Ler biografias de escritores amplia o leque para as possíveis interpretações de suas obras e, também, fornece pistas para melhor se compreender o diálogo entre a criação literária e o contexto no qual este ou aquele livro foi concebido. Com isso, o leitor abre seus horizontes ao singrar as centenas de páginas que tem à sua frente.

Lançado recentemente pela Ediouro, ?A Vida Secreta dos Grandes Autores?, de Robert Schnakenberg, promete revelar ?o que os professores nunca contaram sobre os famosos romancistas, poetas e dramaturgos?. Com ilustrações do cartunista gaúcho Allan Sieber, em formato semelhante ao de almanaque (?especialidade? da editora), o livro reúne histórias estranhas, lendas e curiosidades que envolvem a vida de nomes consagrados da literatura (a maioria de língua inglesa).

A obra, porém, peca pela superficialidade, e o autor procura dar mais ênfase aos detalhes sórdidos sobre os escritores. Apesar disso, o trabalho de Schnakenberg tem como mérito o fato de mostrar que os grandes gênios literários são pessoas como nós: humanos, demasiado humanos, com seus vícios e suas imperfeições.

?Este livro vai deixá-lo por dentro de todos os defeitos, fraquezas e fragilidades humanas sobre as quais talvez você não teve conhecimento na primeira vez em que encontrou esses gigantes literários, e esperamos que fique suficientemente intrigado para ler, ou reler, suas obras?, escreve Robert Schnakenberg, na introdução.

Sobrenome

Apesar das ?fofocas?, salvam-se informações interessantes como a existência de mais de 80 maneiras válidas de se escrever o sobrenome Shakespeare ? Shagspere e Shaxberd são duas das mais exóticas. Segundo o livro, o próprio William Shakespeare tinha dificuldade em manter o sobrenome correto.

?Ele o assinava de, no mínimo, seis maneiras diferentes e com uma grafia cada vez mais errática: Shackper (num depoimento, em 1612), Shakspear (numa escritura de 1612), Shakspere (numa hipoteca de 1612), Shackspere (na primeira página de seu testamento de 1616) e, finalmente, Shakespeare (na página 3 do seu último testamento.?

Schnakenberg inclui o curioso episódio de quando Oscar Wilde enfrentou uma séria concorrência pela mão de Florence Balcombe, sua primeira noiva. Seu rival foi ninguém menos que Bram Stoker, autor de ?Drácula?. Hóspede constante dos pais de Wilde, ele venceu o autor de ?O Retrato de Dorian Gray? na disputa pelo amor da moçoila.

?A Vida Secreta dos Grandes Autores? não é um título indispensável à sua biblioteca particular, mas garante bom entretenimento e algumas risadas.

O estranho mundo dos escritores

Lewis Carroll. Era maníaco por bugigangas e adorava inventá-las. Entre suas criações há uma caneta elétrica e um triciclo. Também foi dele a idéia de imprimir o título de um livro na lombada.

Mark Twain. Acreditava no poder de cura do jejum. Quando era atacado por um resfriado ou uma febre, ficava sem comer por dois dias ou mais, proclamando notáveis resultados curativos.

Arthur Conan Doyle. Espiritualista ardente, o escritor inglês acreditava que pequenas fadas aladas eram reais e poderiam ser encontradas se se olhasse com a força necessária.

H. G. Wells. Além de ter escrito obras clássicas da ficção científica, foi pioneiro em criar os primeiros jogos de guerra em miniatura ? muito embora ele afirmasse ser um pacifista.

Franz Kafka. Fez várias visitas a um spa para nudistas, mas recusava-se a tirar as calças. Os outros hóspedes referiam-se a ele como ?o homem com o calção de banho?.

Agatha Christie. Ela sofria de uma deficiência de aprendizagem chamada disgrafia, que a impedia de escrever de maneira legível e, por isso, precisava ditar todos os seus romances.

