O Número de alunos que abandona a educação superior se mantém no mesmo patamar há seis anos, mas a desistência não é um privilégio do Brasil. Países da OCDE apresentam média de 30% de não titulação.

Problema central nas instituições de ensino brasileiras, o índice de evasão na educação superior permaneceu na casa dos 20% nos últimos seis anos. A diferença é que, com a expansão do ensino, esse contingente representa cada vez mais estudantes fora do sistema.

Enquanto no ano 2000 foram 386.716 estudantes, em 2006 o índice já representava 811.720 alunos. Com base no Censo 2006 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é possível apontar que 21,7% dos alunos evadiram do sistema de educação superior por desistência, abandono ou trancamento de matrícula, segundo cálculos do professor Oscar Hipólito, do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia.

A estimativa de evadidos é feita levando em consideração o aumento de matriculados de um ano para outro, descontando os ingressantes e os formados. O pico da taxa de evasão foi registrado em 2004, quando 24,3% dos matriculados - ou 816.474 alunos - não conseguiram chegar ao final do curso. "A evasão é um problema muito sério, que envolve fortes componentes financeiros. Nas instituições públicas, há um custo muito grande por aluno, que é desperdiçado quando ele sai do sistema.

Nas privadas, além desse custo, há a perda da mensalidade e prejuízos à imagem. Afinal, ninguém abandona um curso falando bem", avalia Hipólito. Segundo ele, a evasão no Brasil teve um custo estimado de R$ 6 bilhões em 2006. "É um dinheiro jogado no lixo", diz. A taxa de evasão nas instituições públicas consegue se manter mais baixa que a média geral.

Em 2006, 12,4% dos alunos desistiram de seus cursos de graduação na educação superior pública, índice que equivale a 123.098 matriculados. Seis anos antes, a taxa era semelhante: 13% de evasão - ou 93.659 alunos. O quadro mais grave ocorre nas particulares. Em 2006, um quarto do total de alunos matriculados na rede privada abandonou seu curso. A taxa de evasão chegou a 25,1%, o equivalente a 688.622 estudantes.

Como a quantidade de ingressantes nas instituições privadas cresce em ritmo bem maior que nas públicas, a tendência é de que um contingente cada vez maior de alunos deixe pelo caminho a busca de um diploma. Segundo Hipólito, o motivo alegado por cerca de 40% dos que abandonam o ensino particular é a falta de condições financeiras. Situação que, na opinião dele, pode esconder outros motivos.
 
"Se o aluno for perguntado por que saiu, ele vai dizer que foi por problema financeiro, quando muitas vezes pode ser mau atendimento, desestímulo, escolha errada. O aluno que está satisfeito faz das tripas coração para não sair, é a chance da vida dele", afirma.

Em cursos como medicina, por exemplo, a taxa de evasão é próxima a zero. Na opinião de Renato Pedrosa, coordenador adjunto de pesquisa da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), da Unicamp, o Brasil deveria ter programas de transferência das vagas ociosas das públicas para as particulares, com o objetivo de baixar as taxas de estudantes fora do ensino.

"Esperar que todos terminem a gradua­ção é irreal", afirma. Para trazer à luz informações mais detalhadas sobre esse processo, Hipólito calcula também a taxa de titulação dos estudantes. Isso significa comparar o número de concluintes atual com o volume de ingressantes de quatro anos antes, período aceito internacionalmente como médio para a formação. No Brasil, o número de titulados em 2006 foi de 47,8%, ou seja, mais da metade dos ingressantes de 2003 ainda não havia concluído seu curso.

O número de concluintes em quatro anos vem caindo, e o consultor aponta uma situação preocupante. "Cai a titulação e, claro, aumenta a evasão. A taxa de aumento de matrícula também vem caindo. É sinal de que o sistema está se desacelerando", diz. Nas instituições públicas, a taxa de titulação é maior.

Em 2006, 57% dos matriculados concluíram seu curso no período esperado - nos anos anteriores, houve um pico em 2004 (74%), mas no geral a taxa se manteve acima dos 60%. Já nas particulares, a titulação em 2006 foi de 45,4%, e o número máximo nos anos anteriores foi de 50,4% em 2002.

A taxa de titulação média brasileira é baixa se comparada com a média dos países da União Européia, onde esse índice é de 69%, segundo relatório de 2007 da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE). Entre os países membros da OCDE, a taxa é de 70%. Já no Japão, 90% dos estudantes de curso superior chegam ao final no tempo esperado.

