, província da Bahia; pedia em troca o título de marquês das Minas, que não lhe foi dado. Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobriram. Robério morreu pobre e desgraçado, recusando-se a revelar o segredo das minas. ( Nota de Alencar, apud B. da Silva Lisboa)

Quando Loredano quebra o vaso que mostrara aos aventureiros e de lá não jorra prata , ouro ou diamantes, mas apenas um mapa, um rolo de pergaminho atado em cruz por um fio pardo..

Loredano promete-lhes títulos, honras, mas diz que se qualquer um atravessar a soleira do quarto de Ceci será um homem morto:

"Essa é a minha parte na presa! É a parte do leão.

Nesse momento ouviu-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.

Os aventureiros não fizeram reparo, e atribuíram naturalmente ao vento.

- Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquês de Paquequer; tu, Rui Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano, com um sorriso que iluminou sua fisionomia inteligente. Eu serei...

Uma palavra partiu do seio da terra, surda e cavernosa, como se uma voz sepulcral a houvesse pronunciado:

- Traidores!"

Os três se levantaram com medo, brancos de susto.

Mas nada descobriram ao redor.

Observação do narrador: É possível que a esta altura de sua leitura, alguns fatos não estejam muito claros. Na 2a. parte, você ligará acontecimentos entre si, preenchendo os vazios que existem.

Fim da Primeira Parte


Segunda Parte


Capítulo I O Carmelita

"Corria o mês de março de 1603.

Era portanto um ano antes do dia em que se abriu esta história. Havia à beira do caminho que então servia às expedições entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um vasto pouso onde habitavam alguns colonos e índios catequizados.
Estava quase a anoitecer."
Havia ali três homens que olhavam uma tempestade. Entre eles o frei Ângelo di Luca, que era missionário naquele lugar e praticava a catequese ali, juntos aos selvagens; os outros dois homens chamavam-se Fernão Aires e Nunes. De repente, Fernão Aires recebeu a descarga elétrica de um raio que o jogou esmagado ao fundo do alpendre.

O frei Ângelo e Nunes ficaram perplexos, mas em meio a uma golfada de sangue, Fernão Aires exclamou, lembrando-se que zombara da tempestade:
"- Castigo do Céu!"
Pediu para que Frei Luca o ouvisse em confissão, posto não haver mais nada que se pudesse fazer. Fernão Aires conta , então, que roubara o mapa das minas de um parente de Robério Dias e que agora, sabendo que a mulher desse homem passa fome na Bahia, quer que o frei entregue o mapa que se encontra dentro da cruz de pau tosco, perto de sua cama.

"Frei Ângelo ergueu-se circulando o aposento com a vista alucinada; na cabeceira da cama havia um Cristo de ferro sobre uma grande cruz de pau tosca e mal lavrada.
Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão, entre os estilhaços de madeira apareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que estivera.

Quebrou com os dentes o selo do papel; chegando à janela leu à claridade vacilante do relâmpago as primeiras palavras de um rótulo de letras vermelhas, que rezava nestes termos:

"Roteiro verídico e exato em que se trata da rota que fez Robério Dias, o pai, em ano da graça de 1587 às paragens de Jacobina, onde descobriu com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que existam no mundo; com a suma de todas as indicações de marcos, balizas e linha equacional onde demoram aquelas ditas minas; começado em 20 de janeiro, dia do mártir S. Sebastião, e terminando na primeira dominga de Páscoa em que chegamos com a mercê da Providência nesta cidade do Salvador."

Embora o homem esperasse, agonizando, a extrema unção, o frei sentara-se num banco, entregue a funda meditação.
Não pensava, delirava, deixava vir à cabeça o mar cheio de vagas da prataria, flores de diamantes...

Tira o hábito, repisa-o, veste uma roupa, pega as armas do morto e vai sair; mas Nunes vem chegando e o frei, coberto por um capelo, diz a ele que entregue ao seu superior um bilhete, que vai sair para reparar um crime praticado pelo morto e que talvez nem volte, tais os perigos que correrá.

É assim que nos é explicado o aparecimento do italiano Loredano. Ele é, na realidade, Frei Ângelo Di Luca, que a partir do momento em que recebe a confissão se transforma. Acompanhado de um índio de uma das famílias que catequizara, ele se mete pelo sertão, em busca do lugar onde estaria situada a tal mina de prata de Robério Dias:

"Este aventureiro chamou-se Loredano.
Deixava naquele lugar e sepultado no seio da terra um terrível segredo: isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadáver.

Cinco meses passados, o vigário da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Frei Ângelo de Luca morrera como santo e mártir no zelo de sua fé apostólica."

Capítulo II Iara!

"Dois dias depois da cena do pouso, por uma bela tarde de verão, a família de D. Antônio de Mariz estava reunida na margem do Paquequer.
O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dois outeiros pedregosos que se elevavam naquelas paragens."
Estavam todos felizes, Ceci corria atrás de um beija-flor, quando uma palavra, em língua estranha vibrou no ar:
- Iara!
Vocábulo guarani que significa "senhora".

É assim que todos conhecem Peri. Ele segurava uma pedra com os ombros de encontro à rocha, tal pedra, se se desprendesse, mataria a bela Ceci, que sem se aperceber de nada, mal sabia o perigo que corria naquele instante. Após perceber o perigo e retirar a filha do caminho da pedra, D. Antônio de Mariz deitou a filha quase desmaiada no colo da mãe e pôde ver que o índio, mal aguentando mais suster a enorme pedra, deixou-a cair e ela vai cravar-se ao chão.

Peri tinha salvado Ceci.
O índio apresenta-se: é da tribo dos goitacás, filho de Ararê; D. Antônio oferece-lhe a amizade, Peri diz que já era seu amigo. D. Antônio pergunta por que e Peri começa a narrar:

"Era o tempo das árvores de ouro.
A terra cobriu o corpo de Ararê, e as suas armas: menos o seu arco de guerra.
Peri chamou os guerreiros de sua nação e disse:
Pai morreu, aquele que for mais forte entre todos terá o arco de Ararê. Guerra!
Assim falou Peri e os guerreiros responderam: guerra!
Enquanto o sol alumiou a terra, caminhamos; quando a lua subiu ao céu, chegamos. Combatemos com os Goitacás. Toda a noite foi uma guerra. Houve sangue, houve fogo.

Quando Peri abaixou o arco de Ararê, não havia na taba dos brancos uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.
Veio o dia e alumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.
Peri tinha vencido; era o primeiro de sua tribo, e o mais forte de todos os guerreiros.
Sua mãe chegou e disse:
-Peri, chefe dos goitacás, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãe te ama.
Os guerreiros chegaram e disseram:
- Peri, chefe dos goitacás, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribo e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.

As mulheres chegaram e disseram:
- Peri, primeiro de todos, tu és belo como o sol, e flexível como a cana selvagem que te deu o nome; as mulheres são tuas escravas.
Peri ouviu e não respondeu; nem a voz de sua mãe, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres o fez sorrir.
Na casa da cruz, no meio do fogo, Peri tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bela como a garça do rio.
Tinha a cor do céu nos olhos; a cor do sol nos cabelos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrelas e uma pluma de luz.
O fogo passou; a casa da cruz caiu.
De noite Peri teve um sonho; a senhora apareceu, estava triste e falou assim:
- Peri, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrela grande acompanha o dia."

E termina a sua narração dizendo que salvara a senhora do perigo da pedra. Ou seja: Peri confunde a "senhora da casa da cruz", a igreja, portanto Nossa Senhora, com a imagem de Ceci, que também é loura e de olhos azuis.

Além disso, durante a narração , Peri conta que D. Antônio salvara sua mãe das garras dos aventureiros inescrupulosos e que Ceci cuidara bem dela.

Eles brindam com vinho e D. Antônio o convida para a ceia. Ficam amigos. Ele bebe o vinho sem desgosto; beberia veneno à saúde do pai de Cecília.

Capítulo III Gênio do mal

Peri volta várias vezes à casa de D. Antônio e sempre é recebido como amigo. Causa certo receio , a princípio, a Cecília, a quem amedrontara a mãe durante a infância, contando casos de selvagens.

Em Isabel, a presença do índio relembrava sua origem: "lembrara-se de sua mãe sempre infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdém com que era geralmente tratada.

Quanto a D. Lauriana, via em Peri um cão fiel que tinha um momento prestado à família, e a quem se pagava com um naco de pão. Devemos porém dizer que não era por mau coração que ela pensava assim, mas prejuízos de educação."

Quinze dias depois que D. Antônio de Mariz dera hospedagem, entre os aventureiros, a Loredano, através de Aires Gomes, escudeiro de D. Antônio, pedira-lhe uma audiência. Nela, disse que gostaria de ali permanecer agregado, sob as ordens e a custódia de D. Antônio. Ficara. Mas, antes, teve que ouvir do escudeiro quais as condições: obedecer sem replicar, contentar-se com o que havia disponível por ali.

Tudo ia bem, mas Loredano viu Cecília:

"A imagem dessa bela menina, casta e inocente, produziu naquela organização ardente e por muito tempo comprimida o mesmo efeito da faísca sobre a pólvora.

Toda a continência de sua vida monástica, todos os desejos violentos que o hábito tinha selado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigílias e abstinências, refluíram ao coração e o sufocaram um momento.

Depois um êxtase de voluptuosidade imensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime."

Nessa ocasião, Loredano já traçara os planos para obter o tesouro, que relocaliza e, pelo que nos diz o narrador, está naquelas terras. Durante um ano, trabalhara na empreitada de ter homens de confiança, Bento e Rui, ir para o Rio de Janeiro carregando seus tesouros ali recolhidos, o tesouro de Robério e depois à Europa vender a qualquer rei a localização das minas, tornar-se nobre, ter Cecília para si.

