Há quem se empenhe toda a vida, por décadas e décadas, em busca do sucesso profissional. Muitos definem, logo cedo, que carreira pretendem seguir e se programam para chegar ao topo o quanto antes. Mas, mesmo com toda dedicação, às vezes, o reconhecimento não vem.

Por outro lado, há quem não faça muito esforço, que arrisca sem compromisso e descobre, quase que por acidente, seu verdadeiro dom. E, para essas pessoas, tudo o que aquela gente ali acima tanto almejou acaba vindo rápido, por um atalho.

O escritor e jornalista gaúcho Luis Fernando Veríssimo pertence a este segundo grupo. Celebrado por seu humor indefectível cravado em dezenas de contos, crônicas e romances publicados até os 31 anos ele ainda não imaginava que rumo tomaria na vida.

“Até então, eu não tinha diploma nenhum. Tinha tentado outras coisas, mas não tinha dado certo em nada”, contou, rindo de si mesmo, em bate-papo realizado nesta semana no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru.

É evidente que a escola que ele teve em casa - com a convivência diária com o pai, o romancista Érico Veríssimo - foi um aprendizado e tanto. Porém, Luis Fernando afirma que a influência paterna não foi definitiva.

“Quando eu comecei a escrever, é claro que o fato de ter convivido desde pequeno com a literatura facilitou o meu trabalho. Mas eu não tinha nenhuma intenção de ser escritor, muito menos jornalista”, revela.

Quando já era pai de dois filhos, em 1967, ele descobriu, trabalhando como colunista do jornal “Zero Hora” de Porto Alegre, o talento que corria em suas veias. Logo em seguida, veio uma avalanche: livros de contos, compilações de crônicas publicadas na imprensa, relatos de viagens, romances, além de cartuns e histórias em quadrinhos.

Alguns de seus personagens se tornaram antológicos, como a Velhinha de Taubaté, o detetive Ed Mort e o Analista de Bagé. Este último inspirou a peça homônima encenada durante os últimos 25 anos em todos os cantos do País. No entanto, segundo palavras de Veríssimo, o espetáculo “já não tem mais nada a ver com o texto que eu escrevi”


Outras paixões

Com uma versatilidade e capacidade de produção bastante elogiada por amigos, Veríssimo alcançou os 71 anos da mesma forma como começou. Tímido, como quem não quer nada, a voz mansa e os óculos de armação fina quase fazem acreditar que se trata de um homem sem muitas pretensões.

Mas, como teria dito o cartunista Jaguar em certa ocasião, “Veríssimo é uma fábrica de fazer humor. Muito e bom”. E, mesmo sendo um escritor extremamente produtivo, ele ainda encontra tempo para se dedicar a outras paixões.

A primeira é a música. E foi ela o motivo de sua passagem por Bauru, na última quarta-feira, quando mostrou suas habilidades com o saxofone ao lado da Banda Jazz 6.

Modesto, Veríssimo considera-se um amador entre os demais músicos. “Nunca cheguei a me aprofundar no domínio do instrumento. Quando resolvi estudar, só queria brincar de jazzista. De certa forma, é o que eu faço até hoje”, pondera.

Outra de suas paixões, ainda que o ânimo da juventude já tenha arrefecido, é o Clube Internacional, de Porto Alegre. Torcedor desde os 10 anos de idade, Veríssimo costumava ir com freqüência aos estádios para vibrar pelo time.

Agora, ele conta que só assiste futebol “ao vivo” durante as Copas do Mundo, na maioria das vezes a trabalho. “Mesmo porque tenho um vizinho que tem pay-per-view e, evidentemente, fica muito mais cômodo”, brinca.

Contudo, a mais recente e talvez a maior fonte de prazer do escritor é mesmo sua neta Lucinda, que completou um mês no último domingo. Para falar dela, finalmente, Veríssimo se sente em casa.

“Minha mulher e eu tínhamos este sonho. Nós até pertencíamos ao Movimento dos Sem Netos, criado pelo (escritor) Moacyr Scliar, em Porto Alegre”, conta, sempre com bom humor.

“Ela é uma novidade grande na nossa vida e já tomou conta de tudo. Tem coisa dela por todo lado”, complementa. Foi a nova estrela da casa, inclusive, quem inspirou Veríssimo em sua mais recente crônica: “Como ser avô”, publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, na última quinta-feira.