Na tentativa de se chegar a um público cada vez mais ligado ao audiovisual, editoras e escritores criam os primeiros trailers literários, são vídeos explicativos ou até encenações de trechos para atrair a atenção da turma acostumada ao divertimento rápido e descartável do YouTube.
Se você é um daqueles que pensam que os computadores vieram para acabar com os livros, está completamente enganado. Novos escritores combinam internet e literatura para promover seus livros e o resultado tem sido satisfatório.
Trailer de livro. A expressão à primeira vista soa paradoxal e improvável, mas pequenos vídeos sobre novos romances já são um sucesso na internet. Duvida? Experimente buscar por ´trailer´ e ´livro´ no YouTube e veja o resultado.
Inovação
Ana Paula Maia (www.killing-travis.blogspot.com) foi a primeira escritora brasileira a divulgar seu livro por meio de um trailer (http://www.youtube.com/watch?v=UhJuLghrrH8). Ela conta que a idéia surgiu da vontade de dar novos desdobramentos ao seu segundo romance, “Guerra dos Bastardos”. “A linguagem cinematográfica está muito próxima a mim”, afirma. Foi a própria Ana Paula quem escreveu o roteiro do trailer, que fez tanto sucesso na internet que acabou sendo exibido nas salas de cinema em São Paulo e no Rio de Janeiro. O vídeo, uma fotomontagem de pouco mais de um minuto, apresenta o livro sobre atores pornôs decadentes, ladrões de órgãos e outros personagens do submundo, com imagens violentas, cheias de sangue e pedaços humanos.
´De Cabeça Baixa´
O escritor Flávio Izhaki (http://decabecabaixa.wordpress.com) seguiu pelo mesmo caminho para promover seu primeiro romance, “De Cabeça Baixa”. Autor estreante, ele queria que seu livro atingisse mais leitores, principalmente pessoas que não o conheciam. Assim, surgiu a idéia do trailer (http://www.youtube.com/watch?v=J-0GM3qHnVI), que foi dirigido pela cineasta Andréa Pessanha. O vídeo é uma dramatização do romance, que gira em torno de um escritor em auto-exílio que encontra seu livro publicado há cinco anos em um sebo com as margens do texto cobertas de comentários cáusticos.
Para Izhaki, é prematuro afirmar que o trailer ajudou nas vendas do livro, mas com certeza deu uma maior visibilidade à obra. “O trailer, até agora, já foi assistido por quase 900 pessoas e o blog que criei com o mesmo propósito já teve mais de 3.500 acessos em dois meses no ar”, contabiliza. Já Ana Paula é categórica: o vídeo “definitivamente não alavancou as vendas”. No entanto, ela não nega que o trailer aguça a curiosidade dos leitores.
Imagem da obra
Mas o trailer do livro não prejudica aqueles leitores que preferem ter sua própria imagem sobre a obra? Izhaki revela que este foi um dos principais desafios. “Claro que doeu dar um rosto para alguns dos personagens. Literatura é imaginação, cinema é imagem, e quando você apresenta fisicamente um personagem antes da leitura do livro, você está arriscando. Mas digamos que foi um risco calculado, e espero que quem veja o trailer tenha vontade de ler o livro”, ressalta ele, que também sofreu para resumir o romance em pouco mais de dois minutos sem que este perdesse o vigor.
Ana Paula pensa diferente. “Não teve dificuldade. O trailer é apenas um desdobramento do livro. E me dei a liberdade que colocar no roteiro uma cena que não estava no livro, mas que poderia estar. Talvez até esteja entre um parágrafo e outro”, diz.
Internet aliada
Com a internet como principal divulgadora de obras literárias, a teoria de que ela veio para acabar com os livros se mostra ultrapassada, como acredita Izhaki. “Em vez de vilã, a internet está sendo usada como aliada ao ser ferramenta para mostrar trabalhos de novos autores, fazer rede de contatos”, explica. Ana Paula concorda. “A internet é uma ferramenta indispensável para qualquer manifestação artística”.
Os escritores acreditam que a produção de trailers de livros tende a se tornar uma prática comum. “É muito interessante criar um teaser do que quer que seja uma novela, um espetáculo de teatro, um filme, uma peça de propaganda. Se tiver oportunidade, faço outro”, afirma Ana Paula.
Izhaki vai além e defende que outros recursos da internet também podem divulgar livros. “Trailers não são os únicos meios. Citaria também blogs, entrevistas em vídeo, podcasts e quem sabe mais o que pode vir por aí. Mas o importante é ter em mente que nada disso é o livro, nada substitui o livro”, finaliza.


