Por: Nádia Taman
O final
do ano letivo está chegando e nessa época, quem já fechou as notas se
prepara para curtir as férias. Enquanto isso, outros estão pendurados
em várias matérias e contando com a ajuda de todos os santos - e
professores - para passar de ano direto. Na pior das hipóteses, quem
está em situação crítica na escola pode contar com a recuperação, que
sempre compromete um pedaço das esperadas férias de final de ano.
Para sair dessa encrenca, é preciso muito comprometimento e dedicação.
Afinal, repetir de ano é uma daquelas coisas que provocam pensamentos
do tipo "ah, nunca vai acontecer comigo", mas, quem bobear, vai sofrer
consequências. Foi o que aconteceu com Bruno Félix, 20, que repetiu a
5ª série e o 2º colegial. Bruno, que hoje é estudante de Sistemas da
Informação, atribui a primeira repetência a alguns problemas
familiares. "Na época, meus pais estavam se separando, por isso faltou
suporte da parte deles. Eu não me importava em repetir e achava que
seria uma forma de retaliação", confessa.
Apesar dos problemas, a reação dos pais de Bruno não foi das piores.
"Houve uma conversa firme, em que decidimos para qual escola eu iria e
eles estabeleceram alguns castigos", lembra. Já a reação do colégio em
que Bruno estudava passou longe de ser compreensiva. Quando foi
reprovado, o estudante foi convidado a mudar de colégio. "Não aprovaram
minha rematrícula", diz.
E se da primeira vez, Bruno teve os seus motivos para repetir de ano, a
história da segunda reprovação foi bem diferente. "Foi displicência da
minha parte. Mas eu não esperava repetir, eu achava que estava fazendo
o suficiente", admite o estudante. No entanto, segundo ele, a direção
do colégio também teve uma parcela de culpa. "A escola não quis me
manter no 3º colegial porque tive três notas 5,9 e não houve
arredondamento", explica
As
conseqüências da segunda repetência, no entanto, foram mais graves para
Bruno. Quando tudo aconteceu, o estudante decidiu terminar o Ensino
Médio em um supletivo, que seu avô se comprometeu a pagar. "Eu decidi
que era melhor um supletivo para ´acabar logo´ e me prejudiquei na
faculdade porque eu não tinha muita base", conta. Mas, apesar de tudo,
Bruno não é só arrependimento quando o assunto é essa experiência ruim.
"Foi um ano que eu zoei muito, se eu voltasse no tempo, faria tudo
igual. Eu sou o que sou por esses episódios também. A pior conseqüência
foi o atraso. Eu já podia estar formado", lamenta.
A história de Eduardo Siqueira, 19, é parecida com a de Bruno. Ele
também repetiu dois anos, a 6ª série e o 1º colegial, e hoje está
esperando o começo do próximo ano para começar a faculdade de
Biomedicina. A primeira reprovação aconteceu por causa do excesso de
faltas, um motivo simples e que pode ser facilmente evitado. "Foi falta
de responsabilidade da minha parte", admite.
Já na
segunda vez, o estudante diz que a culpa da repetência foi das más
influências. Ele chegou a tentar reverter a situação com a recuperação,
mas não foi suficiente. "Lembro que meu pai disse ´a vida é sua, o
futuro é seu´ e minha mãe chorou bastante. Fiquei muito chateado por
isso", conta. Para Eduardo, o arrependimento é inevitável. "Em termos
profissionais, me arrependo muito. Poderia ter terminado com 17 anos",
lamenta o estudante, que só se formou no Ensino Médio aos 19.
Diversão x Aprendizado
É normal que, durante a época em que se freqüenta a escola, o estudante
esteja sempre dividido entre aprender e se divertir. Afinal, por mais
que se diga que "escola é lugar de estudar", é lá que estão os melhores
amigos. Mas, é preciso tomar cuidado para não misturar as coisas e
acabar na pior.
Por exemplo, conversar em sala de aula enquanto copia matérias do
quadro e falar com os amigos nos intervalos entre as aulas são coisas
extremamente saudáveis. Até porque a escola não quer ter múmias como
estudantes e sim, adolescentes normais. Porém, ao cabular aulas e
conversar em sala de aula, inclusive durante as explicações dos
professores, os alunos passam dos limites.
Essas atitudes parecem pequenas, mas podem fazer a diferença no final
do ano. Afinal, quem cabula acumula faltas e quem não presta atenção
nas aulas, fica com uma defasagem, às vezes irreversível, no ensino.
Para conciliar aprendizado e diversão, Bruno dá uma dica simples: "Faça
as tarefas e trabalhos e depois vá sair para um rolê. A
responsabilidade tem que vir antes". Eduardo também segue a "filosofia
de vida" de Bruno e diz que o importante é "saber a hora certa de
conversar e a hora certa de prestar atenção nas explicações durante a
aula".
Mas, não adianta dizer que ser um aluno, pelo menos, regular é fácil.
Janaína Medeiros, 16, se considera "nerd" e assume que ir bem na escola
não é tão simples assim. "Tem que prestar atenção na aula, anotar tudo
o que o professor fala, fazer os trabalhos e as lições com antecedência
e sempre tirar as dúvidas em sala de aula", ensina Janaína. "Cabular,
nem pensar!", conclui a estudante.
Outra dica de Janaína é prestar atenção nas suas companhias na escola.
"Sabe aquele ditado ´diga-me com quem andas e te direi quem tu és´?
Então, é assim que funciona. Você pode até ter amigos que gostam de
cabular e fazer bagunça, o importante é você fazer aquilo que acha
certo", diz a estudante.
A repetência e seus motivos
Segundo o pedagogo Felippe Tribbuzzi, os motivos que levam à repetência
são muitos e podem aparecer correlacionados. Confira os principais:
• Professores que não estão bem formados para uma pedagogia e uma didática mais próxima da realidade do aluno.
• Professores desatentos aos perfis diferenciados dos alunos dos dias de hoje.
• Imaturidade do aluno para cursar a próxima série.
• Problemas familiares.
• Baixa auto-estima do aluno e dificuldade de se relacionar com os amigos.
• Uso de drogas.
• Excesso de faltas.
Se o estudante estiver com algum desses problemas, os pais podem
intervir e conversar com a direção da escola. Nos colégios
particulares, onde a taxa de repetência é quase nula, existe um suporte
aos alunos com dificuldade de aprendizagem que ajuda bastante. "O
acompanhamento dos alunos com dificuldades de aprendizagem é
intensificado em termos pedagógicos, compartilhado com as famílias e
especialistas de todas as áreas. Faz-se de tudo para que o aluno
aprenda e não seja reprovado", diz Felippe.
Já nas escolas da rede pública de ensino, a existência desses programas
de apoio ao aluno é muito rara. Talvez, isso explique porque a taxa de
repetência nas escolas públicas atinge o alto índice de 21% no Brasil.
"Essa taxa é ainda mais significativa pelo fato de que algumas redes -
como São Paulo e Minas Gerais - aderiram ao sistema de progressão
continuada, em que o aluno só repete ao final de cada ciclo", explica o
pedagogo.
De acordo com Felippe, os pais só devem apelar para as aulas
particulares, que custam entre R$ 25,00 e R$ 60,00 por hora/aula, em
situações extremamente críticas. "Só é recomendável contratar um
professor particular em caso de emergência ou quando a escola não der o
suporte que o aluno precisa", aconselha.