Está menos complicado ser jovem no Brasil. O mérito é da própria gurizada, que está mais consciente da importância dos estudos. Além de meter a cara nos livros, a turma da faixa etária dos 15 aos 29 anos (50,2 milhões de brasileiros) também arregaçou as mangas e foi à luta, atrás de uma vaga no mercado de trabalho.

O legal é que encontraram emprego com carteira assinada. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2007 (Pnad 2007) comprovam que, de 1992 para 2007, as condições de vida juvenil têm melhorado em diversos quesitos: da formalização do trabalho ao nível de escolaridade, passando pela redução das desigualdades entre brancos e negros e homens e mulheres.

Mas nem tudo é festa. A psicóloga clínica Melina Zilli alerta para as incertezas que aparecem no meio do caminho. “A pesquisa passa a noção de que os jovens estão tendo facilidades, mas o que notamos na sociedade pode ser uma visão aparente. Toda a liberdade, o acesso ilimitado a informações e à compreensão dos pais podem formar jovens com pouca iniciativa, pressionados e com dificuldades para traçar o próprio caminho, sem vontade de deixar de lado a proteção da família.’’

Se quando nossos pais eram jovens, a preocupação era arranjar trabalho para constituir família, hoje, a vontade de largar a barra da saia da mãe e ser dono do próprio nariz faz com que muitos jovens apostem nos estudos e não percam tempo na corrida por uma vaga no mercado de trabalho. E tem pai que faz das tripas coração para pagar os estudos dos filhos. “Agora, os jovens estudam mais com intuito de conquistar a liberdade, a independência. Para isso, precisam arrumar um emprego, o que também demanda uma formação qualificada. Não basta concluir o ensino médio, tem que partir para outra formação mais específica’’, orienta Melina.

Prova disso é a escolaridade, que aumentou em um período de dez anos e está maior do que a média nacional (7,2 anos de estudo). Em 1997, a média de anos de estudo do jovem era de 6,8 no grupo de 18 a 24 anos; em 2007, subiu para 9,1.

Trabalho

Dos 50,2 milhões de jovens, aproximadamente 4,6 milhões encontram-se desempregados. Dados da pesquisa mostram que houve um aumento do número daqueles que estão postergando a entrada no mercado de trabalho. O adiamento, em alguns casos, pode significar falta de oportunidade. Muitas empresas querem pessoas com qualificação e experiência, o que é uma pedra no caminho da rapaziada. “O mercado cobra demais e é preciso investir na formação. Por outro lado, os jovens são pressionados a descobrir o que querem fazer da vida cada vez mais cedo. Isto acaba prejudicando o desempenho’’, opina a psicóloga. Outra questão importante é a redução do preconceito racial. Segundo Melina, os negros estão conquistando o seu espaço e não baixam mais a cabeça diante dos problemas de percurso.

Fique por dentro

Quem entrou na pesquisa

- A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2007 (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levou em conta os temas juventude, raça e educação. Considerou-se como jovem pessoas na faixa etária entre 15 a 29 anos de idade, divididos em três grupos:

- de 15 a 17 (jovem adolescente)
- de 18 a 24 anos (jovem-jovem)
- de 25 a 29 anos (jovem adulto)

Alfabetização

- O analfabetismo na população de 15 anos ou mais caiu 7,2 pontos percentuais em 15 anos. De 17,2% em 1992 para 10% em 2007
- A população com 40 anos de idade ou mais registra hoje a mesma média brasileira dessa faixa etária 15 anos atrás: 17,2% de analfabetos
- Houve redução do número de analfabetos em todas as regiões, raças e faixas etárias. Mas o Brasil rural, aquele pessoal que mora em localidades distantes dos grandes centros, que correspondem a 23,3% da população, é quase seis vezes mais analfabeto que o Brasil urbano (4,4%). Outra situação ruim afeta a população negra. É a que mais sofre com o analfabetismo (atinge 14,1%), enquanto na branca aparece em 6,1%

