O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pode deixar de cumprir a sua principal função – avaliar o sistema de ensino público, por meio do desempenho dos alunos que concluem essa etapa de formação. A ameaça é representada pelo surgimento de cursinhos preparatórios para o exame, o que poderá mascarar o real aproveitamento dos estudantes.

O interesse pelos cursinhos é justificável, já que o bom desempenho dos candidatos pode garantir bolsas no Programa Universidade Para Todos (ProUni). Desde 2004, os estudantes que ingressam no ProUni têm o curso universitário em faculdade particular custeado integral ou parcialmente (50%), em troca da isenção de impostos oferecida pelo governo federal às instituições que optam por aderir ao programa.

Em Curitiba, o surgimento dos cursinhos ocorreu neste ano. Uma turma experimental foi formada com 15 alunos do curso Evidente e agora a instituição já se prepara para consolidar a oferta a partir de janeiro de 2009. Já o grupo Uninter, com sede na capital, apostou na modalidade de educação à distância para atender quem vai fazer o Enem. Na primeira experiência participaram 1,5 mil alunos em 100 cidades diferentes. Os cursos são livres, ou seja, não necessitam de certificação nem reconhecimento do Ministério da Educação para funcionar.

Na opinião da mestre em Educação e Conhecimento Eliane Zayons, conselheira do Conselho Municipal de Educação de Curitiba, a partir do momento em que os estudantes buscam complementação, não é possível ter uma avaliação fidedigna das instituições. “Se os alunos buscam esses cursos, o resultado acaba sendo influenciado. Não é possível uma visão global da instituição”, afirma. Zayons não é contra a utilização do resultado do Enem para o ingresso nas universidades. “Vejo esse movimento como positivo. É um esforço conjunto em busca da qualidade”, afirma.

Participar de um curso preparatório para o Enem foi o meio encontrado por Tamara Corbane, 17 anos, e Aína Lopes, 17 anos, para aumentar as chances de garantir vaga na faculdade. No 3º ano do ensino médio do Colégio Estadual Doutor Xavier da Silva, de Curitiba, as duas fizeram o cursinho durante dois meses e meio e depois se submeteram à prova do Enem, que ocorreu em agosto. O resultado individual do exame só será divulgado em novembro. “O curso agrega conteúdo e por isso é válido. Ele aumenta a chance de entrar na faculdade”, diz Aína, que vai tentar uma vaga para o curso de Educação Física.

As duas amigas discordam que um cursinho para o Enem possa mascarar a percepção sobre a qualidade da educação que receberam. “A nossa escola é muito boa; o ensino é semelhante ao oferecido por uma particular. E não aprendemos nada de novo no cursinho. Foi uma revisão de conteúdos e também mostrou como é a elaboração da prova do Enem”, diz Tamara, que vai tentar uma vaga em Economia.

O cursinho do Enem também serviu como uma revisão para Franciele dos Santos, 23 anos, que está afastada dos bancos escolares desde o ano passado. “Foi bom porque ganhei mais confiança. Em casa, sozinha, não teria um apoio para tirar minhas dúvidas”, diz. A aluna vai fazer vestibular para Administração.

Os coordenadores das instituições que oferecem cursos preparatórios para o Enem só vêem aspectos positivos na iniciativa. O diretor do Evidente, César Frank, defende que fazer um curso preparatório não garante uma nota maior ou menor. “Quem faz o cursinho pode levar mais vantagem não só no Enem, mas até num vestibular, pois terá mais conhecimento”, diz. Opinião semelhante tem a coordenadora do cursinho para o Enem no grupo Uninter, Paula Renata Ferreira. “O nosso ensino público, infelizmente, não oferece a interdisciplinaridade cobrada no Enem. Não vejo como prejudicial um curso que ajude quem estudou numa escola pública a entrar numa faculdade”, diz.

Inep não vê problema em cursinhos

Com a criação de cursinhos preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a finalidade da prova – que é avaliar os estudantes quanto ao conhecimento adquirido – pode estar comprometida. Mesmo assim, o coordenador do Enem, Dorivan Ferreira Gomes, di acreditar que não há problema algum nos cursinhos.“O exame avalia toda a educação básica e é impossível que um estudante aprenda tudo apenas nesse pequeno período de aulas preparatórias. São 12 anos de estudo que não podem ser resumidos em poucos meses.

O Enem exige também conhecimento de mundo e por isso acreditamos que ele vai continuar fazendo uma boa avaliação dos estudantes”, diz. O exame é feito pelo Instituto Nacional de Pesquisa e Estudos Educacionais Anísio Teixeira (Inep).