Contagem regressiva para quem sonha em cruzar os portões de entrada da
universidade: faltam 30 dias para o Processo Seletivo Seriado (PSS)
2009 da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Para as outras dezenas
de vestibulares de todo o país, também restam pouquíssimas semanas, o
que gera ansiedade, nervosismo e pressão nos vestibulandos – que podem
colocar tudo a perder nesta reta final.
Para ajudar o candidato a concentrar o foco e tirar o melhor proveito
dos últimos dias que antecedem a prova, o JORNAL DA PARAÍBA começa hoje
a sua série Vestibular 2009. A primeira matéria reúne dicas de
professores, pedagogos, nutricionistas e de outros vestibulandos, para
uma preparação eficiente para o “fera” e também para os pais, que
sofrem juntos na disputa por uma vaga na universidade.
A mudança no processo de seleção de algumas universidades públicas que
passaram a adotar o modelo de avaliação seriada transformou os hábitos
dos candidatos. Antes, os alunos costumavam se preocupar com o
vestibular apenas no 3º ano do ensino médio. Mas o coordenador
pedagógico do Colégio Motiva, Danilo Saraiva, explica que essa
fragmentação em três etapas faz os alunos saírem do ensino fundamental
com a cabeça voltada para o vestibular.
“É extremamente saudável que o aluno já tenha uma rotina de estudo
constante antes mesmo de chegar ao ensino médio”, explica o
especialista. Ele afirma que quando a família tem a oportunidade de
acompanhar em casa a rotina de aula e a execução das tarefas dos
estudantes, eles já chegam nessa etapa bem mais preparados. “Outros têm
mais dificuldade de raciocínio, porque estudam na véspera. O resultado
é que eles aprendem e depois esquecem”, revela.
Com o crescimento da concorrência, no vestibular ou no mercado de
trabalho, o candidato precisa começar desde cedo a seguir uma rotina
diária de estudo. A orientação do especialista é de pelo menos cinco
horas por dia, todos os dias, para quem está em um ano decisivo do
vestibular. “O conteúdo cobrado nas provas é bastante extenso e se o
aluno não tiver disciplina diária fica perdido entre tantos assuntos”,
justifica Saraiva.
Para ajudar neste processo, a proposta é traçar metas de revisão no 3º
ano, já que muitos alunos ainda têm mais dois anos para dar conta nas
provas. “Essa tomada de consciência é mais comum acontecer no meio do
3º ano. E é importante buscar a ajuda para estudar com os amigos e
professores, aproveitar para tirar as dúvidas na escola”.
Tereza Vieira, estudante do 3º ano do Colégio Marista Pio X, lembra que
só se deu conta da dimensão do vestibular no ano passado. “Quando fiz a
prova do PSS1 não entendia como funcionava, não tinha encontrado o
ritmo de estudo. Foi apenas no 2º ano que acordei para tudo isso”,
relata a aluna de 17 anos. “Comecei a intensificar as horas de
dedicação, abdicar de coisas menos importantes. Quando se faz
vestibular para um curso como medicina tem que se sair bem em todas as
matérias. Chego a estudar oito horas por dia”, revela.
Outro estudante que vai prestar vestibular este ano é Henrique Freire,
de 17 anos, que também estuda no Marista. Ele quer passar para o curso
de física e desde 2006 vem dobrando as horas de estudo dentro e fora da
escola. “Acho importante estudar um pouco de tudo e não apenas as
matérias da minha área. Muitas disciplinas podem ser usadas na
sociedade, levadas para atividades na vida prática”, acrescenta.
Alimentos leves são os indicados para o ‘Dia D’
Conhecimento,
disciplina e... alimentação. Quem acha que os hábitos alimentares não
contam pontos na preparação para o vestibular precisa pensar duas vezes
antes de fazer o próximo prato. Tentações como feijoada, chocolate e
carnes com molhos suculentos podem pesar na rotina de estudo, provocar
sonolência, dessaranjos intestinais e surpresas nem um pouco agradáveis
no dia da prova.
Para a nutricionista Juciany Medeiros Araújo, o cardápio mais indicado
para o tão esperado “Dia D” deve ser recheado de alimentos leves e de
fácil digestão. “Quem vai fazer vestibular ou concurso pela manhã deve
tomar um café da manhã leve e energético, como torradas, pães, iogurte,
frutas, granola e queijos, com exceção dos amarelos, que são bastante
gordurosos e dificultam a digestão”, orienta a especialista. “Os sucos
de frutas também são mais recomendados que leite integral ou café, pois
estes também podem pesar, atacar distúrbios digestivos e provocar
diarréia”.