Era mentira que no testamento deixado com D. Antônio de Mariz contasse toda a verdade. Nele, apenas apontava desconfianças sobre tais aventureiros, julgando-os capaz de atos torpes e vis.

Capítulo IV Ceci

"Poucas horas depois que Loredano fora admitido na casa de D. Antônio de Mariz, Cecília, chegando à janela do seu quarto viu do lado oposto do rochedo Peri, que a olhava com uma admiração ardente.

O pobre índio, tímido e esquivo, não se animava a chegar-se à casa, senão quando via de longe a D. Antônio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquela habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por ele alguma estima."

Há dias o índio não aparecia e Ceci, vencendo a timidez, tomada pela gratidão da vida que lhe devia, fez sinal para que se aproximasse.

"- Vinde ver Peri, que chega meu pai.

- Ah! Inda bem, respondeu o fidalgo.

E acompanhando sua filha, D. Antônio foi ao encontro do índio que já subia a esplanada.

Peri trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinária delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavam os fios, ouviam-se chilidos fracos e um rumor ligeiro que faziam os pequenos habitantes desse ninho gracioso.

O índio ajoelhou aos pés de Cecília; sem animar-se a levantar os olhos para ela, apresentou-lhe o cabaz de palha; abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorriu; um enxame de beija-flores esvoaçava dentro; alguns conseguiram escapar-se."

Peri vinha despedir-se, estava voltando para sua tribo.

Tomada de gratidão, Cecília pede que ele fique porque se ele não estivesse ali, quem poderia salvá-la.

O índio consente em ficar para tomar conta e zelar pela vida de sua senhora; era de ora em diante seu escravo.

Parte da tribo de Peri ainda se encontrava nas redondezas, depois de uma luta. A mãe pede ao filho para que partam, mas Peri diz a ela que vai ficar com D. Antônio.

Constrói ali uma cabana e ali permanece.

Os seus partiram, mas ele, escravizado pela imagem de Ceci, imaginando-a Nossa Senhora, permanece.

"Cecília que um momento conseguira vencer a repugnância que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenara que ficasse, não se lembrou da ingratidão que cometia e não disfarçou mais a sua antipatia.

Quando o índio chegava-se a ela, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava-lhe que se retirasse; Peri que já falava e entendia o português, afastava-se triste e humilde.

Entretanto a sua dedicação não se desmentia; ele acompanhava a D. Antônio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiência, guiava-o aos lugares onde havia terrenos auríferos ou pedras preciosas."

Peri, um dia, conta a Ceci que ela tem o nome do que faz com ele.

A menina pergunta ao pai o que significa "ceci"em tupi e fica sabendo que significa "magoar". Fica triste com o que está fazendo na alma do selvagem e passa a tentar compreendê-lo, querê-lo bem.

Capítulo V Vilania

"É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns fatos anteriores.

Voltemos, pois, ao lugar em que se achavam Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soara no meio deles.

Os dois cúmplices, supersticiosos, como eram as pessoas de baixa classe naquele tempo, atribuía, o fato a uma causa sobrenatural, e viam nele um aviso do céu. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.

Quem ele era? Seria D. Antônio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espírito perdia-se num caos de dúvidas e incertezas."

Assim que saíram do local onde estava escondido o manuscrito, viram Álvaro que observava a cena entre as duas primas, a cena da revelação, sem entender o que se passava entre elas, dada a distância em que se encontravam. Loredano julga ser de Álvaro a voz do homem e o aponta como culpado aos companheiros. Põe-se a segui-lo, mas Álvaro se arma e se encosta a um tronco de árvore, esperando. Loredano imagina seu segredo ameaçado.

Ambos lutam, e vão duelar num rochedo à beira do rio; Álvaro segue na frente, Loredano arma o clavinote e dispara-lhe à traição um tiro.

Capítulo VI Nobreza

"Álvaro ouviu um sibilo agudo.

A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéu de feltro cortou a ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o ombro.

O moço voltou-se calmo, sereno, impassível; nem um músculo de seu rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o lábio superior, sombreado pelo bigode negro."

Peri, que seguira os dois, desconfiado, agarra Loredano pela nuca e obriga-o a ajoelhar-se, pronto para matar quem ousara desafiar Álvaro à traição. No entanto, o cavalheiro pede a Peri que o solte:

"- Solta este miserável, Peri!
- Não!
- A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre ele.
Álvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras armava a clavina, e apoiava a boca na fronte do italiano.
- Ides morrer. Fazei a vossa oração.

Peri abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.

O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasfêmia horrível e satânica; as palpitações violentas do coração batiam de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravam-lhe o seu tesouro que ia talvez cair nas mãos de Álvaro e dar-lhe a riqueza de que não pudera gozar.

Entretanto, na baixeza dessa alma ainda havia alguma altivez, o orgulho do crime; não suplicou, não disse uma palavra; sentindo o contato frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.

- Tu és indigno de morrer à mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito à justiça de Deus."

Loredano está aliviado, mas Álvaro faz com que ele prometa que no dia seguinte deixaria a casa de D. Antônio. O italiano jurou.

Peri pensa sobre o que ouvira de pouco, a conversa entre os comparsas. Sua primeira idéia foi lançar-se sobre os três comparsas e matá-los:

"- Foi por isso que soltou aquela palavra que revelava a sua indignação; mas imediatamente lembrou-se de que ele podia morrer, e que nesse caso Cecília não teria quem a defendesse. pela primeira vez na vida teve medo; teve medo por sua senhora, e sentiu não possuir mil vidas para sacrificá-las todas à sua salvação."

Imaginou que se avisasse D. Antônio sobre presumível ataque dos aimorés, este vigiaria melhor a casa, evitando danos que Loredano e seus homens pudessem fazer; estaria atento. Mas viu Álvaro e Loredano discutirem, seguiu-os e, por fim, investiu contra o aventureiro que queria acabar com a vida do fidalgo.

Peri tinha planejado matar os traidores, entregar-se a D. Antônio e narrar-lhe todo o plano dos traidores; a bondade de Álvaro, no entanto, a generosidade de Álvaro, poupando Loredano, tinha mudado tudo o que pensara fazer.

Abaixou a faca e guardou-a na cinta.

Quando Álvaro foi agradecê-lo pelo gesto de salvar-lhe a vida, veja o que acontece:

"- Obrigado ainda uma vez, Peri,; não pela vida que me salvastes, mas pela estima que me tens.

E o moço apertou a mão do selvagem.

- Não agradece; Peri nada te fez; quem te salvou foi a senhora.

Álvaro sorriu-se da franqueza do índio, e corou da alusão que havia em suas palavras.

- Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Peri quer ver a senhora contente.

- Tu te enganas; Cecília é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que sucedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a ver.

- Peri sabe por que fala assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flor da noite.

- Peri!... exclamou Álvaro.

- Não te zanga, disse o índio com doçura; Peri te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A cana quando está à beira d'água, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-ci. Tu és o rio; Peri é o vento que passa docemente, para não abafar o murmúrio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem a água.

Álvaro fitou no índio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendera a poesia simples, mas graciosa; onde bebera a delicadeza de sensibilidade que dificilmente se encontra num coração gasto pelo atrito da sociedade?"

Sem nenhum sentimento de hostilidade, Álvaro recebeu a confissão de Peri; apreciava a maneira como o selvagem tinha dedicação a Cecília, "e ia ao ponto de amar tudo quanto sua senhora estimava.

- Assim, disse Álvaro sorrindo, tu só me amas por que pensas que Cecília me quer? disse o moço.

- Peri só ama o que a senhora ama; porque só ama a senhora neste mundo: por ela deixou sua mãe, seus irmãos e a terra onde nasceu.

- Mas se Cecília não me quisesse como julgas?
- Peri fria o mesmo que o dia com a noite: passaria sem te ver.
- E se eu não amasse Cecília?
- Impossível!
- Quem sabe? disse o moço sorrindo.
- Se a senhora ficasse triste por ti! ... exclamou o índio, cuja pupila negra irradiou.
- Sim? o que farias?
- Peri te mataria.

(...)

- Tu és bom; Peri quer que a senhora te ame."
Peri pediu a Álvaro que, em caso de sua morte, chamasse a sua mãe e seus guerreiros para ajudarem a tomar conta de Cecília, combatendo contra o inimigo da casa.

 


Capítulo VII

Capítulo VII O precipício

Peri tinha parado para observar Cecília de longe quando Aires Gomes o segurou pelo braço. Ele recebera ordens de D. Lauriana para levar o índio à casa e apresentá-lo a D. Antônio de Mariz.

Peri fica bravo, diz que não admite ser levado e Aires Gomes e sai andando calmamente. O escudeiro faz tudo para detê-lo, mas Peri o amarra com um cipó a uma árvore e vai incumbir-se de Cecília que, pensativa, olhava pela janela do quarto, pensando sobre a descoberta que fizera: Isabel amava Álvaro e não desejava magoá-la:

"- Pobre Isabel! murmurou ela; como deve ter sofrido!

Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lágrimas que saltaram de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios mimosos a chamaram ao seu próprio sofrimento.

Ela, a menina alegre e feiticeira que só aprendera a sorrir, ela, o anjinho do prazer que bafejava tudo quanto a rodeava, achou um gozo inefável em chorar. Quando enxugou as lágrimas, sofria menos, sentiu-se aliviada; pôde então refletir sobre o que havia passado. (...)

Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração e conheceu que não amava assim; nunca a afeição que tinha a Álvaro podia obrigá-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã."
Sabia que de agora em diante teria que quebrar um dos "fios de ouro" que fazia seus dias felizes, Álvaro era o amor de sua prima, não poderia, portanto, ser o seu.
"Estes pensamentos adejavam ainda na mente de Cecília enquanto ela olhava pensativa o fosso, onde tinha caído o objeto que viera modificar a sua existência.
- Se eu pudesse obter essa prenda? dizia consigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz."
A prenda era o bracelete que Álvaro depositara dera a Cecília.

Peri, vendo sua senhora triste, olhando o precipício, adivinhou-lhe os pensamentos e, enfrentando os animais peçonhentos que ali habitavam, desceu ao fosso em busca do mimo que Cecília desejava oferecer a Isabel.

Capítulo VIII O Bracelete

Observe como o narrador tenta realçar os traços do destemor do herói, fazê-lo bom, correto, capaz dos maiores esforços pelo amor que tem a Ceci:
"O que Cecília viu, debruçando-se à janela, gelou-a de espanto e horror.
De todos os lados surgiam répteis enormes que, fugindo pelos alcantis, lançavam-se na floresta; as víboras escapavam das fendas dos rochedos, e aranhas venenosas suspendiam-se aos ramos das árvores pelos fios da teia.
No meio do concerto horrível que formava o sibilar das cobras e o estrídulo dos grilos, ouvia-se o canto monótono e tristonho da cauã no fundo do abismo.

(...)

O índio tinha desaparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.
Cecília, pálida e trêmula julgava impossível que Peri não estivesse morto e já quase devorado por esses monstros de mil formas; chorava o seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para salvá-lo.

(...)

Em um desses momentos um dos insetos que pupulavam no meio da folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu ombro; era uma esperança, um desses lindos coleópteros verdes que a poesia popular chama de lavandeira-de-deus.
A alma nos momentos supremos de aflição suspende-se ao fio mais tênue da esperança; Cecília sorriu-se entre as lágrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.
Precisava esperar; esperou."
Chama por Peri, recebe como resposta um pedido de espera e aterroriza-se quando ouve, do fundo do abismo, um grito agudo.
Desmaia e quando acorda Peri estava junto dela e lhe apresentava sorrindo uma bolsinha de malha, onde havia uma caixinha de veludo escarlate.
Ela confessa que teve medo por ele. E Peri diz que apenas sente uma coisa: não ter nada de valor para dar a ela.
Ceci teve pena dele E pede apenas que ele busque para ela uma flor, com a qual ornará o cabelo.
Peri vai buscar para ela uma flor escarlate, com a qual Ceci enfeita os cabelos. ceci vai para o quarto da prima, escondendo no seio a caixinha de veludo.
Isabel estava sentada, triste e Ceci diz a ela que a considera como uma irmã, que não devem ter segredos uma para a outra.
"- Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.

(...)

- Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que deixes esse rostinho melancólico, e me abraces como tua irmã. Não o mereço?
- Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrifício é perdido; eu não posso ser feliz, Cecília.
- Por quê?
- Porque ele te ama! murmurou Isabel.
A menina corou.
- Não digas isto, é falso.
- É bem verdade.
- Ele te disse?
- Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma."

Cecília diz que não importa o que Álvaro sinta a respeito dela e dando-lhe a caixinha de veludo, abrindo-a, atou o bracelete ao braço da prima e disse-lhe que o pai tinha dado a ela um igual, que havia pedido dois iguais a fim de oferecer um à prima, a fim de que parecessem irmãs.

Capítulo IX Testamento

No mesmo instante em que Ceci deixava o quarto de Isabel, D. Antônio de Mariz subia a esplanada ; tinha um ar de grande preocupação. Viu Álvaro e Diogo que conversavam junto à cerca e pediu-lhes que o acompanhassem até seu gabinete de armas, "pequena saleta que ficava ao lado do oratório, e que nada tinha de notável, a não ser a portinha de uma escada que descia para uma espécie de cava ou adega servindo de paiol.

Na ocasião em que se abriram os alicerces da casa, os obreiros descobriram um socavão profundo talhado na pedra; D. Antônio, como homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de não contar com os seus próprios recursos, mandou aproveitar esta abóbada natural, e fazer dela um depósito que pudesse conter algumas arrobas de pólvora.

O fidalgo achara ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era a tranqüilidade de sua família, cuja vida não estaria sujeita a um descuido qualquer doméstico ou aventureiro; porque no seu gabinete d'armas ninguém entrava, senão estando ele presente."

D. Antônio diz querer falar sobre um objeto de família, e que os chamara para que ouvissem "uma coisa que vos interessa e a mim antes do que a todos."

Diz que tem sessenta anos e que pode morrer a qualquer hora. Apesar de os moços tentarem convencê-lo do contrário, D. Antônio prossegue: tem que fazer seu testamento... Diz que transmite a Diogo o legado de honra que recebeu de seu pai, mas que precisa assegurar-se da felicidade de Cecília e que a Álvaro é que a confia. Aperta os moços de encontro ao peito. E acrescenta:

"- O que me resta dizer-vos é difícil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se fala a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigaram-me a dar-lhe em vida o título de sobrinha.

- Isabel? ... exclamou D. Diogo.

- Sim, Isabel é minha filha. Peço a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeeis de tanto afeto e carinho, que ela possa ser feliz, e perdoar-me a indiferença que lhe mostrei e a infelicidade voluntário que causei à sua mãe."

Os rapazes se comprometem a fazer a vontade do velho. Depois do acerto, D. Antônio manda buscar Peri, dizendo que deve mandá-lo de volta à tribo.

O índio entra, recebe a notícia, Cecília chora quando tem que mandá-lo voltar. Peri chora também, mas vai obedecer a ordem da única pessoa a quem mais ama no mundo, por quem deixara a tribo, os guerreiros, a mãe.

Capítulo X Despedida

"D. Antônio aproximou-se de Peri e apertou-lhe a mão:

- O que te devo, Peri, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas à tua tribo; apesar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favorável, e caíres em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; aceita-o em nome de tua senhora e no meu."

A Peri, só resta obedecer. Ceci lhe coloca ao pescoço uma cruz de ouro.

Peri diz, então, que gostaria de ficar porque os Aimorés invadiriam a fazenda Paquequer em três dias. D. Antônio se assusta e pergunta como ele sabe disso. Peri diz que seguira os índios.

D. Antônio tinha encontrado pela manhã os corpos dos dois selvagens que Peri matara para defender Ceci, era essa sua preocupação e agora, observando o corpo de Peri sob o manto diáfano, vê que ele está ferido.

Descobre também que defendera da morte, com seu próprio corpo, o corpo de sua senhora. D. Antônio pede que ele fique, Cecília está feliz, D. Lauriana o aceita de volta:

"O índio lançou um último olhar à sua senhora, e caminhou para a porta.
- Peri! exclamou Cecília, fica; tua senhora manda.
Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lágrimas, disse com um rom suplicante:
- Não é verdade? Ele não deve partir mais. Vós não podeis mandá-lo embora depois do que fez por mim?
- Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Ele ficará para sempre."
Quando chegou à casa e vendo aquela cena, Aires Gomes não pôde entender nada. Justamente quando tinha se dirigido a D. Antônio a fim de pedir licença para esquartejar aquele bugre...

Mais: D. Antônio fê-lo apertar a mão de Peri.

Capítulo XI Travessura

Na tarde desse mesmo dia, Cecília e a prima, ambas lindas e vestidas de branco, vão passear. Vendo D. Álvaro nas proximidades, junto ao pai, pede a ambos que as acompanhe ao passeio. O pai consente. Cecília tinha planos de aproximar a prima de Álvaro...

Álvaro ainda guardava a vaga impressão de que, durante o jantar, a menina o evitara, mas diante de sua alegria, agora, esquecia os ressentimentos todos.

Cecília dá um jeito de deixar Isabel e Álvaro sozinhos, pretextando conversar com o pai, contar-lhe um segredo.

"Cecília separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o braço.

- Tende paciência por um instante, Sr. Álvaro, disse ela voltando-se: conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinião sobre aquele lindo bracelete... Ainda não o vistes?

E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ela tinha era a travessura que acabava de praticar, deixando Álvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir seu efeito.

A emoção que sentiram os dois moços ouvindo o que dissera Cecília é impossível de descrever.

Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecília a enganara para obrigá-la a aceitar o presente de Álvaro; o olhar que sua prima lhe lançara afastando-se com o pai, lho tinha revelado.

Quanto a Álvaro, não compreendia coisa alguma, senão que Cecília tinha-lhe dado a maior prova de seu desprezo e indiferença; mas não podia adivinhar a razão por que associara Isabel a esse ato que devia ser um segredo entre ambos."

Álvaro e Isabel conversam; estão perplexos com a atitude de Cecília. Isabel confessa a Álvaro que o ama e o rapaz:
"Por fim vacilou: reclinando sobre o ombro de Álvaro, como uma flor desfalecida sobre a haste, murmurou:
- Porque... vos amo! "


Capítulo XII Pelo ar

"Álvaro ergueu-se como se os lábios da moça tivessem lançado nas suas veias uma gota do sutil veneno dos selvagens que matava com um átomo .

Pálido, atônito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração leal exagerava a afeição pura que votava a Cecília a tal ponto, que o amor de Isabel lhe parecia quase uma injúria; era ao menos uma profanação.

A moça com as lágrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento rápido de Álvaro tinha trocado as posições; agora era ela que estava ajoelhada aos pés do cavalheiro."

Álvaro pede que nunca mais falem sobre tais declarações e que o considere apenas um irmão:

"- Não cometestes um crime, nem precisais de um juiz; mas se quereis um irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.

- Um irmão! ... exclamou a moça. Seria ao menos uma afeição.

- E uma afeição calma e serena que vale bem outras, D. Isabel."

