Em entrevista ao JORNAL DE UBERABA, o reitor pro tempore da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Virmondes Rodrigues Júnior, fala como está encaminhando o processo de transformação da faculdade em universidade, dos novos cursos que devem começar já no próximo ano, como Matemática, Física, Biologia, Química e Geografia.

Questionado sobre eleições, diz que está tranqüilo e que a comunidade deve escolher o nome reitor no próximo ano, após o regimento geral ficar pronto e o conselho universitário tomar posse. Virmondes fala ainda das obras em andamento, dos avanços na área de saúde e do convênio com a Rede Nacional de Paleontologia e afirma que a UFTM quer ter um campus na estrutura de Peirópolis. A área do Uberaba Tênis Clube e novos ga nhos da universidade também foram abordados durante a entrevista.

JORNAL DE UBERABA – Como está o processo de transformação da universidade?
VIRMONDES RODRIGUES JÚNIOR – Estamos vivendo dois planos de expansão. A primeira expansão, que deveremos estar concluindo este ano com a entrega da obra em frente ao Hospital de Clínicas e com a criação dos cursos de Educação Física e Psicologia, que está prevista na primeira etapa, que foi a etapa da transformação, a partir da assinatura do projeto de lei de 29 de julho 2005, pelo presidente da República. Neste projeto de transformação foi apresentada a criação dos cursos de Português-inglês, Português- espanhol, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Nutrição. Estes já tiveram início, enquanto o vestibular do curso de Psicologia está aberto e o de Educação Física será no final do ano.

JU – E a segunda etapa?
Vimondes – A segunda etapa é a do Reuni, que nos pegou em plena tarefa de transformação. Nós não podíamos abrir mão desse novo desafio. Foram propostos cursos na área de Engenharia e ainda uma expansão noturna com a criação de Licenciatura, Matemática, Física, Química e Biologia, que terão início até 2009. São cursos noturnos que irão utilizar a infra-estrutura já existente, utilizada pelos cursos multiperiódicos.

JU – Quando o prédio novo começa a funcionar?
Virmondes – Temos até o final deste ano para terminar de construir e equipá-lo. Em 2009 estaremos recebendo as primeiras turmas no prédio novo. Vamos equipá-los de maneira gradual, porque nem todas as salas serão usadas num primeiro momento, mas já tem laboratórios com equipamentos garantidos para funcionar ainda este ano.

JU – E como está a formação da congregação?
Virmondes – Do ponto de vista formal de documentação e organização administrativa, já foi aprovado o estatuto pelo MEC, inclusive publicado no final do ano passado. A partir da aprovação de estatuto aceleramos o preparo do regimento geral, que deve ser concluído em breve e nós vamos divulgá-lo para toda a comunidade acadêmica, para que possamos receber sugestões. Depois vamos consolidar um documento único, que será levado à congregação para sua aprovação final.

JU – E isso demora quanto tempo?
Virmondes – Acredito que vamos concluir esta tarefa no final deste semestre. Vamos abrir espaço para que a comunidade discuta e estudantes, servidores, professores, técnico administrativo façam sua manifestação. Depois de amplamente debatido no seio da comunidade é que vamos construir um documento. Acreditamos que para agosto ou setembro este documento poderá estar concluído. Vai depender do debate interno.

JU – E a eleição do colegiado. Parece que alguns cursos estão reclamando de falta de representatividade?
Virmondes – Nós estamos em uma época de transição. Convém lembrar que até dois anos atrás éramos uma faculdade de Medicina, com curso de medicina, enfermagem e biomedicina. A partir de meados de 2006, com a abertura de cinco novos cursos, é normal que os novos estudantes busquem também uma representação em todos os colegiados. É o colegiado superior da universidade, que chamamos de congregação, porque estamos ainda com o regimento antigo. O colegiado é formado por chefes de departamentos, segundo o modelo antigo de organização acadêmica, que vai passar a ser organizado a partir de institutos. A renovação dos chefes acontece a cada dois anos e houve uma renovação de todas as chefias de departamentos. Os novos representantes de departamentos já estão nomeados e a representação dos discentes ainda está em debate, porque os alunos dos novos cursos buscaram ter esta representação, de maneira bastante justa.

JU – Como está este debate?
Virmondes – Como a representação é estudantil, estamos deixando que os estudantes façam sua forma de escolha dos representantes do colegiado. Só estamos colocando a infra-estrutura do gabinete da reitoria à disposição para facilitar que possam escolher os representantes no colegiado superior. Hoje temos cinco membros do corpo discente com direito a representação. Até que seja reconduzido e escolhido os novos representantes, invariavelmente o colegiado tem permitido que pelo menos um aluno por curso que não tem representação no colegiado se faça presente nas reuniões com direito a voz, mas infelizmente sem direito a voto. Foi a maneira mais democrática para permitir a participação destes alunos na esfera maior de decisão da universidade.