Quando as provas são no período da tarde, a pedida é um almoço bastante
reforçado com verduras, principalmente na época do verão, “já que o
calor facilita a digestão e garante leveza”, justifica Juciany. O velho
feijão com arroz, sem muito tempero, é a opção indicada para evitar
problemas digestivos. “Também é preferível optar pelos bifes grelhados
no lugar das carnes com molhos, e gelatina ao invés dos tentadores
doces e tortas na hora da sobremesa”, acrescenta.
Mas os cuidados com a dieta não devem se resumir apenas à véspera das
provas. A rotina de estudos também deve incluir um cardápio balanceado
para garantir mais disposição e assimilação do conteúdo. Segundo a
especialista, quem estuda deve estar sempre se alimentando para ativar
a memória, espantar o cansaço e compensar o gasto de energia do
exercício intelectual.
“A sopa é uma das opções mais indicadas para quem prefere estudar à
noite, pois é leve e de fácil digestão. Quem quiser também pode repetir
o almoço, mas sem o feijão, ou optar por comer uma tigela de açaí, que
contribui bastante para ativar o raciocínio e pode ser consumido até
como café da manhã no dia do vestibular”, revela.
Matéria das três séries revisadas, alimentação balanceada, nervos sob
controle. Está faltando alguma coisa? Além da documentação exigida por
cada instituição, canetas esferográficas azuis ou pretas e, claro,
água, muita água para hidratar.
Estudo deve ser em ambiente tranqüilo
Televisão,
computador ou aparelho de som ligados, livros espalhados pelo quarto,
travesseiro servindo de mesa. A cena lhe parece familiar? Pois saiba
que esse cenário, usado por muitos adolescentes que tentam cumprir uma
rotina de estudo, pode não estar ajudando nem um pouco na aprendizagem.
Segundo o especialista Danilo Saraiva, a combinação entre barulho e
acomodação pode distrair o aluno e tirar a sua atenção do que é
realmente mais importante: o estudo.
“O ambiente não deve ter ruído, barulho ou agitação”, orienta o
pedagogo Danilo Saraiva. Se a casa do aluno é movimentada, a
recomendação do especialista é que ele procure a biblioteca da escola.
Em um lugar onde todo mundo já está lendo, estudando, fica bem mais
fácil entrar neste clima.
“Uma mesa organizada, espaçosa, com tudo o que ele precisa por perto
também ajuda bastante. É preciso se desligar de tentações como
televisão, MP3, internet, celular, evitar um pouco os amigos chamando
para sair. Hoje em dia, estes apelos são a maior dificuldade: os alunos
passam o dia inteiro na internet e não conseguem separar um horário
certo para estudar”.
Em busca de refúgio para não perder o foco, a aluna do cursinho
extensivo do Colégio Motiva Priscylla Lins, de 18 anos, passa as suas
tardes durante a semana na biblioteca da escola. Ela vai tentar
vestibular para medicina pela segunda vez na UFPB, um dos cursos com
média de concorrência mais alta.
“Passo a manhã na aula e estudo todos os dias à tarde, das 15h às 19h.
Prefiro ficar na biblioteca, porque é um lugar bem mais calmo do que em
casa, um espaço melhor para estudar”, justifica a aluna.
No ano passado, Priscylla fez parte de uma turma especial do 3º ano e
se dedicou especialmente para o vestibular daquela série. Mas no final,
precisou anular as médias das provas das séries anteriores e fazer tudo
outra vez. “Não tinha média suficiente para passar, mas este ano
resolvi me preparar melhor”, garante.
Com tanta dedicação e confiança, as expectativas para passar neste
funil - que é a seleção das universidades públicas - são as melhores.
“Espero passar, sim, estou me empenhando dia e noite”.
Leitura pode ajudar em várias áreas
Literatura na prova de história? Matemática na prova de geografia?
Atualidades na prova de português? Não leitor, ninguém está trocando os
assuntos. As provas dos vestibulares de hoje estão mesmo
interdisciplinares. Mesmo preservando o perfil do conteúdo do programa
de cada disciplina, não há limites para a utilização de teorias,
conceitos e cálculos de outras áreas dando as caras em muitas questões.