Lord Byron. Como recordação de suas ex-amantes, ele costumava guardar fragmentos dos pêlos pubianos de cada uma em envelopes, nos quais anotava os respectivos nomes.

Honoré de Balzac. O autor dizia que, ao fazer sexo, preferia não ejacular, temendo esgotar sua energia criativa. Certa vez, quando não pôde evitar, teria afirmado: ?Esta manhã eu perdi um romance!?

Leia

Robert Schnakenberg

A Vida Secreta dos Grandes Autores
Ediouro 312 páginas
Ilustrações: Allan Sieber
Tradução: Vitória Mantovani
Quanto: R$ 49,90, em média

Confira um trecho do livro:
Honoré de Balzac. Existe uma linha muito tênue separando a genialidade da loucura, como poderia atestar um dos companheiros de refeição de Balzac. O famosos naturalista e explorador prússio Friedrich von Humboldt certa vez pediu a um amigo psiquiatra que o apresentasse a um louco genuíno. O médico marcou um almoço com Humboldt, Balzac e um de seus pacientes. Como sempre, Balzac ? que estava encontrando Humboldt pela primeira vez ? apareceu todo desgrenhado, desarrumado, e ficou tagarelando durante toda a refeição. Conforme transcorria a conversa, Humboldt inclinou-se para o amigo e agradeceu por ele ter lhe apresentado um caso de loucura tão interessante. O psiquiatra teve uma reação de surpresa. "Mas o lunático é o outro", informou a Humboldt. "O homem para quem você está olhando é monsieur Honoré de Balzac!".
 
Edgard Allan Poe. Não
era de admirar que Poe tivesse medo do escuro. Ele foi educado em um cemitério ? literalmente. Quando freqüentou um internado na Inglaterra, sua classe ficava ao lado de um cemitério. Mesquinho demais para comprar livros didáticos, o professor dava aulas de matemática ao ar livre, em meio aos mortos que jaziam em seu sono eterno. Cada crianças era instruída a escolher um túmulo e, depois, a descobrir a idade do falecido fazendo a subtração do ano do nascimento e o ano da morte. As aulas de ginástica também transcorriam nesse mesmo ambiente agradável. No primeiro dia de aula, cada aluno recebia de presente uma pequena pá de madeira. Se um dos membros da paróquia morresse durante o semestre, as crianças eram enviadas para escavar a cova, praticando, dessa forma, revigorantes exercícios aeróbicos.
 
Charles Dickens. "Sou impelido ao necrotério por forças invisíveis", Dickens certa vez admitiu. Tratava-se do Necrotério de Paris, para ser exato, onde a exposição pública de cadáveres não-identificados ocorreu por todo o século XIX. Dicens tinha uma estranha fascinação pelo lugar. Era capaz de ir até lá por dias seguidos, obcecado com os cadáveres de andarilhos afogados e outros infelizes abandonados. Ele chamava de "atração pela repulsa" o sentimento que o invadia nesses momentos. Também era compelido a visitar as cenas de crimes famosos e a aprofundar-se nos detalhes de crimes sensacionalistas com uma curiosidade mórbida.
 
Lord Byron. Além das mulheres casadas e dos jovens rapazes, Byron adorava os animais. Em certa ocasião, a sua exótica coleção incluía cavalos, gansos, um texugo, uma raposa, um papagaio, uma águia, um corvo, uma garça, um falcão, cinco pavões, duas galinhas-de-angola e uma garça azul egípcia. Quando estudante em Cambridge, Byron manteve um filhote de urso em seu alojamento, como um atrevido protesto contra as regras da universidade, que proibiam cães nos dormitórios. Em uma de suas cartas, ele chegou ao ponto de sugerir que o seu companheiro uso de "candidatasse a uma bolsa de estudos".
 
J. D. Salinger. De acordo com sua filha, Margaret, Salinger bebia a própria urina, ao que tudo indica por motivos terapêuticos. A terapia pela urina tem sido praticada na Índia há mais de cinco milênios e dizem que possui efeitos fortemente curativos.