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Qual vida existe em Marte?
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A GRANDE PROVA |
Foram pernas mecânicas que deram o maior e mais vigoroso passo da
ciência nos últimos tempos - as pernas da sonda Phoenix, da Agência
Espacial Americana (Nasa). A Phoenix caminhou sobre o solo do planeta
Marte e, nele, descobriu a existência de água.
E, porque fez-se água,
com ela veio novamente à tona a mais ambiciosa e recorrente questão que
apaixona astrônomos e biólogos de todo o mundo: há vida no Planeta
Vermelho? A resposta quase unânime dada por essa mesma comunidade é
sim.
Para se ter uma idéia da credibilidade científica da sonda e de sua
precisão tecnológica, ela, que estava condenada a ser desativada na
semana passada, ganhou sobrevida até o final desse mês e já rendeu à
Nasa mais US$ 2 milhões emergenciais autorizados pelo Congresso dos EUA
a pedido do próprio presidente George W. Bush para o prolongamento da
jornada.
Além disso, estão previstas três grandes missões-chave em
busca da vida marciana: as duas primeiras serão, respectivamente, em
2009 e 2018, ainda com robôs para coleta de material do solo, e a
terceira, então tripulada, deverá partir da Terra em 2030. O lastro de
todo esse investimento é justamente a descoberta, agora, de água
extraterrestre.
"Somos contemporâneos de uma nova era da humanidade. Saímos da teoria, entramos na prática. É alta a probabilidade de que haja vida em Marte", declarou o cientista número 1 da Missão Phoenix, Peter Smith, da Universidade do Arizona. "Acho que agora estamos na iminência de descobrir algo de fato impactante no sistema solar", diz o astrofísico do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo Eduardo Janot-Pacheco.
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"Quando falamos de vida em Marte é preciso entendê- la como
organização biológica de um sistema funcional auto-replicativo", diz a
bióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro Claudia Lage, Ph.D. e
especialista em radiobiologia e biofísica. Ou seja: quando se pensa em
vida em Marte, talvez bata certa incredulidade em alguns terráqueos
pelo fato de imaginá-la como somos nós, o nosso cachorro, nosso gato,
nosso vizinho ou nosso hamster de estimação.
Ocorre, no entanto, que há
microorganismos na Terra, sobretudo bacterianos, que nunca vimos e
provavelmente nunca os veremos, mas que estão aqui há bilhões de anos.
É justamente a partir da combinação do conhecimento sobre o gelo que a
Phoenix liquidificou em Marte com tudo o que já se sabe sobre esses
tais microorganismos em nosso planeta que os pesquisadores afirmam que
muito provavelmente exista vida - essa forma de vida - no subsolo
marciano.
É olhando microscópica e cientificamente para organismos que
sobrevivem e se reproduzem nas mais incríveis condições e nos mais
inóspitos ecossistemas da Terra que se estuda a vida no planeta
vizinho. "A simples detecção de água líquida aumenta exponencialmente a
chance de haver vida marciana. Se lá encontrarmos uma simples bactéria,
essa já será uma das descobertas mais importantes da humanidade", diz
Ivan Gláucio Paulino Lima, Ph.D. e um dos pioneiros no estudo da
astrobiologia no Brasil.
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A sonda Phoenix degelou em seu laboratório interno amostras do solo de Marte.
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Se praticamente são unânimes as opiniões sobre as condições
favoráveis de habitabilidade a Marte, quais seriam então essas formas
de vida extraterrestre que os cientistas pesquisam a partir da vida
microbiana na Terra? Mergulha-se, aqui, num universo apaixonante.
Trata- se de microorganismos, chamados extremófilos, que levam esse
nome porque vivem em situações incrivelmente extremas.
A Fossa Mariana,
o mais profundo ponto dos oceanos, é um exemplo com seus cerca de 11
mil metros de profundidade. Olhemos para ela e, depois, para Marte.
Nela, sempre é breu. Nela, a temperatura é sempre gelada. Nela, a
pressão é sempre altíssima. Pois bem, é também nela que vivem os
organismos classificados biologicamente como barofílicos.
