Por: Por Roberta Paduan - Exame
Em junho deste ano, 15 funcionários da prefeitura de Porto Alegre
passaram duas semanas nos Estados Unidos. Não, esta não é mais uma
daquelas histórias escandalosas de servidores públicos que fazem
turismo à custa do contribuinte. Nesse caso, servidores, todos
concursados, participaram de um treinamento na escola de negócios da
Universidade George Washington, na capital americana, uma referência
mundial na área de gestão pública.
Durante o curso, os alunos
assistiram a quase uma dezena de palestras sobre questões como o
impacto da globalização no setor público e o funcionamento de parcerias
público-privadas. Também visitaram várias instituições, entre elas o
Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial, onde
aprenderam como esses organismos funcionam e o tipo de financiamento
que oferecem a governos de todo o mundo.
A experiência teve um sabor
especial para os participantes: o do reconhecimento, algo raríssimo no
ambiente do funcionalismo. "Sou concursada há 19 anos e nunca tinha
feito um curso fora do país", afirma Viviane Maria Loss, pedagoga de 44
anos e primeira colocada na seleção dos funcionários premiados com a
viagem a Washington. "Além do aprendizado, não dá para negar o orgulho
de sermos reconhecidos pelo nosso trabalho."
A experiência da prefeitura
de Porto Alegre merece destaque justamente por se basear no conceito de
meritocracia, prática quase inexistente nos órgãos de governo
brasileiros. Viviane e os outros 14 servidores que participaram do
curso nos Estados Unidos formam uma espécie de tropa de elite da
capital gaúcha. Eles foram os primeiros colocados entre 131 inscritos
no Sistema de Reconhecimento e Capacitação, competição criada pela
prefeitura no início do ano com o objetivo de capacitar funcionários
com cargo de chefia.
Os que tiveram melhor avaliação foram premiados
com o curso de duas semanas em Washington, e os 20 seguintes foram a
Brasília para participar de um congresso de três dias sobre gestão
pública. "Foi uma satisfação receber esse grupo, por saber como e por
que essas pessoas chegaram aqui", diz James Ferrer, diretor do centro
para assuntos latino-americanos da Universidade George Washington.
"Sabíamos que o curso era um prêmio dado a pessoas avaliadas com base
em critérios objetivos, não por serem parentes ou afilhadas de algum
político."De fato, o grupo passou por uma maratona de provas.
Os 131
foram avaliados em três fases. Primeiro, pelo desempenho obtido em um
curso de gestão de projetos elaborado pela prefeitura em parceria com
entidades e escolas do setor privado: o Movimento Brasil Competitivo, o
Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade e a Escola Superior de
Propaganda e Marketing. A avaliação também considerou o desempenho das
áreas em que cada um trabalha. Por fim, todos foram entrevistados por
auditores de consultorias privadas especializadas em gestão.
Nessa
fase, os auditores testaram não apenas se os funcionários tinham
conhecimentos de gestão mas também se os aplicavam no dia-a-dia. "Um
dos grandes méritos desse sistema de avaliação foi a transparência em
todas as fases do processo", afirma Luiz Pierry, presidente do Programa
Gaúcho de Qualidade e Produtividade.
A maneira de aumentar a
transparência foi encontrada na parceria com as três entidades
independentes, que participaram desde a definição de quem poderia
entrar na competição até a forma de dar nota aos concorrentes. Uma das
regras estabelecidas foi que só profissionais concursados pudessem
participar. "O objetivo é que o conhecimento adquirido nos treinamentos
permaneça na prefeitura, o que não aconteceria se profissionais
comissionados participassem, pois eles vão embora quando o prefeito
muda", diz Pierry.
O Sistema de Reconhecimento e Capacitação de Porto
Alegre faz parte de um programa mais amplo, que começou a ser
implantado em 2005, de modernização da administração municipal. A
descrição das transformações e a maneira como elas foram realizadas até
agora são, no mínimo, surpreendentes.
