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Faculdades dão "supletivo" para calouros
- Por Artigos
- Publicado 28/08/2008
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Nota:




Instituições privadas tentam compensar deficiências dos estudantes
oferecendo aulas básicas de português e matemática"Eu via "braço" com
s, "convicção" com x, "muito" com m no meio. Respostas não tinham pé
nem cabeça", diz professor universitário.
Em matemática, os estudantes aprendem a fazer contas básicas com frações, porcentagens, proporções e regras de três. Em língua portuguesa, as lições são sobre os acentos, sobre o plural e a grafia correta das palavras. Temas tão elementares como os listados acima, antes restritos à programação dos colégios, agora aparecem na grade curricular de faculdades e universidades particulares do país.
As instituições decidiram oferecer aulas de reforço depois de perceber que um número considerável de seus alunos sofre para acompanhar cursos de direito, letras, administração, engenharia. Mesmo tendo passado no vestibular e alcançado a educação superior, muitos deles estão despreparados. Às vezes, nem sequer dominam o bê-á-bá. "Os alunos são cada vez mais limitados.
Não conseguem seguir o curso, vão ficando para trás. Precisamos ajudá-los de alguma forma. Como um aluno de engenharia vai ser aprovado em cálculo se não sabe o básico do básico da matemática?", argumenta o professor Antonio Sylvio Vieira de Oliveira, que coordena as aulas de reforço de matemática da UnG (Universidade Guarulhos).
Na Grande São Paulo, também têm reforço os estudantes da Uniban (Universidade Bandeirante), da Uni Sant"Anna (Centro Universitário Sant"Anna) e da faculdade Alfacastelo. No Rio, a tendência é seguida por instituições como a UniverCidade (Centro Universitário da Cidade). Os universitários com as maiores deficiências vieram das escolas públicas.
A qualidade da rede de educação do governo é muito inferior à dos colégios particulares, como mostram as avaliações feitas regularmente pelo próprio Ministério da Educação. Soma-se a isso o fato de parte das escolas públicas adotar a chamada progressão continuada.
Por esse sistema, adotado pelas escolas do Estado e do município de São Paulo, as crianças e os adolescentes são aprovados automaticamente no fim do ano, mesmo que não tenham aprendido os conteúdos ensinados ao longo do ano.
Sem pé nem cabeça
Os professores universitários não ficam assustados com o nível dos calouros? "Eu não diria assustado, porque já estou acostumado com isso", responde o professor Yutaka Torritani, que dá aulas de matemática financeira no curso de administração de empresas da faculdade Alfacastelo, em Barueri (Grande São Paulo). "Mas fico pensativo, imaginando como está o sistema educacional lá atrás. Como pode uma pessoa chegar à universidade e não saber certas coisas?"
O professor da área de educação José Luís Simões, que hoje coordena os cursos de licenciatura da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), diz que não sente saudades dos três anos em que trabalhou em faculdades particulares de São Paulo.
O sofrimento maior, de acordo com ele, era corrigir as provas escritas. "Eu via "braço" escrito com s, "convicção" com x, "muito" com m no meio. Os caras emendavam "em frente" numa palavra só. De 20% a 30% das respostas não tinham pé nem cabeça.
O aluno não sabe pôr uma idéia no papel. Eu começava a ler e pensava: "Meu Deus, o que eu vou fazer com ele?"", exemplifica Simões. "Claro que aqui, numa universidade federal, você também encontra coisas bizarras, mas é um percentual reduzido, porque o vestibular é mais rigoroso."Revisão Também precisam recorrer às aulas de reforço os estudantes mais velhos.
São pessoas que decidiram cursar uma faculdade anos depois de terem terminado o ensino médio. É inevitável que os conteúdos escolares, mesmo os elementares, sejam apagados da memória com o tempo. De acordo com dados do Ministério da Educação, 44% dos novos universitários têm mais de 25 anos de idade.
As aulas de reforço de português e matemática são, de maneira geral, gratuitas e oferecidas fora do horário das aulas regulares. Às vezes o aluno vai ao reforço por decisão própria, às vezes a pedido do professor, que não gosta de perder tempo de aula fazendo revisão de temas primários.
