Enquanto o país enriquece, diferenças entre suas classes sociais aprofundam-se; a situação poderá levar a um desfecho explosivo. A principal fraqueza da China está exatamente na explosão, neste  aumento avassalador das desigualdades que vem acompanhado pelo reaparecimento das identidades de classe.

A sociedade ilustra esta fragmentação do espaço social chinês que, no mesmo momento em que ela libertou uma jovem elite dinâmica, mergulha também camadas inteiras do país na precariedade. A China, oficialmente "socialista", é hoje um dos países do mundo onde existem as maiores desigualdades, a tal ponto que alguns analistas a comparam com a América Latina.

Enquanto o país enriqueceu globalmente, as diferenças sociais, por sua vez, aumentaram, expondo certas regiões pobres a surtos de revolta e de contestação que apresentam o risco de um dia constituir um perigo político de marca maior para o regime.

Os números são eloqüentes. Durante os anos 80, a diferença entre a renda urbana e a renda rural era de 1,8/1. Ela passou para 3/1 em 2003, segundo as estatísticas oficiais. Na realidade, ela se aproxima muito mais de 5/1, e até mesmo de 6/1, considerando-se as múltiplas taxas impostas aos camponeses.

O mais preocupante para Pequim é que o enriquecimento global não permite mais fazer recuar a pobreza. Neste contexto, o ano de 2003 foi marcado por uma reviravolta. Pela primeira vez em duas décadas, o número de pobres (definidos oficialmente por uma renda anual inferior a US$ 77 - R$ 186,03) aumentou, passando de 28,2 milhões para 30 milhões de pessoas. O mito de uma China que supostamente teria conseguido deter a pobreza já era.

Esta reversão de tendência pode ser explicada em parte pela crise da economia rural, pela contração das superfícies aráveis e pelas expropriações dos camponeses das suas terras, entregues à especulação imobiliária.

Entre 1987 e 2001, 34 milhões de agricultores perderam assim a sua terra, enquanto no mesmo momento, os serviços públicos, de saúde e de educação, desmoronavam uma vez que o Estado foi cancelando todos os seus compromissos.

Nestas condições, o êxodo rumo às cidades vai se acelerando inevitavelmente. Calcula-se que estes migrantes do interior formem uma população de mais de 100 milhões de pessoas. Embora o dinheiro que eles enviam para a aldeia permita à sua família sobreviver, estes "mingongs", como são chamados, descobrem um meio urbano muito pouco acolhedor e cada vez mais marcado pelas desigualdades.

Segundo as estatísticas oficiais, as famílias as mais ricas (8,6%) das cidades monopolizam 60,4% do capital financeiro, ou seja, uma disparidade superior àquela que registrada nos Estados Unidos e na América Latina.

Enquanto o governo não tiver implantado uma política social de redistribuição digna deste nome --o seguro de saúde permanece o privilégio de apenas 76 milhões de empregados urbanos, ou seja, 5,8% da população--, a urbanização acelerada concebida como uma solução para remediar ao mal-estar rural continuará gerando tantos problemas ou mais do que aqueles que ela for solucionando.

Os analistas chineses costumam comparar a estrutura social das cidades a uma estrutura em forma de pagode. Sobre o teto, os altos salários; na base, a baixa renda. E, entre os dois, uma torre que vai se estendendo cada dia um pouco mais. Se a China de amanhã continuar a se parecer com uma pagode, ela estará muito vulnerável aos abalos sísmicos.


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Por: Frédéric Bobin