Lembrando-se do que lhe pedira D. Antônio e sabendo a triste origem daquela moça, foi tomado de súbita simpatia e pede a ele que não recuse como irmão. Isabel conta que sempre sofrera, que era filha de duas raças inimigas, e que sua mãe fez com que ela odiasse a uma "e o desdém com que me tratam fez-me desprezar a outra.

- Pobre moça! murmurou Álvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antônio de Mariz.
- Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãe deixara no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma coisa. Não se pode viver somente de ódio e desprezo! ...
- Tendes razão, Isabel.

- Inda bem que me aprovais. Precisava amar; precisava de uma afeição que me prendesse à vida. Não sei como, não sei quando, comecei a amar-vos; mas em silêncio, no fundo de minha alma.

A moça embebeu um olhar nos olhos de Álvaro.

- Isso me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que percebêsseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ela, ou adormecia sonhando bem lindos sonhos."

Álvaro enlaça a cintura da moça, quase que abraçando-a, mas se contém, com receio de ser mal interpretado. Isabel diz a ele que Cecília descobrira seu amor por Álvaro e que, como consolo, presenteou a prima com o bracelete, que tudo fora um engano.

O rapaz pede que Isabel o considere apenas um irmão, que nada mais poderia haver entre eles.

"Estava agora convencido que Cecília não o amava, e nunca o havia mado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antônio de Mariz lhe dava a mão de sua filha!

Sob o peso da mágoa dolorosa, como é sempre a primeira mágoa do coração, o cavalheiro afastou-se distraído, com a cabeça baixa; caminhou sem direção, seguindo a linha que lhe traçavam os grupos de árvores, destacados aqui e ali sobre a campina."

Álvaro andava assim, distraído, quando viu uma seta fincar-se no chão, perto dele; reconheceu nela as cores azul e branco de Peri. Outras setas foram aparecendo, em seguida, à sua frente, como se indicando um caminho que o moço seguiu.

Peri queria que Álvaro seguisse as flechas; assim que elas cessaram, Álvaro entrou no arvoredo a tempo de ver que três homens passavam pelo lugar que há pouco tinha deixado e que, de pistolas em punho, caminhavam cautelosamente.

Álvaro ia segui-los, mas Peri, surgido do mato, disse-lhe ao ouvido:

"- São eles.
- Eles quem?
- Os inimigos brancos.
- Não te entendo.
- Espera: Peri volta.
- E o índio desapareceu de novo nas sombras da noite que avançava rapidamente."

Capítulo XIII Trama

Depois que Peri e Álvaro passaram, Loredano sentiu raiva por ter deixado passar seus inimigos; pensou, por instantes, em chamar seus capangas para matá-los, mas desistiu.

Os companheiros achavam que a voz ouvida pertencesse a um espírito, não um homem:

"O italiano sorriu de escárnio.
- Os espíritos têm mais que fazer para se ocuparem com o que vai por este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido que devemos tomar.
- Lá quanto a isso, Loredano, é escusado; ninguém me tira que anda em tudo isto uma coisa sobrenatural.
- Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com impaciência."

Loredano fez o comparsa se calar e jurar que não acreditaria em fantasmas e , depois, ficaram os três pensativos. Loredano media a situação com audácia; era este homem tecido de contradições: sua alma, aprisionada desde cedo, conseguira libertar-se por força da ambição e, agora:

"Então, no delírio dos instintos materiais, surgiram duas paixões violentas.

Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do tesouro fabuloso que como Tântalo ele ia tocar e fugia-lhe.

A outra era paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquela menina inocente e cândida, que parecia não dever inspirar senão afeições castas.

A luta que naquele momento o agitava, dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu tesouro, perdendo Cecília?

devia ficar e arriscar a vida para saciar seu desejo infrene?"
Tudo passava pela cabeça de Loredano, que se dirigiu aos companheiros, dizendo:
"- Só há duas coisas a fazer, ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?"

Rui Simões sugeriu que fugissem, mas Rui Soeiro considerou que se o fizessem , sozinhos os três pelo sertão, evitando o povoado, jamais sobreviveriam. Resolveram voltar à casa, mas passaram o dia pelo mato, comendo frutos silvestres.

Ao se dirigirem para a casa, quando anoitecera, não se deram conta de que passavam por Peri: "Era Peri; havia um quarto de hora que ele acompanhava os aventureiros como a sua sombra; o índio deixando D. Antônio dera pela sua ausência e conjeturando que eles tramavam alguma coisa, lançou-se em sua procura."

Planejava matá-los, mas um deles caiu numa corrida que apostavam; o índio, então, encontrou Álvaro e os apontou como inimigos.

Intuiu que devia esperá-los quando chegassem perto, rente à cerca, para que os pudesse matar um a um, mas ouviu a voz de Cecília que vinha do passeio com o pai e a prima.

"A mão do índio, que nunca tremera no meio do combate, caiu inerte; escapou-lhe o arco, só com a idéia de que a seta que ia atirar pudesse assustar a menina, quanto mais ofendê-la."

Capítulo XIV A Xácara

Era a terceira vez que esses "inimigos da casa" escapavam de sua mão, por uma espécie de fatalidade.

Tinha receio de enfrentar os inimigos frente a frente, de morrer e deixar que eles executassem o plano que só ele, Peri, conhecia.

Foi conversar com Álvaro que já o esperava:
"- Dizei-me, Peri, Falaste de inimigos?
- Sim, respondeu o índio.
- Quero conhecê-los.
- Para quê?
- Para atacá-los.
- Mas são três.
- Melhor."

O índio pondera que quer combater apenas os inimigos de sua senhora e que, se morrer, Álvaro já sabe o que fazer: terá de protegê-la. Álvaro fica sabendo que se trata de uma revolta e se espanta. Peri suplica que ele cuide da senhora, Álvaro diz que daria a ela sua vida também.

Álvaro sugere que Peri conte os problemas a D. Antônio; Peri diz que Álvaro e D. Antônio devem lutar com homens que os ataquem pela frente, mas que aqueles os atacariam por trás.

Peri vê Ceci na janela do quarto dela, e conversam.

Ela diz que quer ensiná-lo a ler, a respeitar Deus para que seja um cavalheiro como o pai e o irmão, que depois bordaria para ele um manto como o que os brancos usavam. Peri diz que é livre, Ceci bate a porta do quarto. Peri ouve uma viola espanhola e uma voz que , suavemente, canta uma xácara. Xácara é um poema narrativo, de origem árabe:

"Foi um dia- Infanção mouro
deixou
Alcáçar de prata e ouro,
montado no seu corcel.
Partiu
Sem pajem, sem anadel,
do castelo à barbacã
chegou;
Viu uma formosa castelã.
Aos pés daquela a quem ama
jurou
ser fiel à sua dama.
A gentil dona e senhora
sorriu;
Ai! que isenta ela não fora!
"Tu és mouro; eu sou cristã.""


Terceira Parte


Os Aimorés

Capítulo I Partida

D. Antônio passou a noite em claro, escrevendo e fazendo planos. Quando amanheceu, chamou o filho Diogo e disse-lhe que Peri havia lhe alertado sobre a invasão dos Aimorés, que Diogo deveria partir imediatamente para o Rio de Janeiro.

Ainda não compreendendo o que o pai lhe pedia, Diogo de Mariz não quer partir, mas depois o pai lhe explica que quer que ele vá ao Rio para pedir ajuda dos fidalgos, enquanto que ele resistiria em companhia dos homens. D. Diogo aceita partir.

Enquanto isso, Loredano, Rio Soeiro e Bento Simões lideram o descontentamento dos aventureiros.

Aires Gomes vai escolher os homens para que acompanhem D. Diogo. Entre eles, está escolhido Loredano, o que poria a perder todo o plano dos três:

"Alguns minutos depois, D. Diogo com o coração cerrado e as lágrimas nos olhos, apertava nos braços sua mãe querida, Cecília que ele adorava, e Isabem que já amava também como irmã.

Depois, desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente para a escada e desceu ao vale; aí recebeu a bênção do pai e abraçando Álvaro saltou na sela do cavalo, que Aires Gomes tinha pela rédea.

A pequena cavalgata partiu; com pouco sumia-se na volta do caminho."

Capítulo II Preparativos

Ao mesmo tempo em que D. Antônio conversava com o filho no gabinete e o instruía sobre a viagem, Peri examinava suas armas, na cabana, carregava as pistolas, estava pronto para qualquer eventualidade.

Ainda não sabia bem como colocar fim aos planos dos traidores; sabia apenas que eles se reuniriam naquela manhã.

Encontrando Cecília no jardim, perguntou-lhe se estava triste com ele, ela disse que não, mas que gostaria que eles se convertesse ao cristianismo. Cecília fora criada no fervor religioso e agastava-a saber que Peri não tinha Deus cristão dentro de si. Mas o índio observa que não pode deixar a vida que leva justamente para servi-la.

"- Peri, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Peri, cristão, será o último dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te.

(...)

- Se Peri fosse cristão, e um homem te ofender, ele não poderia matá-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Peri selvagem não respeita ninguém; quem ofende sua senhora é seu inimigo e morre!"

O índio pede a ela que escreva um bilhete a Álvaro e nele coloca o nome dos três traidores: Loredano, Bento Simões e Rui Soeiro. Pede que ela entregue a carta à tarde, antes não.

Álvaro e Isabel se encontram um instante, por acaso, na esplanada. A menina esforça-se por lhe devolver o bracelete. Ele não aceita.

À tardinha, chegaram seis aventureiros que vieram oferecer ajuda a D. Antônio; entre eles estava mestre Nunes, o mesmo que um ano antes dera abrigo a Loredano, ainda Frei Angelo de Luca.