Em certos casos, como no curso de letras da Universidade Guarulhos, o reforço é obrigatório e vale nota no boletim. Para os estudantes dos demais cursos da instituição, as aulas extras são opcionais. "Centramos no curso de letras porque é de lá que saem os futuros professores das nossas crianças", explica Mayra Elza Leffi, diretora do curso de letras da UnG. "Entende a gravidade? Não podemos continuar tendo professor com problema de ortografia.""Sem as aulas, eu abandonaria o curso", diz aluno
Aos 31 anos, o estudante do primeiro ano do curso de licenciatura em matemática Douglas Krebsky Cardoso é freqüentador assíduo das aulas de reforço oferecidas pela Universidade Guarulhos. Ele terminou o ensino médio numa escola pública, há mais de dez anos. "As aulas estão me ajudando.
Não me lembrava muito bem, por exemplo, das frações", diz ele, que assiste ao reforço duas vezes por semana, depois das lições regulares da universidade, no final da noite. "Colegas optam por ir para casa depois da aula. Eu fico, mesmo tendo trabalhado o dia todo. Meu objetivo é concluir bem a faculdade. Vale o esforço." Cardoso crê que não conseguiria acompanhar o curso se não fossem as aulas extras.
Em 2003, chegou a cursar engenharia em outra faculdade particular, mas se viu obrigado a abandonar o curso meses depois. Não conseguia acompanhar as aulas.
"Você investia seu salário inteiro ali, deixava de comprar
alguma coisa para você, e não aprendia nada, não conseguia se
desenvolver. Parecia que o professor ali na frente estava falando
grego. O negócio era desesperador", ele lembra. (RW)Cursos caros de
faculdades renomadas como FGV também têm aulas de reforço
Estudantes de faculdades renomadas como a FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas) e a ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) também têm aulas de reforço com conteúdo do ensino médio nos semestres iniciais do curso. Mas com vestibulares disputados e mensalidades salgadas -R$ 2.158 na FGV e R$ 1.836 na ESPM-, a matéria estudada não é tão básica, e serve para "nivelar" o conhecimento dos alunos e tornar as turmas homogêneas.
Assim, o professor pode ensinar temas mais aprofundados sem perder tempo com conceitos elementares. E o menor número de reprovações não desestimula os alunos. A ESPM foi a mais radical: fechou uma parceria com professores dos cursinhos pré-vestibulares CPV e Intergraus para darem aulas de matemática na graduação de administração em São Paulo.
O curso passou a ser obrigatório neste semestre, mas os alunos conseguem dispensa das aulas se acertarem 60% da prova de proficiência. Não há custo para fazer o curso, que dura de dois a três meses, no fim do qual o aluno faz uma nova prova; em caso de reprovação, assiste novamente às aulas no semestre seguinte.
"As matérias não são novidade, mas é preciso que o aluno as domine, pois servirão de base para novos tópicos", afirma Ivan Soida, professor de matemática do CPV Vestibulares. Segundo ele, no semestre passado, 60% dos alunos tiveram de fazer o curso de reforço.
Procurada, a ESPM confirmou a existência da parceria com os dois cursinhos, mas não deu detalhes do programa. A Escola de Administração de Empresas da FGV-SP também têm aulas extracurriculares de reforço em matemática e português, dadas pelos próprios professores da faculdade.
"O nosso vestibular já seleciona bem os candidatos", diz André Samartini, vice-coordenador da graduação. "Mas como o curso de graduação é exigente, encorajamos os alunos a assistirem às aulas extras". Para 2009, a instituição estuda implantar o teste de proficiência.
Educadores divergem sobre aulas de reforço Niskier diz que faculdade privada está interessada no dinheiro dos alunos, mesmo que sejam despreparados
Quem é o culpado pela existência de estudantes que chegam ao ensino superior sem o mínimo preparo intelectual? Educadores concordam que as deficiências têm origem na péssima qualidade dos colégios públicos do país, mas dizem que uma parte dessa culpa precisa ser jogada sobre as universidades e faculdades privadas. "O cara passa na frente da faculdade e é laçado para dentro.
Para passar no vestibular, é só assinar o cheque da primeira mensalidade. A maioria das faculdades faz isso, sem se preocupar se ele sabe alguma coisa ou não. O vestibular virou piada de mau gosto. É por isso que ninguém mais leva o ensino superior a sério", afirma Arnaldo Niskier, que ocupa a cadeira número 18 da ABL (Academia Brasileira de Letras).
Na opinião de Niskier, não é papel da universidade, com suas aulas de reforço em português e matemática, consertar as falhas do ensino básico. "A mudança tem de ocorrer de baixo para cima, e não contrário. Tem de começar pelas fundações.