JU – Em relação à eleição de reitoria?
Virmondes – Apesar de estar em uma situação pro tempore, estamos bem tranqüilos do ponto de vista moral e ético, porque submetemos nosso nome a uma votação na comunidade e fomos o primeiro nome escolhido. Fomos indicados pela congregação para ser dirigentes em agosto, já com a universidade transformada. Então temos a legitimidade de um processo de escolha e a legalidade que uma portaria do ministro nos nomeando. A organização do processo eleitoral virá com a finalização do regimento geral, que vai dar uma característica ao denominado conselho universitário. Vai ser este conselho que vai deflagrar, após nomeado, o processo de eleição.

JU – Isso pode acontecer este ano?
Virmondes – Eu acredito que pode sair no início do próximo ano.

JU – Foi feita uma tentativa, sem sucesso, para passar a área do UTC para a UFTM. Como o senhor vê isso?
Virmondes – A cessão de uma área por parte dos sócios do UTC seria um ganho extremamente importante, não só para a universidade, mas para Uberaba inteira. Estamos vendo a possibilidade de aplicação desta área, que chega próxima aos 30 mil m2, em prol não de um conjunto de associados apenas, mas de toda a sociedade uberabense e será uma ação que permite ganho em toda a sociedade e o crescimento da universidade. Apesar da cessão da Embrapa em uma área de 500 mil m2 para a instalação dos cursos de tecnologia [engenharias], a ampliação na área de saúde deve ocorrer próxima ao Hospital de Clínicas, porque é a nossa grande ferramenta de atenção a saúde, nosso campo de estágio para todos os alunos da área de saúde. Será até para alunos da área de tecnologia, porque alguma infra-estrutura do hospital, como lavanderia, central de caldeira serão importante para alunos das áreas de engenharia fazer estágio. A expansão da universidade nesta área de saúde precisa acontecer numa área central, próxima ao Complexo do HC. A área do UTC seria muito importante para a universidade e, sem dúvida, para a toda a comunidade de Uberaba. Acredito que é uma ação desta envergadura tem de ser bem refletida por todos os sócios, porque uma doação ou cessão definitiva não é mais reversível. Para mim seria uma retribuição muito grande por parte dos sócios remidos do UTC se devolvessem ao bem púbico o imóvel que eles receberam do poder público, quando alguns anos atrás o governador do Estado cedeu esta área ao UTC.

JU – Mas eles tentaram devolver e o governo não aceitou.
Virmondes – Se existiu a intenção de devolver a área ao Estado, porque não passá-la à universidade, se tem um projeto muito importante de desenvolvimento de saúde. Inclusive nós não iniciamos o curso de Educação Física neste semestre porque falta espaço adequado para receber os alunos do curso. Sem dúvida, o UTC seria uma boa ferramenta até para o curso de Educação Física, que pretendemos iniciar no vestibular do final de ano.

JU – Então o senhor ainda tem esperança de receber esta área.
Virmondes – A decisão formal de doar ou não a universidade não foi tomada. Não é positiva nem negativa. A decisão que houve na assembléia foi chamar a eleição de uma nova diretoria e conhecer melhor o projeto da universidade para a utilização desta área antes de tomar uma decisão. Acho que tem de ser uma decisão que precisa ser bastante amadurecida e estamos prontos para apresentar aos associados o nosso projeto de utilização da área tão logo sejamos convidados para fazê-lo.

JU – Seria possível fazer uma parceria no caso de não doação?
Virmondes – Sim, mas é importante ser dito que do ponto de vista da universidade investir dinheiro em infra-estrutura em uma área que não é da universidade fica muito difícil. Por isso a necessidade de a Embrapa fazer a cessão, a Funepu ceder definitivamente a área da Chácara dos Terra, porque nós estamos impedidos, por força de lei, de investir em infra-estrutura em imóvel que não seja da União.

JU – Em caso de doação haverá aumento do número de leitos, por exemplo.
Virmondes – O hospital tem como ampliar o número de leitos num primeiro momento até sem ampliar sua área física. Basta que algumas estruturas físicas e acadêmicas que estão dentro do hospital possam sair de dentro do hospital. Quando falando em aumentar a área de saúde, estamos pretendendo aumentar o número de leitos, mesmo que isto não implique em construir um novo hospital, e sim em liberar áreas de dentro do hospital que estão sendo utilizadas por disciplinas, departamento e administração. Isso nos permitirá aumentar em até 25% o número de leitos oferecidos.
JU – Isso seria na área do UTC ou pode levar para a construção que está sendo feita.
Virmondes – Uma parte da área administrativa será levada para o novo prédio, mas devemos chamar a atenção que este prédio será exclusivamente acadêmico. Vamos ter condições de receber simultaneamente mais de seis mil alunos neste prédio, que é composto por 17 salas de aulas para 60 alunos e 34 salas de aula para 30 alunos, além de laboratórios acadêmicos, que devem atender a todos os novos cursos da instituição, inclusive de medicina, enfermagem e biomedicina. O prédio de 14 mil m2 vai ser imediatamente tomado pela área acadêmica, que não vai permitir desocupar por completo o HC. Investimento em área física e infra-estrutura para permitir o aumento do número de leitos no hospital ainda precisa ser realizado.