Capítulo III Verme e Flor

"Eram onze horas da noite.

O silêncio reinava na habitação e seus arredores; tudo estava tranqüilo e sereno. Algumas estrelas brilhavam no céu; os sopros escassos da viração, sussuravam na folhagem."

Mas um vulto subiu ligeiramente a escada e reuniu-se aos homens que faziam a guarda. Vinte homens, comandados por Loredano, estavam dispostos a invadir a casa. Loredano pede a Rui que lhe segure uma tábua sobre o precipício que separa o quarto de Ceci da esplanada: diz que hoje esta mulher será dele, de qualquer maneira e que se encontrará com os outros homens dentro da casa.

Segurando a tábua, Rui é tomado por uma tentação: matar Loredano, ficar com o tesouro, deixar esta criatura diabólica cair no precipício. Mas o ex-frei tinha já amarrado a corda a um caibro, passa o perigo.

Entrando no quarto de Ceci, Loredano contempla-a.
A menina sorria em seu sono, graciosa e indefensável...
"A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração."

Capítulo IV Na Treva

Loredano não acompanhara D. Diogo: a poucos quilômetros do Paquequer, inventara uma cilha quebrada e voltara à casa.

Mestre Nunes e Aires Gomes, em conversa, descobrem que Loredano era o Frei Ângelo di Luca, mas Rui Soeiro os fechara a porta achave do cubículo onde estavam por dormir, prendendo-os, impedindo-os de agir em qualquer circunstância.

Loredano estava perto do leito da menina, e em sil6encio abriu a gaveta, pegou algumas roupas e embrulhou: ia raptá-la, nem que ela gritasse, mas não queria que na viagem ao Rio de Janeiro, nada lhe faltasse, por isso separou as roupas.

Cecília, nessa hora, sonhava com Peri, sorria no sonho e fez com a boca como quem beijasse.
Loredano inclinou-se sobre ela.

Capítulo V Deus Dispõe

"O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecília estacou no meio do movimento, e subitamente impelida foi bater de encontro à parede.

Uma seta, que não se podia saber de onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibilo forte e agudo pregara a mão do italiano ao muro do aposento."

Uma outra seta quase lhe alcançou a cabeça. E louco de dor, Loredano fugiu para o jardim. Peri saltou no espaço vazio do precipício e veio para o quarto: não tinha tempo de seguir e matar Loredano, como já o tinha feito aos dois cúmplices, queria apenas cuidar que a menina estivesse protegida.

Arrumou todo o aposento ( essa Ceci tinha um sono de pedra, mesmo!), dispôs as roupas de novo na cômoda, limpou o sangue e fechou a porta à chave. Depois, sentou-se à soleira da porta e esperou. Eram quatro horas da manhã.

O que se passara antes de Peri entrar naquele quarto, antes que flechasse a mão de Loredano? Investigando, notou que todo o edifício tinha feixes de palha ao redor, que os planos de Loredano incluíam incendiar a casa de D. Antônio de Mariz... foi aí que correu para o quarto da menina e evitou uma tragédia maior.

Capítulo VI Revolta

Depois de refletir sobre o que acontecera, resolveu entrar pela casa e chamar D. Antônio.

Loredano já encontrara os outros cúmplices e descobrira a morte de Bento Simões que aparecera na alpendrada com sinais de estrangulamento violento. Obra de Peri.

Desesperado, o italiano, diz aos homens que deve haver ali uma "víbora traiçoeira"e que a esta hora hora Rui deverá também ter morrido.

Peri fala com D. Antônio e logo aparecem também Aires Gomes e mestre Nunes. D. Antônio resolve, então, parecer entre os aventureiros, porque , ouvida a narração, não se conformava com aquilo.

"- Aqui me tendes! Dizei o que quereis de D. Antônio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se for de justiça, sereis satisfeitos; se for uma falta, tereis a punição que merecerdes.

Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emudeceram.

- Calai-vos? ... Passa-se aqui então alguma coisa que não vos atreveis a revelar? Acaso ver-me-ei obrigado a castigar severamente um primeiro exemplo de revolta e desobediência? Falai! Quero saber o nome dos culpados!"

Houve um sil6encio e Loredano, que não tivera coragem para se manifestar,, adiantou-se para dizer que não havia culpados, mas apenas homens que eram tratados como cães, que eram sacrificados a um capricho de D. Antônio e que estavam resolvidos a reivindicarem seus lugares de homens e de cristãos. Valiam menos que um herege ( Peri).

D. Antônio ouviu tudo e depois falou:

"- Silêncio, vilões! Esqueceis que D. Antônio de Mariz ainda tem bastante força para arrancar a língua que o pretendesse insultar? Miseráveis, que lembrais o dever como um benefício! Arriscastes a vossa vida para defender-me? ... E qual era vossa obrigação, homens que vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga? Sim! Sois menos que escravos, menos que cães, menos que feras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis desprezo.

Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiveram mais; das palavras de ameaça passaram ao gesto.
- Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspam o desprezo na cara? E por que motivo!...
- Não, nunca! Vociferaram os aventureiros furiosos."
E todos, raivosos, se puseram em torno a D. Antônio que, sereno, majestoso e calmo, era ali não a vítima, mas o senhor que mandava.

Capítulo VII Os Selvagens

Estavam lá os aventureiros ao redor de D. Antônio, nas ninguém se atrevia a feri-lo com qualquer faca ou adaga.

Até que Loredano, destacando-se do meio dos homens, agarrando-se à sua faca, quis fazê-lo. Mas o fidalgo abriu a camisa e, de peito à mostra, esperou o golpe. Depois como se ele não viesse, com um murro bem dado, jogou Loredano de costas sobre o pavimento.

E pedindo que todos abaixassem as armas, disse que castigaria sem perdão a todos.

"- Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de Loredano, este homem será justiçado à frente da banda; para ele não há julgamento; eu o condeno como pai, como chefe, como um homem que mata um cão ingrato que o morde. É ignóbil demais para que o toque com as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo."

Alguns aventureiros, depois que D. Antônio recolheu-se, vieram entregar-se a ele dizendo que os homens preparavam-se para atacá-lo. Já colocavam fogo na pallha quando Peri jogou ao pátio o cadáver de Rui.

João Feio se apresentou como mediador entre D. Antônio e os rebeldes, mas o fidalgo mandou avisá-los:

"- Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antônio de Mariz manda e não discute condições: que eles estão condenados; e verão se sei ou não cumprir o meu juramento."
Contados os homens, D. Antônio tinha catorze e os inimigos eram vinte e tantos.
As mulheres, acordadas, foram para o oratório rezar.
Mas o pior estava por vir: quando Peri estendeu os olhos para a linha do horizonte, viu que chegavam os Aimorés:

"Homens quase nus, de estatura gigantesca e aspecto feroz; cobertos de peles de animais e penas amarelas e escarlates, armados de grossas clavas e arcos enormes, avançavam soltando gritos medonhos."

Capítulo VIII Desânimo

Os índios atacaram com uma fúria atroz, sob o comando da índia que, irada, os incitava à fúria. Choviam setas sobre portas e janelas e chegou a haver um armistício entre os revoltosos e a família, que vivia momentos desesperados.

Peri estabelecera no quarto de Ceci uma espécie de quartel-general, porque não partilhava do desânimo das pessoas e tinha fé inabalável que venceriam.

A família e a casa tinham perdido a alegria, estavam todos desanimados. Peri, junto com eles, não tirava os olhos de sua dona, que parecia desfalecida; se algum índio investia contra a casa e , gritando, assustava a menina, Peri dava-lhe um tiro e o matava. E como se Ceci não comesse, nervosa e amedrontada, arriscava-se e ia à floresta buscar um favo de mel, um fruto ou uma caça diferente.

D. Lauriana rezava e Isabel seguia com os olhos o amado, com medo que ele morresse a cada ataque.

Álvaro evitava Isabel porque tinha prometido a D. Antônio que desposaria Ceci; no entanto, tinha medo daquela paixão avassaladora que agora lhe tomava o peito:

"Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! Entretanto, sabia que se ele a visse outra vez como no momento em que lhe confessara seu amor, cairia de joelhos a seus pés, e esqueceria o dever, a honra, tudo por ela."

Capítulo IX Esperança

Álvaro confessa a Isabel que tem medo de amá-la porque prometera a D. Antônio que seria marido de Cecília. Isabel confessa a Álvaro que pensa em matar-se para dar lugar ao amor entre Ceci e ele.

Álvaro, tocado de emoção, diz que ela afaste tais pensamentos. E diz que aceita a vida que Isabel lhe oferecia.

Peri estava pensativo, e disse a Ceci que tinha um jeito para salvar a todos, que sabia uma maneira como isso pudesse se realizar.

E, entrando no quarto de Ceci, quebra o arco, tira os ornatos, despede-se de seus instrumentos guerreiros.

O que estaria intentando Peri?

Capítulo X Na Brecha

Quando Peri quebrou suas armas de guerra, Loredano passeava do outro lado da esplanada, e estava pensando no que fazer para apoderar-se de Ceci e destruir D. Antônio.

Se não pudesse destruir a porta de entrada, destruiria a parede. Martim Vaz pede a Loredano umas duas horas antes que consolidem o plano. Nesse momento, João feio apareceu na entrada do alpendre:

"- Renegado e sacrílego, dou-te uma hora para irdes entregar-te a D. Antônio de Mariz, e obter dele o nosso perdão e o teu castigo. Se não o fizerdes dentro desse tempo, é comigo que te hás de avir."

Mas o italiano fez um movimento de raiva e, depois, conteve-se.