- Até 2007, apenas a região Sudeste havia atingido a média de oito anos de escolarização de sua população, número mínimo obrigatório estabelecido pela Constituição Federal de 1988. Entre a população urbana, a taxa média é de oito anos e meio; na rural, quatro anos e meio. Já a população negra tem, em média, dois anos a menos de estudo que a branca. Os negros ficam seis anos e quatro meses na escola, enquanto os brancos, 8,2 anos

Números

- O Brasil tem 50,2 milhões de jovens (26,4% da população)
- Cerca de 14 milhões desses jovens, na faixa etária entre 15 a 29 anos, são pobres. Ou seja, vivem em famílias com renda familiar per capita (por indivídio) de até meio salário mínimo
- Entre os que têm de 15 a 17 anos, apenas a metade freqüenta o ensino médio
- Ainda que o problema da defasagem escolar seja preocupante, a taxa de freqüência na faixa de 15 a 17 anos quase duplicou no período de uma década
- Cerca de 4,6 milhões de jovens estão desempregados

Desigualdade

- A Pnad-2007 mostra que a desigualdade de renda vem caindo, mas se ficar no ritmo atual, brancos e negros só vão ter igualdade de renda no Brasil em 2029
- Os brancos ainda vivem com mais que o dobro da renda disponível, na média, em relação aos negros, mas já houve melhora desde 2001

Eles só querem uma chance Roberta Lemes

Há dez dias a leopoldense Camila dos Santos de Jesus,
20 anos, perdeu o emprego de auxiliar de estoque em um supermercado. O quadro de funcionários precisava ser enxugado e sobrou para a mais nova da turma. Com pouca experiência – só havia feito estágios antes – a garota bateu perna durante mais de um ano até conseguir voltar ao mercado de trabalho. “E olha que tenho 2.º grau completo.

Estava cursando técnico em enfermagem, mas agora tranquei porque não vou poder pagar a mensalidade’’, reclama. “Os patrões exigem, mas ninguém dá oportunidade. Como vou ter anos de experiência se tenho pouca idade e não consigo uma chance?’’ E olha que Camila faz parte de um percentual privilegiado. No Brasil, somente metade dos 50,2 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos (que correspondem a 26,4% da população total) freqüentou ou ainda cursa o ensino médio. “Estes números tendem a melhorar’’, acredita a coordenadora do Sistema Nacional de Empregos (Sine) de São Leopoldo, Edialeda Stimamiglio. Ela compara esse processo a um círculo vicioso. “Os jovens estão muito consumistas. Se querem comprar, precisam de dinheiro. Se precisam de dinheiro, é necessário que trabalhem. Para conseguir se colocar no mercado, cada vez mais, é preciso estudar.’’

Escolaridade no Sul é de 7,5 anos

Na contramão de Camila, mas na mesma situação de desemprego está Lucimara da Silva. Aos 23 anos, estudou só até a 8.ª série. Parou aos 16 porque ficou grávida e casou. Faz quatro anos que se separou, mas para voltar à rotina de aulas e somar as funções de dona de casa e mãe ficou difícil. Mais complicado ainda está sendo retornar ao mercado de trabalho. “Vivo na casa de amigos e o dinheiro que recebo de pensão não está dando conta. Agora tenho sentido os efeitos de não ter persistido na escola. Onde quer que eu vá pedem, no mínimo, 2.º grau completo.’’

Mesmo enfrentando dificuldades na hora de conseguir emprego, Lucimara ainda está dentro do índice de escolaridade previsto por lei. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2007) revelam ligeira ampliação no número médio de anos de estudo da população de 15 anos ou mais. Para todas as regiões brasileiras houve aumento de um ano em relação a 2006. Na região Sul, a média é de 7,5 – pouco menos que a escolarização mínima obrigatória de oito anos, estabelecida pela Constituição Federal de 1988.