A universidade tem, sim, de fazer uma seleção mais cuidadosa", afirma ele. "Quem ganhou com essa explosão de alunos semi-analfabetos fazendo universidade? As pessoas estão apenas ganhando dinheiro com o comércio da educação superior." Nos últimos anos, de fato, o ensino superior privado no Brasil passou por um boom. Entre 2000 e 2006, o número de instituições saltou de 1.004 para 2.022.
O sistema privado atualmente tem perto de 3,5 milhões de alunos matriculados em cursos presenciais. O ensino superior público também cresceu no período, mas em proporções mais modestas. Com a extensa lista de instituições à disposição, os estudantes não têm dificuldade para encontrar mensalidades que cabem no bolso.
Além disso, eles contam com incentivos do governo federal para entrar no ensino superior, como as bolsas de estudo do ProUni (Programa Universidade para Todos) e os "empréstimos" do Fies (Programa de Financiamento Estudantil).
Suplementação O ex-secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-92, na gestão Luíza Erundina) Mario Sergio Cortella diz que as aulas de reforço, que ele chama de "suplementação vitamínica", são necessárias. "Seria muito estranho se uma faculdade ignorasse que seus alunos têm uma lacuna de formação", afirma ele. "Não é uma questão meramente filantrópica.
O aluno que não acompanha o curso acaba desistindo. É um cliente a menos." As universidades rebatem as críticas. "Nós [se tornássemos o vestibular mais difícil] estaríamos indo com a própria legislação brasileira, que prega a inclusão.
Não posso excluir o aluno só porque não tem determinado conhecimento", afirma Magali Nascimento de Paula, que coordena as licenciaturas da Uni Sant"Anna (Centro Universitário Sant"Anna), instituição de São Paulo. "Se nós não dermos essas aulas [de reforço], o aluno deixa de estudar.
Não temos interesse em que ele pare. E tampouco temos interesse em aprovar um aluno sem condições, porque chega o Enade [avaliação aplicada pelo Ministério da Educação] e é um desastre", acrescenta ainda Miriam Bevilacqua, presidente do conselho de graduação da Uniban (Universidade Bandeirante), também de São Paulo.
O Ministério da Educação admite o duplo problema -escola pública fraca e faculdade particular pouco exigente- e diz que as aulas de reforço, diante dessa realidade, "não constituem em si um fato negativo grave".
"Cabe às instituições, se assim entenderem, caso o façam com competência, criar condições para que os estudantes consigam desenvolver conhecimentos, habilidades e competências específicas de um curso superior", disse à Folha, por e-mail, o secretário nacional de Educação Superior, Ronaldo Mota.
Em matemática, os estudantes aprendem a fazer contas básicas com frações, porcentagens, proporções e regras de três. Em língua portuguesa, as lições são sobre os acentos, sobre o plural e a grafia correta das palavras. Temas tão elementares como os listados acima, antes restritos à programação dos colégios, agora aparecem na grade curricular de faculdades e universidades particulares do país.
As instituições decidiram oferecer aulas de reforço depois de perceber que um número considerável de seus alunos sofre para acompanhar cursos de direito, letras, administração, engenharia. Mesmo tendo passado no vestibular e alcançado a educação superior, muitos deles estão despreparados. Às vezes, nem sequer dominam o bê-á-bá. "Os alunos são cada vez mais limitados.
Não conseguem seguir o curso, vão ficando para trás. Precisamos ajudá-los de alguma forma. Como um aluno de engenharia vai ser aprovado em cálculo se não sabe o básico do básico da matemática?", argumenta o professor Antonio Sylvio Vieira de Oliveira, que coordena as aulas de reforço de matemática da UnG (Universidade Guarulhos).
Na Grande São Paulo, também têm reforço os estudantes da Uniban (Universidade Bandeirante), da Uni Sant"Anna (Centro Universitário Sant"Anna) e da faculdade Alfacastelo. No Rio, a tendência é seguida por instituições como a UniverCidade (Centro Universitário da Cidade). Os universitários com as maiores deficiências vieram das escolas públicas.
A qualidade da rede de educação do governo é muito inferior à dos colégios particulares, como mostram as avaliações feitas regularmente pelo próprio Ministério da Educação. Soma-se a isso o fato de parte das escolas públicas adotar a chamada progressão continuada.
Por esse sistema, adotado pelas escolas do Estado e do município de São Paulo, as crianças e os adolescentes são aprovados automaticamente no fim do ano, mesmo que não tenham aprendido os conteúdos ensinados ao longo do ano.