Segundo o
cientista Alberto Lindner, pesquisador do Centro de Biologia Marinha da
Universidade de São Paulo, cerca de dois terços do que chamamos Terra
estão em "águas profundas, abaixo dos 200 metros." Mais: "Talvez seja o
lugar onde haja mais vida no planeta". Vale argumentar: e se as
condições ambientais marcianas forem ainda mais inóspitas com a
temperatura oscilando entre 140 graus negativos e 20 graus positivos?
Vale também a resposta científica dando conta de que, cá na Terra, os
microorganismos psicrófilos sobrevivem em temperaturas extremamente
baixas - aliás, somente nelas.
"Marte já esteve em condições físicas e químicas similares às que encontramos hoje na Terra", diz a bióloga Claudia. "Formas simples de organismos podem já ter surgido naquele planeta." Na verdade, os extremófilos (bactérias, arquéias e demais formas minúsculas de vida) estão no interior de vulcões ferventes, no imperceptível espaço entre rochas, nas profundezas de geleiras, em camadas radioativas da crosta terrestre - e por que não em Marte? Segundo o astrofísico Carlos Alexandre Wuensche, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), "não seria nenhuma surpresa se extremófilos como esses fossem encontrados fora da Terra".
Um das regras básicas de qualquer ciência é a de que o
contrário da verdade científica é o erro e, justamente por isso, toda
tese que se pretende metodologicamente séria nesse terreno questiona-se
a si mesma.
É como alguém que advoga em seu íntimo contra as suas
convicções para quiçá destruí- las ou, então, fortalecê-las ainda mais.
Não é diferente com a questão da vida fora da Terra. Aqui, dois pontos
são importantes.
O primeiro deles foi levantado pela própria Nasa e
trata da provável presença do oxidante perclorato no solo e subsolo
marcianos. Está-se falando de uma substância altamente corrosiva e,
claro, pode-se pressupor que ela impediria a existência de vida, mesmo
a de um hiper-radical extremófilo. O pressuposto é equivocado: no
deserto chileno do Atacama, por exemplo, há perclorato e diversas
espécies vivem nele, firmes e fortes - entre elas arbustos e cactos,
ratos, lagartos, cobras, vicunhas e nhandus.
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Ainda advogando-se contra a riqueza natural de Marte, ou seja,
contra as chances de lá ter-se originado vida, pode-se exibir o dado já
comprovado de que esse planeta é extremamente vulnerável a radiações -
sua proteção atmosférica é um papel de seda se comparada à proteção
atmosférica que temos. É aqui que entra em cena uma das mais incríveis
e maravilhosas formas de vida, a bactéria Deinococcus radiodurans.
Ela sobrevive sem a menor alteração até no interior de um reator
nuclear e atualmente os cientistas acreditam que tal bactéria também
esteja presente em Marte, uma vez que passa incólume pelo bombardeio
constante de radiação - resumindo, se o planeta não tem espessa
atmosfera para se proteger, ela, a Deinococcus, protege-se
biologicamente a si própria e sobrevive em qualquer ecossistema.
"É uma
bactéria hipoli- extremófila, resiste à pressão, à falta de nutrientes,
às baixas temperaturas e ao vácuo", diz Paulino Lima, que se dedica
quase exclusivamente ao estudo desse microorganismo em laboratório.
"Submetemos essa bactéria a uma linha de luz que produz espectro de
ultravioleta simulando a composição da radiação solar", diz o
pesquisador. "Ela é imune a tudo."
Resta lembrar que uma das hipóteses
para o surgimento da vida na Terra envolve justamente a Deinococcus,
que para cá teria migrado de algum ponto do espaço nas constantes
tempestades de poeira cósmica que ocorrem há bilhões de anos, uma vez
que resiste ao transporte no vácuo. Nada impede, então, que também em
Marte ela tenha algum dia estacionado. Assim, é provável, bastante
provável, que não estejamos sós no universo.
Descarte-se a hipótese de
um encontro com marcianas geladas, verdes ou platinadas. Admita-se, no
entanto, que essa superpoderosa bactéria possa ser nossa companheira na
espetacular imensidão em que vivemos.
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