Capítulo XI O Frade

Assim que ouviu as primeiras pancadas, Peri desconfiou do plano de Loredano e pregou todas as portas de comunicação com a sala. Por dentro da casa, foi dar na despensa dos aventureiros. Esperou no escurou e viu quando Loredano e um companheiro de aproximaram.

Podia matá-lo, mas não o fez.
Jogou no fogo as roupas dos rebeldes, na esperança de que a fumaça os fizesse sentir sede.
Depois pôs-se a refletir. Estava feliz, certo de que venceria os aimorés.

Capítulo XII Desobediência

Álvaro pensava em Isabel, sua alma lutava, mas já sem força, contra o amor ardente e profundo que o dominava.

"Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecília; a afeição calma e serena de outrora fora substituída pela paixão abrasadora.

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era impotente contra o amor; não podia mais arrancá-lo do seu seio; não o desejava mesmo.

Álvaro sofria; o que dissera na véspera a Isabel era realmente o que sentia; não se exagerara; no dia em que deixasse de amar Cecília e fosse infiel à promessa feita a D. Antônio, se condenaria como um homem sem honra e sem lealdade. "

Os planos de Peri deixam-se entrever pelo leitor: ele pede a Álvaro que o espere, que vai procurar ajuda longe e que se morrer, para enterrá-lo junto com suas armas. Despede-se de todos em silêncio, pede para beijar a mão de D. Antônio e jamais dizer a Cecília o que aconteceu.

D. Antônio pergunta-lhe o que pretende e, surpreso, descobre que Peri quer morrer para salvar a vida de Ceci e família.

Ceci acorda e proíbe Peri de fazer tal maluquice, mas Peri a desobedece pela primeira vez e sai:

"- Perdoa a Peri, senhora!

Cecília soltou um grito e precipitou-se para a janela. Não viu mais Peri.

Álvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinham os olhos fitos sobre a árvore que se elevava a um lado da casa, na encosta oposta, e cuja folhagem ainda se agitava.

Longe descortinava-se o campo dos Aimorés; a brisa que passava trazia o rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens."

Capítulo XIII Combate

Eram seis horas da manhã. Os Aimorés, ainda sentados ao redor de troncos já meio reduzidos a cinzas, faziam os preparativos para um decisivo ataque à casa de D. Antônio; preparavam, naquele momento, flechas incendiárias para queimar a moradia do fidalgo , uma vez que "não podendo vencer os inimigos pelas armas, contavam destruí-los pelo fogo."

E enquanto isso era feito, demonstravam todo o ódio de seus corações terríveis. Uma menina, olhando a mata, soltou um grito, apontando para um lugar. O inimigo caiu no meio deles, sem que pudessem distinguir de onde viera: Era Peri.

"houve uma confusão, um turbilhão horrível de homens que se repeliam, tombavam e se estorciam; de cabeças que se levantavam e outras que desapareciam; de braços e dorsos que se agitavam e se contraíam, como se tudo isso fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro desconhecido debatendo-se em convulsões.

No meio desse caos via-se brilhar aos raios de sol com reflexos rápidos e luzentes a lâmina do montante de Peri, que passava e repassava com a velocidade do relâmpago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço."

Peri lutava, decepou a mão do pajé; os guerreiros voltaram-se contra ele para vingar seu chefe. E , lembrando-se de Cecília, ajoelhou.

Capítulo XIV O Prisioneiro

Entregava-se?

Os selvagens precipitaram-se sobre o inimigo, que já não se defendia e , portanto, considerava-se vencido.

O pajé fez um movimento enérgico, que dava a entender que era seu o prisioneiro. Os outros baixaram as armas. Peri compreendeu o que viria depois disso.

Depois, foi levado até uma árvore, de onde podia contemplar as pessoas na casa: tudo o que mais amava estava ali, diante dos seus olhos. E a índia aimoré o contemplava com profunda admiração. Só então compreendeu que ela era a "esposa da morte": ela o abraçava e dizia coisas que ele não entendia, havia lubricidade nele, seu corpo exalava desejos , mas ele negava cada coisa que ela queria, ou trazia para ele: comida , carinhos.

Por fim, a moça cortou as cordas que o prendiam e num gesto largo, embora ele não entendesse a palavra aimoré, disse:

-Tu és livre. Partamos!

A índia apaixonara-se pelo prisioneiro.



Quarta Parte

A Catástrofe

Capítulo I Arrependimento

Quando Loredano afastou-se de João Feio, que o ameaçara, chamou quatro companheiros de confiança e foi com eles à despensa. Lá, separados dos outros que temia poderem também rebelarem-se, disse que derrubariam a parede e que matariam, então, todos lá dentro, menos Cecília:

"(...) se algum de vós deseja a outra, pode tomá-la: eu vo-la dou."

E revela que além de atacarem a casa, parte dos homens atacaria os índios do alto do rochedo. E que, depois do ataque, eles se embrenhariam na floresta e deixariam os amigos à própria sorte. Os outros rebeldes acharam aquilo de uma covardia enorme, que levariam para sempre com eles o remorso.

Passados alguns momentos, os rebeldes dizem não poder derrubar a parede porque, do outro lado e dentro da casa, estava o oratório com seus santos.

Indignado, Loredano objeta que então será ele próprio a colocar a parede abaixo.

João Feio conta aos outros companheiros quem era Loredano e estes decidem que, quando chegar, se apoderariam dele e o condenariam imediatamente à morte. Mas antes, deveria arrepender-se pelos atos iníquos que praticara.

Loredano fechara a provisão de água à chave, e os aventureiros estavam sedentes e famintos. Tomaram umas garrafas de vinho que encontraram no quarto do italiano, e em meio às risadas, já pensavam em pedir perdão a D. Antônio.

Capítulo II O Sacrifício

"Peri compreendera o gesto da índia; não fez porém o menor movimento para segui-la.

Fitou nela o seu olhar brilhante e sorriu. Por sua vez a menina também compreendeu a expressão daquele sorriso e a resolução firme e inabalável que se lia na fronte serena do prisioneiro.

Insistiu por algum tempo, mas debalde. Peri tinha atirado para longe o arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da árvore, conservava-se calmo e impassível.

De repente, o índio estremeceu."

Cecília aparecera no alto da esplanada e lhe acenara, parecia feliz.

Enciumada, a índia saltou sobre ele com uma faca de pedra. Peri agarrou-a e deitou-a na grama, depois voltou ao lugar. Ela voltou a insistir para que fugissem, mas Peri tirou do pescoço o crucifixo que lhe dera Ceci e , por gestos, explicou à garota que lhe dava aquela cruz, como lembrança, mas só depois que morresse. A selvagem entendeu e beijou-lhe as mãos.

Naquele momento, quatro guerreiros aimorés chegaram, e o levaram para o lugar onde o sacrifício estava sendo preparado.

Foi feita a dança, e ao cacique foi dada a honra de ser o algoz de seu prisioneiro:

"- Guerreiro goitacá, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A Naçào Aimoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer."

Todos esperavam o momento do sacrifício: a cabeça dele pertenceria aos guerreiros, o corpo aos filhos daquela tribo e as entranhas seriam o banquete de vingança... E quando o velho elevou a clava para bater-lhe na cabeça, Peri cobriu os olhos e abaixou a cabeça. O chefe achou que fosse medo.

Mas Peri, ativo, bradou:

"- Fere! ... disse Peri ao velho cacique."

E no meio do turbilhão de vozes ouviu-se um estouro e um barulho do corpo do velho pajé. Alguém havia atirado do meio das árvores.

Capítulo III Sortida

"O estrondo que se ouviu fora causado por um tiro que partiu dentre as árvores.

O velho Aimoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte, o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortada pelo raio.

A morte tinha sido quase instantânea; apenas um estertor de agonia ressoou no seu peito largo e ainda há pouco vigoroso: caíra já cadáver.

Enquanto os selvagens permaneciam estáticos diante do que se passava, Álvaro com a espada na mão e a clavina fumegante precipitava-se no meio do campo. De dois talhos rápidos cortou os laços de Peri; e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens que voltando a si caíram sobre ele bramindo de furor.

Imediatamente ouviu-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo à sua frente Aires gomes saltaram por sua vez com a arma em punho, e começaram a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada."

Álvaro solto Peri, mas este diz que não vai embora, que desobedece até sua senhora.

O que tinha se passado na casa? Cecília implorara ao pai que fosse salvar Peri, era isso que ela demonstrara alegre ao lhe acenar. Álvaro pôs-se à frente do grupo, mas antes de partir, pedira a Isabel que repetisse que o amava.

IV- Revelação

Peri mantinha-se firme no propósito de não partir, mesmo em meio à luta.

"Peri abaixou a cabeça com profunda tristeza.

- Dize à senhora que Peri deve morrer, que vai morrer por ela. E tu parte, porque senão seria tarde.

Álvaro olhou a fisionomia inteligente do índio para ver se descobria nela algum sinal de perturbação de espírito; porque o moço não compreendia, nem podia compreender a causa dessa obstinação insensata."

Foi então que Álvaro, tomado por uma idéia, diz que vai deixar-se ficar e morrer com ele, assim não restariam homens para defender Cecília. O índio pôs-se a correr por entre as árvores e todos foram embora. Chegados à casa de D. Antônio, todos queriam explicação para aquele ato insano.

Peri contou: era dono de um veneno letal, que guardava entre os seus adornos e na hora em que abaixou a cabeça, quando o pajé lhe apontava a clava ( momento em que chegou D. Álvaro) , passara curara no seu corpo. Com ele, também envenenara a água dos revoltosos e as bebidas dos aventureiros e levara um pouco para envenenar a si mesmo. Segundo a lei dos bárbaros , após a morte do inimigo, mulheres e homens dividiriam sua carne e , portanto, morreriam todos.

