Fomos educadose educamos para o sucesso. Ser o primeiro, ser o melhor, ser único, serperfeito. Falácias. Como conceber uma sociedade só de primeiros,melhores, únicos e perfeitos? É verdade, vá lá, podemos ser, sim, osmelhores em alguma coisa de vez em quando. Mas não em tudo sempre. Nãohá sucesso sem fracasso e  um não teria significado sem o outro.

Desconfio até que os tropeços ensinam mais que os êxitos. E todo oblá,blá,blá que você já conhece e que pode ser resumido assim: todosnós, um dia, vamos dar (ou já demos e muito) com a cara no muro e seránessa hora que saberemos quem somos de fato. Se aceitarmos a derrota,assumirmos a responsabilidade pelo ocorrido, poderemos crescer eseguir. A recusa, a fuga, a transferência, a busca de culpados nosparalisam e nos diminuem. Errar é mesmo o que nos faz humano. Negar oerro é tentar ser Deus e sofrer.

A escoladeveria nos mostrar isto: o erro não é bom nem mau, é apenas um fato davida, assim como o acerto. Mas não é isso que a escola faz. De maneirageral, a “repetência” é vista como um final infeliz, uma tragédia, umestigma. Aluno “repetente” é aluno problema, é diferente, é um casocomplicado. A progressão continuada pretendia eliminar esse fantasma.Apenas deixou de enxergá-lo. Sem reprovação, não há repetentes, masainda persistem, ironicamente, os reprovados, pois é isso que é umaluno de oitava série que não sabe escrever o próprio nome. Umreprovado pelo mercado de trabalho, pela sociedade, pela vida. 

Nasescolas da rede privada, não há a progressão continuada oficial, mashá, de maneira geral, uma oficiosa, que pressiona os professores aaprovar seus alunos. Há até coordenadores e diretores que deixam no aruma sugestão perniciosa: aluno reprovado é sinal de professorincompetente. Para evitar esse mal-estar: recuperações sem fim,avaliações sem desafios, um ponto a mais aqui, dois ou três ali, e oaluno vai seguindo. É o empurrãozinho. Empurrãozinho com a barriga.

Poroutro lado, os pais fazem de tudo para impedir que seus rebentos sejamreprovados. Os mesmos pais que, ao longo do ano, foram comunicadossobre as deficiências dos filhos e que não encontraram tempo nasagendas para comparecer a uma reunião de pais e mestres.

Quando recebema confirmação da reprova, surgem do umbral e exigem uma reconsideração,um favorecimento, onde já se viu! meu filhinho tão perfeito! Atéadvogados aparecem com leis, petições, ameaças. Há quem consiga, comapoio total dos órgãos de educação, mudar a decisão “soberana” doconselho de classe.

Por queessa luta para impedir que um aluno seja reprovado? Achava, em minhaeterna ingenuidade, que os motivos da família eram afetivos, algo comoum instinto de proteção: “com os meus não!”. A

té existe isso, mas oprincipal fator que leva à recusa da reprovação, ao menos no contextodas escolas particulares, é material: “eu não paguei um ano de escolapara nada”. Tanto que a ameaça-padrão feita pelos pais desesperados é:“se repetir, vai para uma escola pública”. Já  a  administração demuitas “empresas de ensino” vê a reprova  como sinônimo de evasão dematrículas. O aluno vai passando. E o ensino passando muito mal.

Háescolas que são exceção. Nelas, a repetência é a melhor ajuda que sepode dar a certos alunos. É um mecanismo que impede que alguém sem osrequisitos necessários mude de etapa e lhe garante a prerrogativa depercorrer aquele trecho novamente.

Nessas instituições, em vez deevitar a todo custo que o aluno seja reprovado, o que se faz é lutarcontra o preconceito em relação ao erro. São escolas que acreditam queum ano cursado novamente não é um ano perdido. É um ano ganho, se forvisto como uma chance de que aluno, pais e mestres reconheçam seuserros e acertos e possam mudar juntos. 

Escolas que tentam mostrar quena vida é preciso conviver com os erros próprios e de terceiros e queisso não precisa ser um problema.  Enfim, são educadores cientes de que“repetente” é apenas uma pessoa que exerceu seu direito de serreprovado.