Universitários sem tempo ou competência para fazer o trabalho de conclusão de curso estão recorrendo a uma alternativa ilegal para colocar o diploma na parede da sala. Eles compram uma monografia pronta e cometem crime de falsidade ideológica, que pode resultar em pena de até cinco anos de prisão, de acordo com o artigo 299 do Código Penal Brasileiro. A compra é feita pela internet.

Na prática, no entanto, a história é bem diferente. Quando a fraude é descoberta, a punição quase sempre se limita à reprovação do aluno. Em situações mais graves, o estudante é expulso.Até o governo federal lava as mãos. O Ministério da Educação (MEC) se mantém distante desse problema.

Segundo o coordenador de Orientação e Controle da Educação Superior do MEC, Jorge Augusto Gregory, a pena mais grave seria a expulsão.- Cabe ao professor-orientador e à banca examinadora não aprová-lo. Não é o MEC que tem que apurar ou aplicar penalidade - afirma.

É impossível saber quantos profissionais ingressaram no mercado de trabalho burlando o sistema educacional no país. Dentro das universidades, os professores estão mais preparados para combater casos de plágio com o auxílio da internet.

Basta colocar um trecho da monografia sob suspeita no "Google" (site de buscas) para saber se a pesquisa foi feita por outro autor. Porém, para alguns professores, a venda de trabalhos inéditos é novidade.A inexistência de uma lei específica que proíba a prática e a possibilidade de lucro rápido incentivam a multiplicação de ofertas pela internet.

- A empresa que comercializa monografias não está cometendo delito. Isso seria contra a moral, mas não seria um crime", diz o advogado Carlos Vieira Cotrim, especializado em direitos autorais.Dezenas de sites são encontrados com facilidade pela rede, anunciando serviços de venda de monografias, trabalhos escolares, dissertações e teses de mestrado.

"Ela pensou que ia se dar bem"A professora Maria Aparecida Caltabiano, do curso de Letras da PUC, descobriu recentemente um caso de fraude. No primeiro semestre, ela desconfiou do trabalho de conclusão de uma aluna.- Ela pensou que ia se dar bem com um trabalho comprado.

Estava querendo me enganar - diz a professora, com 20 anos de experiência.Maria Aparecida conta que a estudante alegou dificuldades para escrever o projeto e decidiu mudar de tema.Quando a aluna apresentou uma prévia do trabalho, a professora ficou alerta.- Ela trouxe um trabalho com uma linguagem diferente, e eu lhe enviei um e-mail perguntando por que ela tinha mudado de estilo.

Aí ela escreveu se desculpando, dizendo que tinha pago R$ 700 por aquele trabalho - lembra.Maria Aparecida admite que nem sempre é possível descobrir a fraude.- Às vezes a gente percebe que não foi o aluno quem fez, mas não tem como provar. Aí ele se forma mesmo assim.

Como funciona o esquemaO "Diário de S.Paulo" se aproveitou do anonimato da internet para obter informações, como se fosse um universitário prestes a concluir um curso de ensino superior. Em seguida, foram feitos contatos telefônicos - todos gravados. Um relatório dos diálogos com os atendentes das empresas foi entregue ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público.Com R$ 400, é possível comprar um trabalho de 40 laudas.

Se para alguns alunos é uma pechincha, em troca da "garantia" de erguer o canudo sem ter escrito uma linha, representa um prejuízo incalculável para a educação no país.A promessa de um produto de qualidade seduz os estudantes, assombrados pelo fantasma de produzir um texto longo e bem embasado.

Em alguns casos, as empresas oferecem até mesmo CNPJ para convencer o cliente de sua "seriedade".Os sites ainda fazem campanha contra o plágio para transmitir a idéia de que seus trabalhos são exclusivos e inéditos. É uma isca para atrair clientes, com a promessa de que o texto será feito por mestres especializados no assunto da pesquisa.

Identificados como "elaboradores", eles são recrutados com anúncios no próprio site.O responsável pela produção da monografia
é uma espécie de "ghost writer" (escritor-fantasma em inglês). A relação com o cliente é intermediada pelos atendentes. Não há contato direto com os "elaboradores", que ficam protegidos pelo anonimato.O repórter do Diário acertou a compra de monografias com duas empresas.

O primeiro acordo foi com o site "Monoweb". Na negociação, ficou combinado o pagamento de uma parcela de R$ 200, referente à metade do trabalho. Mas após o depósito ser efetuado, em um novo contato telefônico, a atendente se desesperou ao ser questionada se a prática constituía crime de falsidade ideológica e decidiu desfazer o negócio.

Ela pediu os dados da conta do cliente e devolveu o dinheiro.O negócio foi fechado com a "Monografias On Line." O repórter se fez passar por estudante e aceitou pagar R$ 153, um terço do valor total, como sinal. Depois da confirmação do depósito, a empresa forneceu um login com senha para acesso ao site.

A ferramenta possui caixa de mensagens e um chat para conversar com o "elaborador."O repórter pediu a entrega de uma prévia até 1 de outubro, mas o esboço só veio com uma semana de atraso, após o "aluno" alegar que estava sendo pressionado na faculdade.

O "elaborador" do trabalho se identificou como Wesley Ribeiro. Apesar de não ter sido encontrado para bate-papo nas duas semanas entre a compra da monografia e a publicação da reportagem, ele enviou três mensagens para dizer que estava produzindo o material.A prévia tinha modelos de capa, introdução, sumário e resumo.

E até um modelo de agradecimento: "De um modo muito especial ao Professor (espaço para o nome), que me orientou na conclusão deste trabalho." Mas só uma página de conteúdo, e ainda com erro de português.