Por isso quisera ficar: para matar um a um os inimigos. Mas compreendera que a resolução de Álvaro era tão forte quanto à sua.

Apesar de admirar a coragem e a audácia de Peri, D. Antônio pede a Aires Gomes que previna os rebeldes que a água e a bebida estariam envenenadas.

Capítulo V O Paiol

Cecília, como se acordando de um grande susto, dirigiu-se a Peri; o índio estava aborrecido, imaginando que de nada adiantara sua decisão.

Amorosamente, Ceci perguntou-lhe por que não a tinha obedecido. Pedindo perdão a ela, o índio entra em convulsões: era o curare.
"- Peri vai te deixar para sempre, senhora.
- Não!... Não! ... exclamou a menina fora de si. Não quero que tu me deixes! ... Oh! tu és mau, muito mau... Se estimasses tua senhora, não a abandonarias assim!...
- Tu queres que Peri viva, senhora? disse o índio com a voz comovida.
- Sim! respondeu a menina suplicante. Quero que tu vivas!
- Peri viverá!"

E fazendo um esforço supremo, pôs a correr para fora e entrou na floresta. Imaginações dolorosas perpassaram pela cabeça da família; mas isso foi interrompido pelo aviso que Álvaro viera dar à família: Loredano e seus rebeldes estavam derrubando a parede; nesse momento, chegava Aires Gomes e outros companheiros e Loredano percebeu que estava perdido.

Foi então que os rebeldes arrependidos o agarraram e levaram o líder para D. Antônio, suplicando-lhe que lhes perdoasse a todos. Enquanto D. Antônio conversava com Álvaro, os aventureiros , reunidos num conselho, começavam a julgar o Frei Ângelo di Luca e o condenavam por voto unânime. Fora condenado à fogueira. Um dos aventureiros, chegando-se a Loredano, tirou-lhe a cinta onde o ex-frei guardava seu mapa, e, portanto, seu tesouro.

E ele ficou enraivecido, a ponto de espumar pela boca quando Martim Vaz atou-a ao corpo e disse-lhe sorrindo:

"_ Bem sabeis do provérbio: "O bocado não é para quem o faz.""

Capítulo VI - Trégua

À noite, os aventureiros cozinhavam os legumes para a magra ceia: já não podiam beber nada, pois que tudo fora envenenado por Peri e sequer sair para a caça, pois estavam cercados pelos Aimorés.

Loredano continuava atado ao poste, esperando a hora de ser executado.

"Os aventureiros tinham resolvido demorar o suplício e dar tempo a que o frade se arrependesse dos seus crimes e se decidisse a morrer como cristão, humilde e penitente; por isso deixaram-lhe a noite para refletir."

Os víveres estavam acabando e D. Antônio, depois de reunir os aventureiros em sua sala, determinou-lhes que acompanhassem Álvaro pelas redondezas a fim de que abastecessem a casa.

D. Antônio estava admirado com a tranqüilidade dos selvagens e Cecília adormecera. A família, finalmente, pôde gozar um pouco de seu repouso.

Quando amanheceu, "Cecília, com a frescura da manhã, tinha-se expandido como uma flor do campo; suas faces coloriram-se de novo, como se um raio do sol, beijando-as lhes tivesse imprimido o seu reflexo roseado."

O campo onde estavam os Aimorés fora esvaziado depois que eles enterraram os seus mortos, mas D. Antônio de Mariz, depois de tantos anos como explorador, e conhecendo o hábitos de tais indígenas, conservava-se suspeitoso.

Capítulo VII Peleja

Quando a família gozava os primeiros momentos de alegria, ouviram um grito na escada: era Peri. Cecília levantou-se estremecendo de alegria, mas sequer pôde comemorar a volta do índio, porque ele trouxera nos ombros o corpo inanimado de Álvaro. Cecília, D. Antônio e a mulher ficaram mudos, Isabel desmaiou.

"Cecília nem pôde gozar da alegria de ver Peri salvo; seus olhos, apesar dos sofrimentos passados, ainda tinham lágrimas para chorar essa vida nobre e leal que a morte acabava de ceifar."

Eis o que tinha ocorrido: Peri fora procurar socorro num segredo que a mãe lhe revelara e lá passara por maus bocados; mas quando raiou o dia, banhou-se no rio e viu que as forças lhe tinham voltado. Foi quando ouviu um estrondo que reboou por toda a floresta: era Álvaro e os companheiros, cercados por mais de cem aimorés que os cercavam. Lutaram, Peri lutou também bravamente. Mas Álvaro morrera em meio ao combate e ele julgou que precisava trazer o corpo até a casa.

Capítulo VIII Noiva

Peri voltou ao quarto onde guardar as armas, o quarto que fora de Cecília , e estranhou que Isabel viesse ter com ele, pedindo-lhe que lhe fizesse um favor: levar o corpo de Álvaro para os aposentos dela, deitá-lo em sua cama de virgem.

Peri o fez.

Peri, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu trabalho, que ele prosseguia com uma constância infatigável.

Apenas ficou só, Isabel sorriu; mas o seu sorriso tinha um quer que seja do êxtase da dor, da voluptuosidade do sofrimento, que faz sorrir na última hora os mártires e os desgraçados.

Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabelos de sua mãe e fitou nela um olhar ardente."

Lá dentro, estava o curare. Apagou as luzes, rezou e pediu que fossem felizes na eternidade. Álvaro parecia apenas dormir e, depois de acender incensos, pegou a mão de Álvaro entre as suas, balbuciando coisas desconexas, tal como se espera do coração, pedia a Álvaro que dissesse a ela que a amava.

Depois colou a boca na do amante... e ele ( pasmem todos vocês, leitores menos imaginativos, mas muito acostumados às saídas românticas...) gemeu. Estava vivo.

Mas ela comera o pó do curare ( aqui, Shakespeare revolve-se no túmulo....) e condenara seu amante à morte ( vá ser azarada assim nos infernos, Isabel!). Pensa abrir as janelas, salvá-lo ( Cadê o Peri? Cadê o segredo dele? Isabel tem memória curta) , mas Álvaro a atrai para si ( pelo menos isso, ora!) e a beija longamente, quer dizer, dá-lhe curare...

Mais tarde, Ceci e Peri arrombam a porta, vêem aquela baita nuvem de fumaça e encontram os dois mortos.

"- Ela morreu feliz! disse Peri!"

Que coisa! Aqui ninguém toma o pulso de ninguém, só de olhar todo mundo sabe reconhecer um morto, dois, nesse caso...

Capítulo IX O castigo

Os aimorés tinham voltado, depois do ataque aos aventureiros, certos de que o inimigo enfraquecera. e esperavam, cheios de vingança, que anoitecesse. Iriam atacar a casa. Estavam certos de que desta vez os inimigos não lhes resistiria.

os selvagens não queriam que lhes escapasse um só inimigo e, por isso, tinham feito um cerca infalível.
Peri continuava o seu trabalho incessante e, quando precisou sair, Cecília perguntou para aonde ia.
Recebeu como resposta que Peri voltava, voltava para protegê-la.

Peri tinha visto há poucos instantes que D. Antônio dera à filha uma bebida, numa taça e que ela agora parecia narcotizada, quase que adormecida já. Repeliu a idéia de que o pai teria querido assassiná-la para que não sofresse. Não havia tempo a perder.

Lá fora, o italiano "sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça que, enovelando-se, envolvia-o numa névoa espessa; é impossível descrever a raiva, a cólera e o furor que se apossaram dele nesses momentos que precederam o suplício."

E o ar ficou cheio de setas incendiárias. D. Antônio disse aos aventureiros que se dispusessem a morrer como cristãos.

Foi quando Peri entrou na sala.

Capítulo X Cristão

O índio disse a D. Antônio de Mariz que queria salvar a senhora e depois lhe confessa que tem um jeito de salvar também o fidalgo: que ele pegasse a canoa e descesse o rio, e fosse em busca de sua mãe e de seus irmãos e se salvaria.

Mas o fidalgo diz que um bom homem não abandona seus companheiros.
Peri insiste em querer salvar Ceci e, sob negativa, diz que então prefere morrer aos pés de sua senhora.
D. Antônio pede-lhe que se vá, que parta enquanto é tempo, mas o índio está irredutível.

"Atravessou o espaço que o separava de sua filha, e , tomando a mão de Peri, disse-lhe com uma voz profunda e solene:

- Se tu fosses cristão, Peri! ...
O índio voltou-se extremamente admirado daquelas palavras.
- Por quê? ... perguntou ele.

- Por qu6e? ... disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro, à minha irmã."

Não é preciso dizer o que se vai passar aqui. Peri quer ser cristão, por Cecília ele aceita qualquer coisa.

E D. Antônio, nessa hora extrema, batiza o índio de joelhos... e mais: dá a ele seu nome de fidalgo.

"- Peri te jura que ele levará a senhora à tua irmã; e que o Senhor do céu não deixar que Peri cumpra a sua promessa, nenhum inimigo tocará em tua filha, ainda que para isso seja preciso queimar uma floresta inteira!"

Arrepiai-vos ecologistas de plantão! Ele queimaria uma floresta inteira para salvar uma mulher... Bem, eu acho mesmo que ele está certo, ora!

Peri toma Cecília nos braços e parte, equilibrando-se sobre o abismo, lá ia nosso herói ( eu prefiro Macunaíma) com Cecília nos braços ( Alencar era um puro, eu nessa hora derrubava esses dois no abismo e acabava logo com esta história!).

Os selvagens avançavam sobre a casa de D. Antônio.

"Chegando à beira do rio, o índio deitou sua senhora no fundo da canoa, como uma menina no seu berço, envolveu-a na manta de seda para abrigá-la do orvalho da noite ( esse Alencar está brincando, gente!) e tomando o remo, fez a canoa saltar como um peixe sobre as águas."

