Mesmo para quem tem todo o tempo do mundo para debruçar-se sobre os livros e "rachar" as matérias mais espinhosas, passar nos exames vestibulares não é tarefa das mais fáceis.

Imagine-se, então, a situação de quem precisa trabalhar o dia inteiro e tem apenas a noite para dedicar aos estudos – com a necessidade de precisar cursar o ensino superior numa faculdade pública, gratuita, mais disputada que a particular.

"Foi pensando nesses alunos, carentes, que criamos um programa institucional relacionado a cursos preparatórios ao vestibular em quatro câmpus", diz o pró-reitor de Extensão Universitária da UNESP (Proex), Edmundo De Lucca. "Além dessa experiência, existem ainda outras iniciativas na Universidade, como a da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá e as de alguns diretórios acadêmicos", informa. (veja quadro abaixo)

Os câmpus de Araraquara, Assis, Marília e Presidente Prudente são contemplados, ao todo, com 75 bolsas da Proex, destinadas aos alunos da UNESP que participam dos cursinhos como professores. "Nos exames vestibulares 2000, 36,5% de nossos alunos foram aprovados. É um índice superior aos cerca de 20% apresentados pelos cursinhos particulares de Araraquara", orgulha-se a química Elizabeth Berwerth Stucchi, vice-diretora do Instituto de Química da UNESP, sediado naquela cidade, e uma das coordenadoras do Curso Unificado do Câmpus de Araraquara, o "Cuca", que oferece cem vagas e recebe 22 bolsas da Proex para seus docentes e coordenadores.

ENTREVISTA

Na Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, câmpus de Assis, funciona o cursinho "Primeira Opção", que, no ano passado, atendeu 70 alunos. "Um foi aprovado na Universidade Federal de São Carlos e onze, em cursos na UNESP", conta o membro da coordenação do curso, historiador Ivan Rocha, do Departamento de História da FCL.

"Este ano temos 15 bolsistas e 90 alunos, selecionados por uma entrevista socioeconômica orientada por uma assistente social e uma prova de conhecimentos gerais". "O cursinho é um meio importante para quem deseja fazer um curso superior de qualidade", diz o aluno Jairo de Almeida, 20 anos.

A seleção é feita de maneira semelhante no Cuca, que promove uma prova escrita de conhecimentos geraisFoto e uma visita à residência dos candidatos. "Os bolsistas, que serão os professores, vão às casas dos candidatos, conhecendo seus futuros alunos", conta a pedagoga Rosa Fátima de Souza, do Departamento de Ciências da Educação da FCL, de Araraquara, e uma das coordenadoras do Cuca de 1998 até março último.

O primeiranista do curso de Ciências Sociais da FCL de Araraquara Claudio Avelino da Silva, 25 anos, estudou no Cuca e destaca que, por assistir às aulas no IQ, os pré-vestibulandos já vão convivendo com as atividades da universidade. "Isso nos mostra como é o dia-a-dia de um curso superior", diz. "Além disso, os professores do Cuca são jovens, o que facilita o nosso entrosamento", completa Josinete Pereira, 19 anos, que estuda no Cuca com o objetivo de cursar, em 2001, Letras.

AMBIENTE AGRADÁVEL

O ambiente de estudo costuma ser tão agradável que muitos alunos dos cursinhos, mesmo após passar no vestibular, mantêm contato com os professores. "Este ano trabalhei como fiscal na prova de Conhecimentos Gerais", diz Rodrigo Alves de Souza, 21 anos, primeiranista do curso de Química do IQ e ex-aluno do Cuca. "Talvez até dê aulas aqui um dia. É uma forma de retribuir o companheirismo e competência que encontrei."

Em Marília, funciona o "Cursinho Alternativo da UNESP de Marília" (Caum), que conta igualmente com aulas ministradas pelos discentes da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da UNESP, num total de 18 bolsas da Proex, com supervisão dos professores da unidade. "Começamos, em 1998, oferecendo 25 vagas. Hoje, temos uma classe de 60 alunos", conta a educadora Arlêta Nóbrega Zelante, coordenadora do Caum e vice-diretora da FFC.

O modelo do Cuca e do Caum é seguido na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da UNESP, câmpus de Presidente Prudente, onde funciona o "Ideal Pré-Vestibular", que conta com 20 bolsistas da Proex. "Funcionamos há um ano e atendemos 120 alunos, que pagam apenas as despesas com material", diz o coordenador do cursinho, o vice-diretor da FCT Neri Alves.

Para Arlêta, do Caum, a experiência didática que os alunos-professores ganham é muito útil para o desenvolvimento profissional deles. "Dar aula é uma forma eficiente de melhorar o próprio aprendizado", diz. "Esta experiência pedagógica está sendo essencial", confirma Marcelo Thomazzi, 26 anos, quintanista do curso de Química do IQ e docente do Cuca, em Araraquara.

Para a pedagoga Gisele Maria Simões, do Departamento de Didática da FCL, câmpus de Araraquara, os cursinhos estimulados pela Proex apresentam um grande potencial enquanto laboratórios de formação de docentes. "A motivação dos professores, que estão tendo sua primeira experiência pedagógica, é muito alta", diz. "Esses cursos funcionam como um espaço educativo de grande alcance acadêmico e social", avalia o também pedagogo Reginaldo Fernando Pereira, coordenador pedagógico do Cuca e bolsista da Proex.

O funil está mais largo

E o sonho do curso superior, mais próximo

Além dos cursos pré-universitários para alunos carentes, que contam com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária, há outras iniciativas semelhantes por toda a UNESP – como o curso que funciona em Guaratinguetá, graças a um convênio envolvendo a Faculdade de Engenharia (FE) da UNESP, a Empresa Júnior de Engenharia UNESP (Júnior Eng) e a Prefeitura Municipal. "Os professores, alunos da FE, recebem uma bolsa-auxílio, concedida pela Prefeitura, que também cedeu uma sala de aula", diz Alexandre Albuquerque, diretor presidente da Júnior Eng.

Em Ilha Solteira, na Faculdade de Engenharia (FE), funciona, com coordenação do Diretório Acadêmico XI de Abril, o "Cursinho Dafeis-UNESP", que conta hoje com 120 alunos. "Os professores são quase todos alunos da FE e têm, no cursinho, a oportunidade de ter suas primeiras experiências didáticas", diz o responsável pela iniciativa, Luiz Carlos Pereira Flores.

Em Jaboticabal, o DA local administra um cursinho e, em Rio Claro, o Centro Acadêmico de Biologia (Cab) faz o mesmo. No Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da UNESP, câmpus de São José do Rio Preto, o cursinho "Alternativo", de iniciativa dos alunos, deu tão certo que funciona sem mais nenhum vínculo com a Universidade. "O importante é que essas iniciativas permitem a alunos economicamente carentes trilhar o caminho da qualidade do ensino que a universidade pública oferece", avalia o pró-reitor de Extensão Universitária, Edmundo De Lucca.