Em comparação com os Estados Unidos, porém, a taxa brasileira não é tão diferente: 54% dos alunos americanos finalizam o curso no período médio estabelecido. Para Renato Pedrosa, a comparação com países desenvolvidos que apresentam taxas de titulação semelhantes às do Brasil mostra que a dificuldade em concluir o ensino superior é um problema comum em todo o mundo.

"A eficiência (em formar estudantes) é parecida", diz. Ao contrario do Brasil, São Paulo conseguiu diminuir taxas Estado com maior número de alunos freqüentando o ensino superior no Brasil - 1.268.976 segundo dados do Censo 2006 -, São Paulo consegue manter as taxas de evasão abaixo dos patamares nacionais. Em 2006, esse índice foi de 18,5%, o equivalente a 178.951 fora do sistema de ensino. A estimativa foi feita pelo professor Oscar Hipólito, consultor do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia.

De 2003 a 2006, o percentual de evasão caiu em São Paulo, ao contrário do cenário brasileiro. Apesar disso, o abandono permanece em proporções semelhantes às taxas do país quando se comparam instituições públicas e privadas.

Em 2006, as instituições privadas registraram evasão de 19,8%, ao passo que nas públicas esse índice foi de 11,5%. Em ambas as categorias administrativas, as taxas de evasão registraram queda nos três anos anteriores. Pelos cálculos do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), que usa metodologia diferente (veja quadro na próxima página), o percentual de evasão nas instituições de ensino superior paulistas é ainda menor: a taxa de abandono ou trancamento de matrícula somou 12,5% em 2006, sendo registrado índice de 13,1% nas privadas e de 9% nas públicas.

No entanto, não há muito o que comemorar quando se analisam os números de titulação (ou seja, os alunos que se formaram num período médio de quatro anos), de acordo com cálculos do Instituto Lobo. A taxa de titulação nas públicas paulistas, que chegou a 72,2% em 2003, caiu para 60,5% em 2006.

Nas instituições particulares, o índice registrou leve queda em relação aos anos anteriores, passando de 56,3% em 2003 para 53,6% de titulação em 2006. No geral, em 2006, os concluintes paulistas representam 54,4% do total de ingressantes quatro anos antes. Resumo: * 811.720 estudantes aban­donaram o ensino superior brasileiro em 2006.

No ano 2000, foram 386.716. * Estimativa revela que 40% dos que evadem nas particulares saem por questões financeiras. * As perdas com a evasão em 2006 podem chegar a R$ 6 bilhões. * A taxa de evasão em São Paulo é menor que a média brasileira.

Enquanto as instituições paulistas registraram índice de 18,5%, a taxa brasileira foi de 21,7%. * Nas instituições privadas, o número de concluintes dividido pelo de ingressantes dos quatro anos anteriores se mantém entre 51% e 59% desde 1999. * A taxa de titulação média no país foi de 47,8% em 2006.

Ou seja, mais da metade não concluiu seu curso no tempo esperado. * Nos países membros da OCDE, essa taxa é de 70%. No Japão chega a 90%, mas nos Estados Unidos é de 54%.

Há outras maneiras de dimensionar a evasão na educação superior brasileira além do cálculo com base no aumento de matriculados de um ano para outro, descontando os ingressantes e os formados. Para chegar ao perfil do aluno evadido, o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), por exemplo, baseia o índice nos dados fornecidos anualmente pelas instituições ao Inep.

O cálculo leva em consideração apenas ingressantes pelo vestibular e outros processos seletivos, excluindo ingressos por casos como mudanças de curso, transferência e admissões de diplomados. O resultado é um índice total de evasão um pouco menor: 16,1% em 2006, o que representa que 753.380 alunos se desligaram ou trancaram a matrícula no ano.
 
A taxa continua maior nas instituições privadas (17,1%) do que nas públicas (13,2%). A análise histórica demonstra que, no período 2003-2006, 68,6% dos matriculados em instituições públicas e 55,6% dos alunos das particulares chegaram ao final do curso (veja gráfico acima). Desde 1999, levando em consideração os ingressantes de 1996, as instituições privadas se mantêm no patamar entre 51% e 59%.

De acordo com as informações, é possível traçar um perfil mais detalhado do problema: mais da metade dos evadidos sai do curso no primeiro semestre, 55,4%, com pouca diferença entre as públicas (53,6%) e as particulares (55,8%).

A média de evasão é também maior entre os estudantes do período noturno:17% no total, contra 14,8% no diurno. E a maioria dos evadidos não tranca matrícula, simplesmente desiste. Em 2006, foram 386.362 alunos considerados desligados ou desistentes, a maioria destes (57,6%) no primeiro semestre.