De longe, viu o incêndio que na casa começava.

Cadê a mulher de D. Antônio, me perguntará você. Eu também nào sei, não me pergunte.

Nesse momento, D. Antônio segurava um crucifixo na mão e com a outra apontava a pistola para "o seu vulcão": o depósito de pólvora do gabinete de armas...

Ah, dona Lauriana reapareceu pra morrer, vejam só!

"Sua mulher abraçava os seus joelhos calma e resignada; Aires Gomes e os poucos aventureiros que restavam, imóveis e ajoelhados a seus pés, formavam um baixo-relevo dessa estátua digna de um grande cinzel."

D. Antônio disparou, um estrondo terrível reboou por toda aquela solidão.

Morreram todos, com a explosão do paiol: D. Lauriana, a desaparecida; D. Antônio, o piromaníaco; os bobocas que ficaram lá formando o baixo relevo, a indiaiada inteira.

Veja: se fosse hoje, esse cara seria amaldiçoado por todas as ONGs do planeta, por todas as ONUs, UNICEFEs, e grupos de proteção ao branco e ao índio...

Capítulo XI Epílogo

"Quando o sol, erguendo-se no horizonte, iluminou os campos, um montão de ruínas cobria as margens do Paquequer.

Grandes lascas de rochedos, talhadas de um golpe e semeadas pelo campo, pareciam ter saltado do malho gigantesco de Novos Ciclopes.

A eminência sobre a qual estava situada a casa tinha desaparecido, e no seu lugar via-se apenas uma larga fenda semelhante à cratera de algum vulcão subterrâneo."

Árvores arrancadas, destruição... Alencar descreve um cenário estarrecedor. Essa parte parece ter sido arrancada de jornais japoneses depois da explosão sobre a cidade de Hiroxima.

E nosso herói Peri? Bom, Peri tinha remado a noite toda, coitado. Cecília, feito uma Bela Adormecida ( essa mulher dorme demais, sempre!):

"A menina envolta na sua manta de seda, com a cabeça apoiada sobre a proa do barquinho, dormia o mesmo sono tranqüilo da véspera; as cores tinham voltado, e sob a alvura transparente de sua pele brilhavam esses tons cor-de-rosa, esse colorido suave, que só a natureza, artista sublime , sabe criar.

Param.

"Peri tomou a canoa nos seus braços, como se fora um berço mimoso , e deitou-a sobre a relva que cobria a margem do rio..."

Você já observou que o Alencar é um pouco exagerado criando esse índio-rambo aí. Mas pra quem daqui a pouco vai arrancar uma palmeira do chão, isso nem é nada.

Por fim, acordou ( já era hora). depois chorou sem que o índio nada lhe dissesse. Descobrira tudo, num relance e depois apertou o seio que lhe estalava ( essa mulher é biônica!) com os soluços, desfazendo-se em lágrimas.

E, ainda por cima, queria que Peri a levasse ao lugar onde descansava o corpo do pai. Mal sabia ela o que o índio ia lhe contar: o pai explodira, virara pó, adeus D. Antônio ( também, quem mandou dar tiro em porão cheio de pólvora?)

Peri conta que D. Antônio mandara que ele a salvasse. E Ceci fica envergonhada por estar a sós com o goitacá, naquela amplidão toda ( essa Ceci é mesmo uma imbecil!)

Peri revela-lhe que se tornara cristão, que fora batizado por D. Antônio e que dele recebera o nome. Ceci fica aliviada e feliz, não me perguntem por que.

Mas tinham que partir até que pudessem atingir os campos dos goitacás.

"O índio chegou-se trêmulo para a menina:
- Que queres tu que Peri faça, senhora?
- Não sei, respondeu a menina indecisa.
- Não queres que Peri te leve à taba dos brancos?
- É a vontade de meu pai? ... deves cumpri-la.
- Peri prometeu a D. Antônio levar-te à sua irmã.

O índio fez a canoa boiar sobre as águas do rio, e quando tomou a menina nos braços para deitá-la no barquinho, ela sentiu pela primeira vez na sua vida que o coração de Peri palpitava sobre o seu seio."

Como você pode perceber, esse capítulo deveria chamar-se "É o amor"

E o barquinho vai, deslizando sobre a água... Ceci pensa no que lhes acontecera, nos pais, em tudo que havia ocorrido e transformara a sua vida.

Agora, é Peri quem dorme. Ceci contempla-o com imensa ternura e gratidão.
"Uma lágrima pendeu nos cílios dourados e caiu sobre a face de Peri..."
Veja a que ponto chega um escritor romântico: os cílios são... dourados!
E acordou o coitado do índio-remador.

Depois, chama-o de ... irmão. Esse índio deve ter se arrependido por não tê-la deixado explodir com os outros...

E depois:
"- Salve, rainha!"
Convertido é tudo assim: reza até na hora que tem que declarar o amor...

E vão para o campo dos goitacás, onde ela, segundo Peri, mandará em todo mundo.

Ela se inquieta e pergunta quando vào ao Rio de Janeiro. Peri diz que lá, na tribo dele, há canoas grandes, com as quais podem chegar ao Rio.

cecília chora na hora do jantar de frutas, porque quer que ele fique na tribo. Peri, vendo aquilo, diz que se ela quiser, será maltratado entre os brancos, mas ficará com ela. ( leia isso, fazendo acompanhar-se da música "Opinião": "Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião..." ou "Me abre, me fecha, me chama de gaveta, me prega na parede feito uma lagartixa...)

Ela, endoidecida, resolve acabar com o problema:
"- Cecília fica no deserto? ... balbuciou ele.
-Sim! respondeu a menina tomando-lhe as mãos: cecília fica contigo e não te deixará. Tu és rei destas florestas, destes campos, destas montanhas; tua irmã te acompanhará."
Ou seja: "Me Tarzan, you Jane", que lindo é o amor nas tabas e florestas deste mundo!
E eu vou acabar logo com esta análise:

Ceci dormiu de novo ( claro) e Peri ficou velando. Daí que veio uma bruta enchente, eles se agarraram numa palmeira, e dá-lhes água. Pura água.

Peri falou em tom solene sobre a lenda de Tamandaré ( o Noé indígena); foi aí que Peri arrancou uma palmeira, grudaram nele e foram água abaixo.

Nesse instante, o hálito de Peri bafejou-lhe a face.
A palmeira sumiu-se no horizonte...
Pense o que você quiser, porque a obra termina em aberto. Foram felizes, tiveram filhinhos, povoaram o Brasil?
Isso, meus filhos, é um assunto para nenhum detetive botar defeito.
Amém.

Como diria o narrador de Macunaíma, bem mais esperto do que Peri:
Acabou a história, morreu a vitória, quem quiser que conte outra...

Pequena biografia de José de Alencar:

"O espelho era a visão simbólica das forças naturais. O viço da árvore, o faro do bicho, o ardor do sangue e do instinto: eis os mitos primordiais que valerão, no código de Alencar, pureza, lealdade e coragem." ( Alfredo Bosi)

José de Alencar deve ser considerado uma das jóias literárias raras que o Brasil possui no Romantismo. Nasceu em Mecejana, no Ceará, em março de 1829, filho da aristocracia rural brasileira, de pai que tinha sido padre, senador do Império pelo Partido Liberal e pertencera ao "Clube da Maioridade"que, em 1840, levara D. Pedro II ao trono.

Foi para o Rio com a família, por força da política e das funções do pai, e lá fez os primeiros estudos, retornando ao Ceará aos 12 anos. Formou-se em Direito em São Paulo, em 1950.
Veja o que escreve sobre ele os professores Antônio Cândido e Aderaldo Castelo, em Origens do Romantismo:

"Dedicou-se à literatura, ao jornalismo, à advocacia, foi funcionário e político, tendo sido repetidas vezes deputado conservador pela sua província e, de 1868 a 1870, ministro da Justiça. Não conseguiu, apesar de bem votado, ser feito senador, que era a sua grande meta, e isso terá contribuído para agravar nele a misantropia e a irritabilidade, que eram acentuadas, apesar de ter sido muito feliz na vida de família, depois do casamento um pouco tardio, em 1864.

A carreira literária de Alencar principia, realmente, com as crônicas que depois reuniu sob o título de Ao Correr da Pena ( 1856). Mas a notoriedade foi devida aos artigos polêmicos do mesmo ano, contra o poema épico A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães, nos quais traçava o programa de uma literatura nacional, baseada nas tradições indígenas e na descrição da natureza, mas norteada por uma rigorosa consci6encia estética.

Para juntar o exemplo à teoria, publica em 1857 O Guarani, que fora precedido por um pequeno romance, Cinco Minutos. A partir daí não cessaria mais de escrever e publicar com relativa abundância, em três fases mais ou menos distintas. Na primeira, que vai de 56 a 64, publica alguns dos seus romances mais importantes e quase todo o teatro.

De 66 a 69, apenas escritos políticos, inclusive as famosas Cartas de Erasmo, nas quais exortava o Imperador a exercer efetivamente os seus poderes, a fim de pôr cobro à tirania das cliques governamentais. De 70 a 75, postos de lado a política e o teatro, entra em nova fase criadora, publicando oito livros de ficção. O último romance, acabado em 77, Encarnação, foi publicado depois da sua morte, assim como o belo fragmento autobiográfico, Como e por que sou romancista.

Alencar é o primeiro ficcionista de vôo largo na literatura brasileira; a sua obra representa, na prosa, a realização da tendência nacional que vinha sendo reclamada pela opinião crítica e pelo sentimento de autonomia. Sem prejuízo