Não serão apenas prótons que irão se chocar no Grande Colisor de Hádrons (LHC), o gigantesco acelerador de partículas construído pela Organização Européia de Pesquisa Nuclear (Cern) nos arredores de Genebra (Suíça) ao custo de US$ 8 bilhões.

Além de reproduzir as condições físicas da criação do Universo (e, segundo alguns, gerar um buraco negro que poderia destruir a Terra), a maior máquina já construída confrontará as teorias de dois dos mais conhecidos cientistas da atualidade, os britânicos Peter Higgs e Stephen Hawking. E fará US$ 100 trocarem de mãos.

Higgs espera que o LHC confirme a teoria sobre a existência da partícula que leva o seu nome. Segundo a teoria do Modelo Padrão, toda a matéria do Universo é feita de 12 tipos de partículas subatômicas fundamentais, que não podem ser partidas em menores. Mas o modelo é incompleto. Não explica, por exemplo, porque a matéria tem massa.

O bóson de Higgs seria a misteriosa 13ª partícula que daria massa à matéria e comprovaria definitivamente a teoria do Big Bang, a grande explosão que teria dado origem ao Universo. No entanto, a existência desse bóson, também chamado de “partícula de Deus”, nunca foi provada. Se o LHC revelar a misteriosa partícula, Higgs, 79 anos, será definitivamente encaminhado para o Prêmio Nobel, distinção a que aspira também o seu rival, Stephen Hawking. Na semana passada, Hawking disse que seria “mais interessante” se o bóson de Higgs não fosse descoberto, porque isso levaria a uma revisão profunda da física atual.

Na última quarta-feira, quando os cientistas do Cern iniciavam os testes do LHC, Higgs confessava não ter lido o último trabalho de Hawking, no qual o professor de Cambridge tenta provar que a partícula de Deus nunca será encontrada – Hawking chegou a apostar US$ 100 em como o bóson de Higgs não existe. Mesmo assim, criticou o colega “por juntar teses sobre a gravidade de uma forma que qualquer físico especializado nas partículas teóricas desaprovaria imediatamente”.

– Do ponto de vista da física das partículas e do ponto de vista da física quântica, temos de pôr algo mais na teoria do que a gravidade, e não creio que Stephen Hawking o tenha feito. Tenho fortes dúvidas sobre seus cálculos – afirmou.

Numa entrevista ao jornal britânico The Times, Higgs refutou também os temores de que a experiência do Cern produza buracos negros que poderiam acabar engolindo a Terra inteira.

– Isso é besteira. Creio que algumas das pessoas que tentaram impedir a experiência, inclusive com requerimentos judiciais, deveriam ser mais sensatas. Sabemos que os buracos negros podem ser algo colossal no centro da galáxia, mas neste caso tratam-se de buracos negros minúsculos, que se evaporam rapidamente – explicou.

O Modelo Padrão é uma teoria elaborada a partir de estudos e descobertas feitos por centenas de físicos ao longo do século passado. Segundo a teoria, tudo o que existe é resultado da combinação de 12 partículas fundamentais.

Esses tijolos subatômicos, que não poderiam ser quebrados em pedaços menores, formariam a matéria e dariam origem às quatro forças que regem o Universo: o eletromagnestimo, a gravidade, a força nuclear forte (que mantém o núcleo do átomo unido) e a força nuclear fraca (que mantém o elétron girando em torno do núcleo do átomo).

Mas o modelo é incompleto. Não responde a perguntas como: "O que dá massa a essas partículas?" "Por que as partículas têm massa diferentes?" "O que é, de fato, massa?".

Uma pista para encontrar essas respostas é a provável existência de uma 13ª partícula, o bóson de Higgs, que seria responsável por agregar massa às partículas.

Esquema de forças e partículas fundamentais