Sem pé nem cabeça
Os professores universitários não ficam assustados com o nível dos calouros? "Eu não diria assustado, porque já estou acostumado com isso", responde o professor Yutaka Torritani, que dá aulas de matemática financeira no curso de administração de empresas da faculdade Alfacastelo, em Barueri (Grande São Paulo). "Mas fico pensativo, imaginando como está o sistema educacional lá atrás. Como pode uma pessoa chegar à universidade e não saber certas coisas?"
O professor da área de educação José Luís Simões, que hoje coordena os cursos de licenciatura da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), diz que não sente saudades dos três anos em que trabalhou em faculdades particulares de São Paulo.
O sofrimento maior, de acordo com ele, era corrigir as provas escritas. "Eu via "braço" escrito com s, "convicção" com x, "muito" com m no meio. Os caras emendavam "em frente" numa palavra só. De 20% a 30% das respostas não tinham pé nem cabeça.
O aluno não sabe pôr uma idéia no papel. Eu começava a ler e pensava: "Meu Deus, o que eu vou fazer com ele?"", exemplifica Simões. "Claro que aqui, numa universidade federal, você também encontra coisas bizarras, mas é um percentual reduzido, porque o vestibular é mais rigoroso."Revisão Também precisam recorrer às aulas de reforço os estudantes mais velhos.
São pessoas que decidiram cursar uma faculdade anos depois de terem terminado o ensino médio. É inevitável que os conteúdos escolares, mesmo os elementares, sejam apagados da memória com o tempo. De acordo com dados do Ministério da Educação, 44% dos novos universitários têm mais de 25 anos de idade.
As aulas de reforço de português e matemática são, de maneira geral, gratuitas e oferecidas fora do horário das aulas regulares. Às vezes o aluno vai ao reforço por decisão própria, às vezes a pedido do professor, que não gosta de perder tempo de aula fazendo revisão de temas primários.
Em certos casos, como no curso de letras da Universidade Guarulhos, o reforço é obrigatório e vale nota no boletim. Para os estudantes dos demais cursos da instituição, as aulas extras são opcionais. "Centramos no curso de letras porque é de lá que saem os futuros professores das nossas crianças", explica Mayra Elza Leffi, diretora do curso de letras da UnG. "Entende a gravidade? Não podemos continuar tendo professor com problema de ortografia.""Sem as aulas, eu abandonaria o curso", diz aluno
Aos 31 anos, o estudante do primeiro ano do curso de licenciatura em matemática Douglas Krebsky Cardoso é freqüentador assíduo das aulas de reforço oferecidas pela Universidade Guarulhos. Ele terminou o ensino médio numa escola pública, há mais de dez anos. "As aulas estão me ajudando.
Não me lembrava muito bem, por exemplo, das frações", diz ele, que assiste ao reforço duas vezes por semana, depois das lições regulares da universidade, no final da noite. "Colegas optam por ir para casa depois da aula. Eu fico, mesmo tendo trabalhado o dia todo. Meu objetivo é concluir bem a faculdade. Vale o esforço." Cardoso crê que não conseguiria acompanhar o curso se não fossem as aulas extras.
Em 2003, chegou a cursar engenharia em outra faculdade particular, mas se viu obrigado a abandonar o curso meses depois. Não conseguia acompanhar as aulas.
Estudantes de faculdades renomadas como a FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas) e a ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) também têm aulas de reforço com conteúdo do ensino médio nos semestres iniciais do curso. Mas com vestibulares disputados e mensalidades salgadas -R$ 2.158 na FGV e R$ 1.836 na ESPM-, a matéria estudada não é tão básica, e serve para "nivelar" o conhecimento dos alunos e tornar as turmas homogêneas.
Assim, o professor pode ensinar temas mais aprofundados sem perder tempo com conceitos elementares. E o menor número de reprovações não desestimula os alunos. A ESPM foi a mais radical: fechou uma parceria com professores dos cursinhos pré-vestibulares CPV e Intergraus para darem aulas de matemática na graduação de administração em São Paulo.
O curso passou a ser obrigatório neste semestre, mas os alunos conseguem dispensa das aulas se acertarem 60% da prova de proficiência. Não há custo para fazer o curso, que dura de dois a três meses, no fim do qual o aluno faz uma nova prova; em caso de reprovação, assiste novamente às aulas no semestre seguinte.
"As matérias não são novidade, mas é preciso que o aluno as domine, pois servirão de base para novos tópicos", afirma Ivan Soida, professor de matemática do CPV Vestibulares. Segundo ele, no semestre passado, 60% dos alunos tiveram de fazer o curso de reforço.