Tudo para provocar a reflexão dos alunos e acabar com a famosa
“decoreba”, prática cada vez mais condenada pelos educadores.
O professor de história do Colégio Marista Pio X José Saldanha afirma a
importância de adotar uma rotina diária de leitura para ampliar o
conhecimento para todas as disciplinas. “Não dá para se prender só aos
temas que tem mais facilidade, a interdisciplinaridade está cada vez
mais evidente”, alerta. “O aluno que faz prova de história hoje tem que
ter base de língua portuguesa, saber utilizar textos literários... A
decoreba perdeu espaço para a contextualização, que é fundamental para
quem vai fazer vestibular”, orienta.
Marineuma de Oliveira Costa, professora de redação do Colégio Marista
Pio X, acrescenta que as provas de língua portuguesa e redação, que têm
peso forte em todos os processos de vestibular, também carregam o
caráter interdisciplinar.
“A avaliação dos textos não se prende mais à parte formal, mas ao
conteúdo. Além de conhecer os mecanismos da língua portuguesa, o aluno
tem que estar atento aos acontecimentos, ler muito e assistir a jornais
para se inteirar sobre os assuntos da atualidade”, recomenda.
Segundo a professora, o vestibular da UFPB preserva o perfil de sempre
trazer temas que envolvem a discussão dos livros indicados, com o
objetivo de fazer com que o candidato aplique essa leitura no presente
ou descubra o que os autores trabalhados têm em comum.
“Na prova de redação, não adianta apenas conhecer as normas e não ter
conteúdo. O vestibular não pede mais regras, e sim a gramática aplicada
a serviço da língua. É preciso conhecer os gêneros textuais
jornalísticos, publicitários e de opinião”, conclui Marineuma.
Escola ajuda a combater o estresse
Mas
tanta disciplina, disputa, correria, chega uma hora que cansa e até
irrita os vestibulandos. O coordenador pedagógico do ensino médio do
Marista Pio X, Wilamy Medeiros, explica que a carga psicológica nos
alunos vai além de ter que decidir cada vez mais cedo a vida
profissional. Ela também acontece em casa, com a cobrança de aprovação
pelos familiares, amigos e pelo próprio candidato, que chega a
situações de limite do estresse.
“O papel da escola é prepará-los para lidar com isso. Eles sabem que
não precisam ficar de segunda a segunda-feira em cima dos livros, podem
muito bem aproveitar o final de semana para fazer o que gostam”,
explica o pedagogo. Ele destaca que os pais também precisam estar ao
lado dos filhos, para ao mesmo tempo que estabelecer, saber reconhecer
os limites e ajudá-los a desenvolver uma rotina de estudo.
A assessora pedagógica, Marta Mororó, afirma que a família também deve
buscar o apoio da escola para saber como ajudar no desempenho do
candidato. “É necessário que os pais, alunos e professores trabalhem de
forma cooperada, para conseguir direcionar melhor a preparação e
aproveitar todas as ferramentas oferecidas pelo colégio, além das
avaliações sistematizadas como as bizuradas, revisões e simulados”,
propõe a pedagoga.
Segundo as orientações dos especialistas, o caminho não é eliminar
todas as atividades prazerosas de quem está se preparando para o
vestibular, mas reorganizar o ritmo de estudo para aproveitar ao máximo
tempo nesta reta final. Os alunos mostram que estão seguindo à risca
essa recomendação.
“Quando sinto que a rotina está saturando gosto de parar, ler um pouco,
tocar violão e ficar no computador, fazer coisas que me divirtam”,
conta Henrique. “Chega uma hora que bate o cansaço e é preciso parar e
reconhecer que tem que desacelerar um pouco. Relaxar também é
importante para não fazer a prova muito sobrecarregado e prejudicar o
rendimento pelo cansaço”, acrescenta Tereza.
Mesmo com toda a maratona de estudo das últimas semanas, na véspera da
prova a parada é obrigatória para manter os ânimos mais tranqüilos.
“Nada de ficar dormindo tarde, estudando até de madrugada... É preciso
descansar bem, aproveitar os momentos de lazer com a família e se
sentir seguro”, completa Danilo Saraiva. “Conhecimento, emocional e
saúde. Esse é o tripé fundamental para quem quer chegar lá”.