Mundo Jovem: Que perspectivas de futuro o Ensino Médio oferece aos jovens, hoje?

Helena Singer: Há um problema grave do Ensino Médio: ele é pouco atraente ao jovem. Há um grande número de evasões e elas não são causadas pela falta de escolas na proximidade da residência e nem pela necessidade de trabalho, mas simplesmente pelo desinteresse. O que está sendo trabalhado na escola não conversa com a realidade do jovem.

Um desafio seria as escolas de Ensino Médio olharem para os jovens, ver seus interesses e, a partir desses interesses, trabalhar os conteúdos curriculares. Ouvir a opinião dos jovens, reabrir espaços de participação dele na gestão da escola.

Mundo Jovem: O ensino está muito voltado ao vestibular, esquecendo outras dimensões?

Helena Singer: Entendo o vestibular mais como um mito. Parece que tem que fazer a coisa sem sentido, simplesmente mecanicista, porque assim tem que ser para a pessoa passar no vestibular.

Na verdade, a pessoa que gosta de estudar, que sabe pensar por conta própria, com autonomia, tem muito mais capacidade de treinar para uma prova-teste, para o vestibular. Estará preparada em alguns meses ou em um ano, se for preciso. Terá mais facilidade do que a pessoa que foi treinada para isso desde sempre, que na verdade foi esvaziada do seu gosto pela aprendizagem.

Mundo Jovem: Como você fundamenta a educação para a autonomia?

Helena Singer: Os fundamentos básicos da educação democrática são a liberdade da pessoa escolher o que vai estudar, que trajetória de ensino e aprendizagem vai fazer e participar da discussão na autogestão. As pessoas, efetivamente, aprendem a ter voz nas decisões sobre os destinos da escola.

O fio da questão da autonomia é que ela só é desenvolvida pela prática, mas as pessoas não têm essa prática. Então a autonomia e a participação na escola com pessoas que ainda não têm de fato autonomia, precisam ser exercitadas.

Essa é a dificuldade de em qualquer projeto de autogestão, seja na escola ou qualquer outra instituição. Mas com a escola ainda é mais importante isto. Temos que fazer isto com a pessoa desde pequena. Talvez a maior dificuldade da pessoa, mesmo passando no vestibular, seja ficar na faculdade, porque nunca fez escolhas. Quando chega numa estrutura mais livre, quando tem que realizar, já não sabe mais o que quer fazer da vida. Então acaba saindo de uma faculdade para outra, porque nunca de fato exercitou o processo de escolha, que é fundamentalmente um processo de autoconhecimento: saber o que você quer, entender seus desafios, talentos e capacidades.

Mundo Jovem: E o jovem, quanto à preparação para o trabalho?

Helena Singer: Na população brasileira, o jovem já precisa estar trabalhando. Não só estar se preparando.
Aos 16 anos, o jovem já está no mundo do trabalho. Acho que isso coloca para a escola o desafio de ajudar o jovem a reconhecer, e não lutar contra. Não só uma visão de disputar o tempo do jovem. O tempo que ele está dedicando ao trabalho e dedicando ao estudo. Mas fazer essas duas questões conversarem. Trazer o tema do trabalho, não só teoricamente, mas na prática para dentro da escola; fazer uma articulação entre o mundo do trabalho e o currículo escolar.

Mundo Jovem: Como o jovem pode se preparar para o Ensino Superior?

Helena Singer: Ele tem dois desafios: tem que se preparar para o vestibular e nisso eu vejo que tem os mecanismos do auto-aprendizado. Desenvolver a capacidade de aprender qualquer coisa; treinar para os tipos de perguntas que caem no vestibular acho que é um desafio bem menor.

Estar preparado para dar conta do Ensino Superior, que é uma estrutura normalmente menos autoritária do que a escola de Ensino Médio. A pessoa tem mais opções, tem mais escolhas, envolve mais suas responsabilidades. Tem que estar preparada para isso.

Mundo Jovem: Aumentou bastante a escolarização no Brasil: é interessante ganhar em quantidade. E a qualidade do ensino, como fica?

Helena Singer: Acho que é um novo desafio. A nossa palavra de ordem, há dez anos, era “toda a criança na escola”. E acho que conquistamos essa demanda dos movimentos populares. Hoje existe um número bem maior de pessoas no Ensino Médio e quase a totalidade da população no Ensino Fundamental.

Mas temos que saber o que vamos fazer dentro das escolas: se de fato as pessoas estão aprendendo, se desenvolvendo ou sendo massacradas por um ensino sem significado, sem sentido ou que está tirando delas a capacidade de auto-aprendizagem.

Mundo Jovem: Os professores estão preparados para enfrentar as mudanças que aconteceram nos últimos anos?

Helena Singer: Acho que a escola não está preparada. As novas tecnologias fizeram uma revolução muito grande no conhecimento. É um instrumento que possibilita o auto-aprendizado e as novas gerações já estão aí, estão sabendo mais do que o professor em assuntos da informática. Então, muda um pouco a estrutura da relação professor-aluno e a estrutura da escola deveria se abrir mais para isso.

A escola deve se transformar com estes novos recursos e sair deste modelo bastante antigo que é o professor na frente, as carteiras enfileiradas, o professor com conteúdo para passar durante 50 minutos...

O professor é uma figura fundamental na sociedade. Agora que temos a maioria das pessoas freqüentando pelo menos a escola no Ensino Fundamental, todas relacionam-se com esta classe profissional. O contato das crianças com o professor é de uma importância imensa. Infelizmente não existe esse reconhecimento. E o próprio professor talvez não tenha consciência da sua importância, cumprindo o seu papel muitas vezes como se fosse simplesmente um emprego, de forma burocrática, sem sentido. Não valoriza, às vezes, o próprio papel que tem para desempenhar na sociedade.