JU – Vocês estão alugando o prédio onde funcionava o Reina?
Virmondes – Foi feita licitação e o contrato já está assinado. Vamos colocar ali o arquivo morto da universidade e parte de equipamentos do departamento de engenharia, que não está sendo possível abrigar na universidade. Uma parte destes equipamentos está em imóvel alugado e outra no prédio do Maria da Glória, que está sendo ampliado.

JU – E como está a ampliação do Maria da Glória?
Virmondes – O primeiro pavimento está praticamente concluído. Com a chegada de recursos da Secretaria de Saúde adquirimos material para fazer todo o revestimento interno do prédio, para manter a sua conservação. Esperamos dentro do convênio assinado receber a segunda parcela de R$ 380 mil, para aquisição dos móveis e equipamentos necessários para colocar em funcionamento o prédio.

JU – E o Instituto de Pesquisa de Saúde?
Virmondes – Estamos com a minuta do projeto pronta e vamos colocar os editais do projeto arquitetônico e em seguida os complementares. A verba está liberada para os projetos, mas para a obra deve ser liberada em 2009, assim como a obra do Instituto de Tecnologia.

JU – E o Centro de Reabilitação?
Virmondes – Ele será ampliado pelo governo do Estado, por opção do próprio Estado em conduzir todo o processo. Já foi aberta a licitação, empresas já estiveram aqui para fazer a verificação e sondagem do terreno e o processo está em andamento. Esperamos que as obras sejam iniciadas ainda este ano. Estão previstas ações da criação de um ginásio coberto e de uma piscina aquecida para melhor atender os pacientes que precisam de tratamento de fisioterapia. O projeto está pronto desde 2005 e trabalhamos nele para corrigir alguns desvios necessários para adequar as normas da vigilância sanitária. Agora depende de recursos do Estado e da disponibilidade do governo estadual para dar agilidade ao processo.

JU – A UFTM assinou o termo de cooperação em relação à Rede de Paleontologia e o Museu dos Dinossauros. A Fumesu não foi chamada nesta assinatura. O senhor já conversou com a direção da Fumesu.
Virmondes – Especificamente a respeito da assinatura deste convênio não. Este convênio foi assinado através pela Prefeitura de Uberaba, pela Secretaria de Ciência e Tecnologia e da UFTM, que são os três participes iniciais. Isso é tão abrangente que vai permitir a partir de agora a organização para que sejam tomadas ações efetivas do ponto de vista de visibilidade e de busca de recursos para colocar todas ações necessárias ao museu e à paleontologia.

JU – E como fica a não participação da Fumesu, que é a mantenedora do Museu dos Dinossauros e do Centro de Pesquisas?
Virmondes – Não sei te dizer, porque fomos convidados pelo governo do Estado. Como convidados, não cabe a nós questionar a inserção de outros parceiros dentro deste projeto. É um convênio inicial, que chamamos de convênio guarda-chuva, que vai permitir que outros parceiros insiram e que outros projetos sejam construídos. Eu acredito que com a partir deste momento, com a construção deste novo projeto, novos parceiros possam se inserir, dentro da meta que envolve o museu e a paleontologia.

JU – O senhor não acha estranho a mantenedora não ser chamada. Não posso, por exemplo, fazer um convênio usando o nome da UFTM sem ela saber.
Virmondes – Absolutamente, você não vai poder fazer isso nunca.

JU – Mas não é a mesma coisa, já que a Fumesu não foi informada sobre o convênio e ela é a mantenedora?
Virmondes – Este convite deveria partir da Secretaria de Ciências e Tecnologia e não cabe a nós, que fomos convidados, até o momento, fazer nenhuma intervenção neste sentido. Nós temos interesse. Este interesse foi manifestado através de convênio, inclusive antes quando apresentamos a Fapemig, que é a Fundação de Amparo a Pesquisa, um projeto em colaboração para permitir a divulgação das atividades do museu no meio acadêmico de Uberaba. Este projeto está em andamento e coordenado pelo professor assistente Antunes Paulo Teixeira. A partir da assinatura quando formos convidados, vamos levantar a participação de outros parceiros importantes para a questão do museu e da paleontologia.