Procurada, a ESPM confirmou a existência da parceria com os dois cursinhos, mas não deu detalhes do programa. A Escola de Administração de Empresas da FGV-SP também têm aulas extracurriculares de reforço em matemática e português, dadas pelos próprios professores da faculdade.
"O nosso vestibular já seleciona bem os candidatos", diz André Samartini, vice-coordenador da graduação. "Mas como o curso de graduação é exigente, encorajamos os alunos a assistirem às aulas extras". Para 2009, a instituição estuda implantar o teste de proficiência.
Educadores divergem sobre aulas de reforço Niskier diz que faculdade privada está interessada no dinheiro dos alunos, mesmo que sejam despreparados
Quem é o culpado pela existência de estudantes que chegam ao ensino superior sem o mínimo preparo intelectual? Educadores concordam que as deficiências têm origem na péssima qualidade dos colégios públicos do país, mas dizem que uma parte dessa culpa precisa ser jogada sobre as universidades e faculdades privadas. "O cara passa na frente da faculdade e é laçado para dentro.
Para passar no vestibular, é só assinar o cheque da primeira mensalidade. A maioria das faculdades faz isso, sem se preocupar se ele sabe alguma coisa ou não. O vestibular virou piada de mau gosto. É por isso que ninguém mais leva o ensino superior a sério", afirma Arnaldo Niskier, que ocupa a cadeira número 18 da ABL (Academia Brasileira de Letras).
Na opinião de Niskier, não é papel da universidade, com suas aulas de reforço em português e matemática, consertar as falhas do ensino básico. "A mudança tem de ocorrer de baixo para cima, e não contrário. Tem de começar pelas fundações.
A universidade tem, sim, de fazer uma seleção mais cuidadosa", afirma ele. "Quem ganhou com essa explosão de alunos semi-analfabetos fazendo universidade? As pessoas estão apenas ganhando dinheiro com o comércio da educação superior." Nos últimos anos, de fato, o ensino superior privado no Brasil passou por um boom. Entre 2000 e 2006, o número de instituições saltou de 1.004 para 2.022.
O sistema privado atualmente tem perto de 3,5 milhões de alunos matriculados em cursos presenciais. O ensino superior público também cresceu no período, mas em proporções mais modestas. Com a extensa lista de instituições à disposição, os estudantes não têm dificuldade para encontrar mensalidades que cabem no bolso.
Além disso, eles contam com incentivos do governo federal para entrar no ensino superior, como as bolsas de estudo do ProUni (Programa Universidade para Todos) e os "empréstimos" do Fies (Programa de Financiamento Estudantil).
Suplementação O ex-secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-92, na gestão Luíza Erundina) Mario Sergio Cortella diz que as aulas de reforço, que ele chama de "suplementação vitamínica", são necessárias. "Seria muito estranho se uma faculdade ignorasse que seus alunos têm uma lacuna de formação", afirma ele. "Não é uma questão meramente filantrópica.
O aluno que não acompanha o curso acaba desistindo. É um cliente a menos." As universidades rebatem as críticas. "Nós [se tornássemos o vestibular mais difícil] estaríamos indo com a própria legislação brasileira, que prega a inclusão.
Não posso excluir o aluno só porque não tem determinado conhecimento", afirma Magali Nascimento de Paula, que coordena as licenciaturas da Uni Sant"Anna (Centro Universitário Sant"Anna), instituição de São Paulo. "Se nós não dermos essas aulas [de reforço], o aluno deixa de estudar.
Não temos interesse em que ele pare. E tampouco temos interesse em aprovar um aluno sem condições, porque chega o Enade [avaliação aplicada pelo Ministério da Educação] e é um desastre", acrescenta ainda Miriam Bevilacqua, presidente do conselho de graduação da Uniban (Universidade Bandeirante), também de São Paulo.
O Ministério da Educação admite o duplo problema -escola pública fraca e faculdade particular pouco exigente- e diz que as aulas de reforço, diante dessa realidade, "não constituem em si um fato negativo grave".
"Cabe às instituições, se assim entenderem, caso o façam com competência, criar condições para que os estudantes consigam desenvolver conhecimentos, habilidades e competências específicas de um curso superior", disse à Folha, por e-mail, o secretário nacional de Educação Superior, Ronaldo Mota.
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1 Comentário para "Faculdades dão "supletivo" para calouros" 
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disse isso em 04 Jan 2009 4:13:49 AM MDT
Realmente essas explicaco
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