“Cabe dez”... “falta vinte”... “sobrou trinta”... “as mina”... “teus cabelo é da hora”... “eu quero vinte pão”... “isso custa cinco real”...

Não é novidade para ninguém que o brasileiro, quando fala, não dá muita importância à concordância. A nenhum tipo de concordância! Cometer erros de concordância na fala do cotidiano é muito comum, mas no texto formal é necessário que a concordância esteja absolutamente rigorosa.

Vamos a um trecho da canção “Música Urbana”, do Capital Inicial:

“Tudo errado, mas tudo bem.

Tudo quase sempre como eu sempre quis.

Sai da minha frente, que agora eu quero ver.

Não me importam os seus atos, eu não sou mais um desesperado.

Se eu ando por ruas quase escuras, as ruas passam”

Você notou como o letrista fez a concordância: “não me importam os seus atos”. Os atos não têm importância, portanto eles não importam. A concordância está correta, o que é exigível ao menos na língua formal. É desejável que a gente acerte a concordância no cotidiano também. Basta concordar verbo e sujeito. “Atos” está no plural, então é óbvio que o verbo também deve estar no plural: “importam”. Acerte a concordância você também.

CASOS DELICADOS DE CONCORDÂNCIA

Às vezes a concordância verbal nos prega uma peça. Para ilustrar, o “Nossa Língua Portuquesa” foi até a rua e formulou algumas perguntas ao público.

“Pedro ou Paulo será ou serão o próximo presidente da República?”

A maioria das pessoas acerta. “Pedro ou Paulo será ...”. Somente um dos dois será o próximo presidente da República - o ou que aparece na oração é excludente, indica a exclusão de Pedro ou de Paulo da cadeira de Presidente da República. Logo, o verbo fica no singular.

Contudo, se alguém perguntar sobre sua preferência musical, a resposta poderá ser: Tom ou Caetano me agradam. O ou presente nesta oração não é excludente, logo o verbo assume o plural.

Outra pergunta:

40% dos eleitores preferiram ou preferiu 40% dos eleitores preferiram. A expressão que vem depois do percentual está no plural ( eleitores ) e aí não há outra opção.

40% do eleitorado preferiu ou preferiram. Muita gente acertou. O termo que vem depois do percentual é singular, logo o verbo também fica no singular. A forma correta é “40% do eleitorado preferiu”.

“40% preferiu ou preferiram”. Nesta frase não há nada depois da expressão percentual. Então vale o número 40, que é plural.

“40% preferiram, 1% preferiu”.


CONCORDÂNCIA COM PRONOME RELATIVO E EXPRESSÕES EXPLETIVAS

Você já deve ter ouvido muita gente falar “não foi eu”. Acham que o “foi” vale para qualquer caso. Não é bem assim.

Para ilustrar essa questão o professor Pasquale busca referência na música “Foi Deus que fez você”, de Luiz Ramalho.

“... Foi Deus que fez o céu... Foi Deus que fez você... Foi Deus...”

“Foi Deus que fez”. Porque “foi”? Porque Deus é 3 pessoa, Deus é igual a “ele” e “ele foi”.

Agora, não é cabível dizer “Eu foi”. Logo, “não foi eu” está errado. O correto é “não fui eu”, “não fomos nós”.

O verbo que vem depois da palavra “que” também deve concordar com a palavra que vem antes. Portanto, “Fui eu que fiz” ( eu fui, eu fiz),”Fomos nós que fizemos”, “Foram eles que fizeram”.

Outra coisa que você não deve confundir é o caso da expressão expletiva “é que”, que é fixa. A cancão “Só nós dois”, de Joaquim Pimentel, pode ilustrar muito bem.

“ Só nós dois é que sabemos o quanto nos queremos bem Só nós dois é que sabemos Só nós dois e mais ninguém...”

A expressão “é que” é fixa. Nunca diga “São nessas horas que a gente percebe”. O correto é dizer “Nessas horas é que a gente percebe” ou “É nessas horas que a gente percebe”.

“É que” é uma expressão de realce, fixa e fácil de ser percebida. Pode, também, ser eliminada.

Veja os exemplos:

“Só nós dois é que sabemos” - “Só nós dois sabemos” “É nessas horas que a gente percebe” - Nessas horas a gente percebe”.A expressão “é que”, expletiva, pode ser perfeitamente eliminada sem prejuízo da estrutura frasal.


OBRIGADO (A) / EU MESMO (A)

“Eu mesma fiz essa bolsa”, é assim que se fala?

É possível, mas é necessário fazer a concordância.

Quando quem fala é homem deve dizer “eu mesmo”. Se for mulher, “eu mesma”

Você, referindo-se a uma mulher, deve dizer “você mesma”, “ela mesma”.

No plural e havendo pelo menos um homem, “nós mesmos”. Havendo só mulheres “nós mesmas”.

A concordância deve ser feita quando é necessário agradecer. O homem diz “Obrigado”. A mulher, “obrigada”.

É PROIBIDO / É PROIBIDA

Uma pessoa vai a um edifício comercial, a um ambiente mais formal, e vê ali uma tabuleta:

“É proibido a entrada”

Pouco depois, ao entrar no prédio ao lado, a pessoa depara-se com outra tabuleta:

“É proibida a entrada”

Uma confusão, não é? O programa foi às ruas consultar algumas pessoas e perguntou quais eram as formas corretas:

“Não é permitido a entrada” ou “Não é permitida a entrada”

“É proibido a entrada” ou “É proibida a entrada”

Houve empate no número de respostas certas e erradas, o que mostra que a confusão é mesmo grande. Vamos a alguns exemplos para esclarecer essa questão:

* A sopa é boa

* Sopa é bom

* A cerveja é boa

* Cerveja é bom

Quando se generaliza, quando não se determina, não se faz a concordância, usa-se o masculino com valor genérico, com valor neutro. Portanto:

* Sopa é bom / É bom sopa

* Cerveja é bom / É bom cerveja

* Entrada é proibido / É proibido entrada

* Entrada não é permitido / Não é permitido entrada

Se não existe um artigo ou uma preposição antes de “entrada”, se não há nenhum determinante, o particípio passado dos verbos “proibir” e permitir” deve ficar no masculino. Mas, se houver algum determinante, o verbo deve, então, concordar com a palavra “entrada”. Veja as formas corretas:

É proibido entrada

É proibida a entrada

Não é permitido entrada

Não é permitida a entrada