JU – A Fumesu é a mantenedora, não é uma situação complicada?
Virmondes – É.

JU – O deputado Narcio Rodrigues disse que o museu pode se tornar campus da UFTM. Existe este interesse?
Virmondes – A universidade precisa se preparar para isso. O interesse existe porque o campo é bastante abrangente e o conjunto de Peirópolis é importante para nós, tanto do ponto de vista do meio ambiente, que teremos o curso de Engenharia de Meio ambiente, que será oferecido em 2010, e da paleontologia. Existe um interesse da universidade e a universidade está se preparando para poder participar deste processo. A participação da UFTM tem de ser de modo gradual, porque temos de inserir dentro do orçamento da universidade. Nós temos que colocar vagas técnico-administrativas compatíveis com os cargos que são necessários para colocar em funcionamento a estrutura vinculada com a universidade federal.

JU – Poderia pegar o pessoal que faz parte do museu?
Virmondes – A entrada de serviço público sempre se dá por concurso, mas a experiência das pessoas que estão lá é muito necessária ao bom andamento das atividades e que vão continuar sendo exercitadas mesmo depois da entrada da universidade como parceira. É um processo gradual e esperamos que as vagas desses concursos sejam preenchidas na forma da lei. As pessoas que estão trabalhando lá vão ter boas oportunidades de estarem participando desses concursos e sendo aprovadas.

JU – A lei também dá a possibilidade de se contratar pessoas técnicas sem concurso. Existe essa possibilidade?
Virmondes – Não, nossa legislação não permite isso.

JU – Então interessa transformar aquilo em campus?
Virmondes – Interessa nesse momento, e nós estamos nos preparando para que parte dessas atividades da universidade seja desenvolvida lá. Inclusive com laboratórios que serão montados em conjunto lá. Precisamos de recursos financeiros, que segundo o próprio deputado Narcio já estão previstos no orçamento. Precisamos de recurso pessoal e temos trabalhar junto ao Ministério do Planejamento para que esses cargos venham para a universidade, no sentido de preencher e permitir o funcionamento da universidade também na área de paleontologia.

JU – A UFTM terá graduação para geografia, geologia?
Virmondes – Está previsto o curso de Geografia, que deve ter início em 2009.

JU – E a Clínica Civil?
Virmondes – A Clínica Civil continua funcionando, atendendo pacientes particulares. Ela tem 27 leitos disponíveis e funciona exclusivamente com uma equipe técnica e de enfermagem da Funepu, independente do hospital. Mas continua utilizando alguma infra-estrutura do hospital, principalmente o bloco cirúrgico. Estamos nesse momento aguardando definições legais para ver o destino da Clínica Civil. Em definições legais, o prazo para os hospitais universitários ou os hospitais pequenos se tornarem exclusivamente SUS era outubro de 2007. Por portaria, esse prazo aumentou em dois anos, ou seja, novembro de 2009. Estamos entrando na Câmara dos Deputados com um projeto de lei, que pode mudar esse prazo. Esse projeto de lei não abrange só os hospitais universitários, mas também o conjunto dos hospitais públicos, independente de ser da União, dos Estados ou municípios.

JU – E existe possibilidade de o projeto ser aprovado?
Virmondes – Nós queremos ter uma definição, para que a gente faça realmente este planejamento estratégico definitivo. Se a Clínica Civil puder continuar atendendo convênios, nós vamos mantê-la, inclusive reforçando a sua estrutura, para permitir que haja mais obras nítidas e que essas obras sejam investidas, como são hoje na manutenção e no custeio do Hospital de Clínicas. Caso isso não ocorra vamos fazer outro planejamento, para dar um outro destino às instalações da Clínica Civil, seja transformando em uma enfermaria, em uma clínica do SUS, em uma mais determinada especialidade. Precisamos ter definição para fazer um planejamento adequado. Sem a definição não é possível fazer nenhum planejamento mais adequado.

JU – Se for passado tudo para o SUS, não vai prejudicar o HC?
Virmondes – Sem dúvida. Por isso é preciso um planejamento, porque vai exigir readequações, realinhamento de metas, outro tipo de investimento com a inserção da Clínica Civil na sua totalidade no SUS. Precisa inclusive pensar uma coisa. Nós temos um teto. O Hospital de Clínicas tem contrato com a Secretaria Municipal de Saúde e tem um limite de recursos, que é transferido para a universidade. Com a abertura de novos leitos, estes limites têm de ser revistos. Na medida que abrimos mais leitos, que prestamos mais atendimento, isto custa ao hospital e à universidade e ela tem de estar preparada com a abertura de novos leitos.