Por: BBC Brasil e Uol Educação
A 230 km de Fortaleza, Sobral começou a implementar metas de desempenho
e estabelecer rotinas de práticas pedagógicas depois de constatar que,
como ainda acontece com 84,5% dos alunos brasileiros, as suas crianças
iam à escola, mas não aprendiam.
"Era aquela coisa: 'a gente
finge que dá educação, eles (alunos) fingem que recebem e tudo bem'",
admite a diretora da Escola Padre Osvaldo, Maria Lucilene de Lima.
Entre 2001 e 2007, o município quase dobrou (49,1% para 93,4%) o índice
de alunos da segunda série alfabetizados e se tornou modelo para o
Programa de Alfabetização Idade Série, implementado em todo o Estado do
Ceará.
"No início foi sofrido porque era uma mudança de
concepção, uma nova forma de fazer educação", lembra Lucilene, que na
última quarta-feira comemorava o fato de que apenas quatro dos 300
alunos do turno da manhã haviam faltado.
Sobral obteve 4,9 no
Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2007, contra 4
em 2005. O número ainda está distante da meta de 6 que o Plano de
Desenvolvimento da Educação propõe para 2022, mas está acima da média
nacional (4,2) e é bem superior à média do Nordeste (3,5).
"O
que a gente faz é cumprir o que está na lei (em relação à destinação de
recursos, 25% da receita municipal). Pode melhorar ainda mais", afirma
a coordenadora do ensino fundamental de Sobral, Iracema Souza.
Analfabetismo escolar
O
ponto de virada para o município cearense foi 2000, quando uma
avaliação mostrou que metade dos alunos (48%) da antiga segunda série
não conseguia ler sequer palavras, muito menos textos.
O
resultado desmoralizou os investimentos que vinham sendo feitos na
construção de novas escolas e levou o município a questionar o
desempenho que esses alunos teriam nos anos seguintes.
"No
início de 2001 uma avaliação identificou que 60% das crianças na
segunda série não sabiam ler, assim como 40% na terceira e 20% na
quarta. Estávamos diante de um fenômeno denominado de analfabetismo
escolar", afirma o secretário de Educação de Sobral, Julio Cesar da
Costa Alexandre.
As primeiras medidas foram a redução do
número de escolas para melhorar o acompanhamento de alunos e
professores e a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos,
mudança depois adotada em todo o país.
Metas
Na época,
Sobral instituiu 10 metas, sendo a primeira alfabetizar 100% das
crianças ao final dos sete anos e, a segunda, alfabetizar as crianças
que estavam no terceiro e quarto anos que também não estavam
alfabetizadas.
Para atingir as metas, foi formulada uma
política para fortalecer três eixos: gestão escolar, ação pedagógica e
valorização do magistério.
A blindagem da educação contra
indicações políticas e um rigoroso processo de seleção para diretores
ajudaram a melhorar a gestão. Para fortalecer a ação pedagógica, os
professores foram obrigados a voltar à sala de aula para estudar uma
vez por mês, num programa de formação continuada em que revêem
conteúdos e recebem material didático.
A professora do quarto ano Mariana Olbanha dos Santos, de 38 anos, diz que teve de mudar o seu jeito de dar aula.
"Alguns
tabus foram quebrados", diz Mariana, no intervalo de uma formação em
Língua Portuguesa. "A gente lecionava como tinha aprendido antigamente,
aquela coisa fechada, e isso vem mudando. A gente tem trabalhado de
maneira mais dinâmica."
Na estratégia de valorizar o
magistério, Sobral paga gratificações para professores com base no
desempenho da sua turma. Os que alcançarem a meta de alfabetização para
a sua série ganham R$ 100. Os que ficam abaixo, R$ 65 e os que a
ultrapassarem, R$ 130. Os salários, como em todo o país, são baixos: de
R$ 222,81 a R$ 989,62.
Não faltam avaliações para medir o
desempenho dos alunos. Só o município aplica duas por ano, fora as do
Estado e a nacional, feitas uma vez por ano.
Rui Aguiar,
técnico de projetos do Unicef (Fundo da ONU para a Infância), afirma
que é importante fazer a avaliação pelo menos duas vezes por ano para
que se possa fazer correções de um semestre para o outro, mas alerta
para o excesso de avaliações.
"O ideal é que no futuro esses instrumentos (municipal, estadual e nacional) sejam unificados."
Com reportagem de Carolina Glycerio