Tinha tanta fixação em estudar na Universidade de São Paulo que prestei vestibular duas vezes. Uma, ainda no segundo colegial, só para ver como era. E, naquela época, não havia a figura do "treineiro", o estudante sem diploma que tenta a sorte só para ganhar experiência. Prestei para valer, para o curso de História, e passei. No ano seguinte, quando tentaria a sorte em Jornalismo, 45 míseras vagas, fiz nada além de estudar. Meu colégio, de freiras, era rígido como um Ratzinger, exigia média sete, de forma que não me animei a fazer cursinho junto com a escola. Achei que a divisão de esforços só me atrapalharia e decidi arriscar.

No colégio, todo ano, as freiras preparavam um cartaz enorme, escrito à mão, com aquela letra perfeita de professora primária. No conteúdo, os nomes das alunas aprovadas nos vestibulares. Não era incomum encontrar referências à USP naquele rol, o que me animava e, mais ainda, me estimulava. No fundo, eu acho que queria passar na USP principalmente para ver meu nome no cartaz do colégio.

Depois da primeira fase, fiquei tranqüila. Eu havia conseguido pontos suficientes para passar em Medicina, baseada nas notas de corte do ano anterior. Na segunda fase, meu estado de espírito não era o mesmo. As provas, dissertativas, não me davam certeza quanto à interpretação dos avaliadores. Só relaxei mesmo no último dia, depois da prova de redação. Eu senti que tinha acertado o tom, tanto que pedi licença para a professora que nos vigiava para copiar meu texto original em um outro papel, pois quis levar a redação comigo.

Depois das provas da Fuvest, prestei outros três vestibulares, para garantir. Não me lembro quando saíram os resultados. Naquele tempo, não havia internet e era preciso ir conferir as listas na própria USP ou em cursinhos, como o Objetivo, da Paulista. Apesar da ansiedade, não me aventurei em ir até lá. Eu não queria ser vítima de trote, porque sempre tive nojinho dessas misturas de farinha, ovo, tinta e outras melecas. Já não me lembro se alguém viu meu nome e me contou ou se tive o espírito zen de esperar pela publicação no jornal, no dia seguinte.

Faz vinte anos que entrei na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA/USP. A lembrança me veio à mente num desses sábados, enquanto treinava pelas ruas da Cidade Universitária. Vou à USP todo sábado para correr e nunca - nunca! - mais passei na frente da ECA.

Jovens estudantes, colegas acadêmicos, por favor, não se choquem com minha afirmação mas, de fato, a ECA foi, para mim, como aquela definição de sítio, de buggy ou de barco. Duas alegrias. Uma quando entrei, outra quando saí. Não vou dizer que o ensino era fraco, que os professores eram ruins, que a estrutura era falha. Eu simplesmente não me achei naquele lugar.

Por seu diminuto número de vagas, a ECA era formada pela elite da elite, ou seja, os alunos mais CDFs das melhores escolas. Ou seja, tudo filhinho de papai, inclusive eu. Então, ficava tudo muito sem nexo, para mim, ver aquele monte de boyzinhos, de Escort XR3 e Gol GTS na porta, discutindo os rumos da revolução lá dentro. Pior era a dinâmica do curso. Eu tinha prestado Jornalismo para exercitar minha escrita, aprender a fazer rádio e TV, e só me via às voltas com textos impenetráveis, que deveria ler à exaustão, e o fazia, porque não deixei de ser CDF, embora me sentisse mastigando areia a cada página devorada.

Fui aluna de professores excelentes, gente que dedicou a vida à carreira acadêmica e sabia, de fato, muito sobre comunicação social. Eu admirava, e admiro, a devoção
daqueles profissionais ao estudo detalhado da lingüística, da sociologia, da antropologia, da lógica, mas não conseguia me excitar com a idéia de passar um semestre, ou vários, tentando decifrar seus textos com vocação para esfinge. Hoje, admito, aquela areia duramente mastigada deve ter contribuído para a argamassa do meu conhecimento, mas como era duro, na época...

Tive dois ou três amigos na turma. Um deles talvez seja meu amigo mais íntimo até hoje, apesar de morar muito distante de mim. Os demais, gente que nunca me fez nada, sumiram na poeira do meu tempo, como eu na vaga lembrança deles. Na São Silvestre de 2006, enquanto corria pela Paulista, de repente divisei um ex-professor na multidão, assistindo à nossa passagem. Nossa, que incrível, pensei. Nunca mais vi esse cara, e de repente vejo-o na multidão, tão fora de contexto.

Findo o quarto ano, fui até a secretaria da escola para saber o que deveria fazer para pegar, e logo, o meu diploma. Informaram-me que tudo seria automático, após a colação de grau. Por mim, nem iria à tal cerimônia, mas a secretária me aconselhou a fazê-lo, porque eu precisava colar grau. Era regimento, burocracia, tinha que ir. Fui, sem fazer grande alarde na família. Mera formalidade. Peguei o diploma e nunca mais voltei à ECA, sem passar em frente nem em meus treinos semanais. Não acho que tenha me traumatizado, eu só não gostei de passar quatro anos lá. Por via das dúvidas, acho que vou continuar distante. De repente, numa olhadela à toa, ainda acabo virando uma estátua de sal.