De acordo com levantamento do Ipea, menos da metade dos jovens entre 15 e 17 anos está no ensino médio, onde deveria. Baixa escolaridade prejudica conquista de espaço no mercado de trabalho
 
A dificuldade dos jovens brasileiros de conseguir emprego é reflexo da baixa escolaridade. Aos 17 anos, Mariano do Nascimento Santos está na escola, mas bem longe do ensino médio, nível que deveria freqüentar, pela idade.

O rapaz cursa a 5 série do ensino fundamental numa escola pública do Lago Norte. Este ano, entrou para a classe de aceleração e faz as aulas à noite. Mariano confessa que nem se lembra mais de quantas vezes repetiu o ano. “Eu bagunçava muito. Não gosto de escola mesmo. Os professores não sabem ensinar e a estrutura é péssima”, reclama. Mariano vive com a família numa casa simples do Varjão.

Trabalha sem carteira assinada, colocando faixas pela cidade. Pelo serviço, que consome cinco horas e meia do seu dia, ganha um salário mínimo. Ele não pensa em ingressar na universidade. “Quero, no máximo, terminar o ensino médio”, diz.

Assim como Mariano, 82% dos jovens entre 15 a 17 anos freqüentam a escola, mas menos da metade cursa o ensino médio. O dado é da pesquisa Juventude e políticas sociais no Brasil.

Divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), o estudo mostra também que 34% dessa faixa etária não concluiu o ensino fundamental e, pior, 18% estão fora da escola. “Gera um problema lá na frente quando eles forem adultos”, observa a pesquisadora Luseni Aquino, que coordenou o estudo.

Algumas indicações de como solucionar o problema podem sair do estudo, informa ela. “A pesquisa mostra onde estão sendo feitas coisas interessantes”, diz. Luseni ressalta o programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte.

“Tem como estratégia prevenir que o jovem fique sem atividade e exposto à violência e acaba influenciando no interesse pelos estudos. Proporcionar atendimento dentro do espaço educacional aproxima eles (os jovens) da escola.”

O analfabetismo é um fantasma que insiste em rondar a educação. De acordo com o levantamento do Ipea, 4,7% dos jovens do país entre 25 e 29 anos são analfabetos, no Nordeste, a proporção sobe para 11,6%. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, no entanto, a falta de letramento entre os jovens de 15 a 24 anos tornou-se um problema residual, com taxas em torno de 1%.
 
“Os dados vão servir para o governo refletir sobre como trata e deixa de tratar a juventude e para que a sociedade tenha um retrato do que dispõe e do que precisa reivindicar para melhoria da educação”, avalia Luseni.

A trajetória irregular na educação e a evasão escolar se acentuam com a necessidade de trabalho e a falta de informação sobre métodos contraceptivos. Entre os homens, a principal motivação para a interrupção dos estudos é a oportunidade de emprego (42,2%).

Entre as mulheres, a maior causa é a gravidez (21,1%). O levantamento do Ipea tem como base estudos como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), e o Censo Escolar, do Ministério da Educação.

A pesquisa mostra onde estão sendo feitas coisas interessantes

Luseni Aquino, coordenadora do estudo do Ipea
 
Maioria usa preservativo

A camisinha deixou de ser um mistério para os jovens na faixa dos 15 a 24 anos, mas pouco mais da metade (53%) faz uso do preservativo. De acordo com a pesquisa Juventude e políticas sociais no Brasil, entre os que pertencem a essa faixa etária e lembram de se cuidar na hora da relação sexual, 64% são homens e 45% mulheres.

Os jovens dizem que recorrem à peça, inclusive, em relações eventuais. “O índice é baixo porque a linguagem que se usa nas campanhas insiste no como se pega ou não DST e Aid. É preciso tocar em questões sociais como machismo e homofobia”, observa Sérgio Nascimento, do Grupo Atitude.

A ONG visita escolas de Ceilândia para falar com estudantes do ensino fundamental e médio sobre violência e sexualidade. “De forma descontraída, a gente se aproxima dos estudantes, ganha a confiança deles e ensina como evitar o preconceito na hora da transa”, afirma.

Segundo Sérgio, os professores não têm segurança na abordagem do tema. O diretor adjunto do programa de DST e Aids do Ministério da Saúde, Eduardo Barbosa, admite a dificuldade de conquistar o público jovem, mas ressalta que o ministério já vem investindo em “grupos focais” para chamar a atenção do segmento.
 
“Em junho serão lançadas ações em forma de quadrinhos e na internet, em parceria com provedores (de conteúdo) para que a comunicação se aproxime do jovem”, destaca.