"Pelo menos os conceitos e as
tecnologias de gestão estão afinados com o que há de melhor nas
empresas privadas", diz Carlos Arruda, professor da escola de negócios
Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. O primeiro passo das mudanças
foi a definição de três grandes objetivos para nortear os quatro anos
de mandato do atual prefeito José Fogaça. São eles: garantir o
equilíbrio das contas públicas, promover a inclusão social e fazer isso
tudo buscando a sustentabilidade ambiental.
A partir daí, foram
estabelecidos 21 programas estratégicos como meio de alcançar os
objetivos - todos geridos por funcionários de carreira. Esses 21
programas, por sua vez, desdobraram-se em mais de 470 ações de
trabalho, atreladas a metas e indicadores. Em suma, foi criado um mapa
estratégico, implantado por meio do que se chama balanced scorecard,
metodologia de gestão de estratégia elaborada pelos americanos David
Norton e Robert Kaplan e utilizada por muitas das maiores empresas
globais.
A adoção do sistema de mapa estratégico pela prefeitura tem um
valor adicional: o aumento da transparência que essa metodologia de
trabalho exige. Um dos elementos-chave é a divulgação do mapa para que
ele possa ser acompanhado por todos os envolvidos no trabalho - no caso
de Porto Alegre, o mapa está publicado no portal da prefeitura na
internet, aberto a qualquer pessoa.
As avaliações regulares, também
obrigatórias, são fundamentais para a elevação da transparência. A
evolução do mapa estratégico é acompanhada mensalmente, com notas dos
resultados de cada programa. Fora isso, a cada três meses os gerentes
dos projetos e os secretários municipais prestam contas ao prefeito, às
instituições e aos empresários que participaram da elaboração e do
financiamento do novo modelo de gestão. "Com esse tipo de exposição,
não dá para um secretário não se envolver com o batente e ficar apenas
fazendo política", afirma Pierry.
Entre os resultados mais visíveis da
mudança administrativa está a virada das contas de Porto Alegre, que
saiu de um déficit de 81 milhões de reais em 2004 e mantém superávit
financeiro há três anos, sem aumentar impostos. Com isso, a prefeitura
se habilitou a pedir empréstimos estrangeiros, como um financiamento de
83 milhões de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento,
destinado a ampliar o tratamento de esgoto na cidade.
"Nesse caso, o
eixo financeiro tornou possível a melhoria ambiental e de qualidade de
vida", diz Clóvis Magalhães, secretário de gestão e acompanhamento
estratégico.Virada de sinalUm resultado que só será computado no
próximo ano é o aumento do número de salas de aula com equipamentos
para ensino de crianças surdas, cegas ou com deficiência mental.
Em
agosto, o Ministério da Educação aprovou recursos para a criação de
mais dez salas desse tipo em 2009. A conquista foi resultado do curso
realizado na Universidade George Washington. "Durante a visita ao BID,
descobri que o programa do MEC destinado a aumentar a inclusão de
crianças com deficiência é patrocinado pelo banco", afirma Viviane
Loss, líder da ação responsável pela ampliação do atendimento escolar a
estudantes com necessidades especiais.
Assim que chegou ao Brasil,
Viviane entrou em contato com o ministério e, após algumas ligações,
recebeu a resposta de que teria recursos para cinco novas salas. Ela
não se satisfez: "Eu sabia que poderia reivindicar mais devido às
características da cidade e do nosso programa".
Após novas negociações,
Viviane recebeu a aprovação para o dobro de salas.É claro que Porto
Alegre não é um modelo acabado de gestão pública, e os próprios
servidores reconhecem isso. "Ainda temos muito a fazer e nem sabemos se
vamos continuar nos mesmos cargos quando a prefeitura mudar", afirma
Júlio Abrantes, gerente do programa Gestão Total, responsável pela
colocação em prática das mudanças de gestão.
"Mas a experiência que
adquirimos ao trabalhar no novo modelo torna mais difícil um retrocesso
na prefeitura." O que dá para afirmar, por enquanto, é que a cidade
começou a trilhar o caminho da modernidade da gestão pública - uma das
batalhas mais prementes que o Brasil terá de travar para ocupar um
lugar no mundo desenvolvido.