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Ela fez a prova e dá uma lição de vida
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Nota:




"Não tinha motivo
para não fazer, a não ser por preguiça”. A afirmação, que para muitos
servirá como “puxão de orelha”, enquanto que para outros tantos, ficará
uma mensagem de admiração, foi dada pela deficiente visual, Fernanda
Taschetto, 31 anos, candidata a uma vaga no curso de Educação a
Distância em Tecnólogo em Secretariado, no Vestibular realizado na
manhã deste domingo, 19, na Uninter.
Segundo ela, portadora de Retinose
Pigmentar, doença genética diagnosticada aos 13 anos, se aprovada nesse
concurso, seguirá com os estudos. “Depois que eu começar, não vou parar
mais. Quero também a pós-graduação”, disse ela, minutos antes de
começar a fazer a prova, constituída de duas redações: uma tematizada
pelo voto consciente e a outra sobre racismo. U
m outro atrativo citado
pela candidata para a realização da prova faz referência à Educação a
Distância. “Terei aula presencial uma vez por semana, e nos demais
acompanharei o conteúdo de casa, pela internet. Além do que, quando tu
é bem recebida num local, é um incentivo a mais”, salienta.
Fernanda, que além de servidora pública da
Universidade Federal de Santa Maria, atuando, seis horas diárias na
biblioteca setorial do Centro de Educação, é massoterapeuta e
instrutora de informática para deficientes visuais, revela que a opção
pelo ensino superior deve-se a necessidade de uma graduação.
“Trabalho
na UFSM das 8h às 14h; à tarde faço massagens, drenagem linfática e
reflexologia, que trabalha pontos estratégicos na planta do pé, e agora
à noite serei estudante”, ressalta ela, confiante em sua aprovação.
“Quero a qualificação, além de que na UFSM estamos com Plano de
Carreira, e isso é importante, não só pela questão do dinheiro”,
destacou, e complementou: “quando tu se capacita, mostra que pode e faz
tão bem ou melhor que as pessoas normais, tu és tratada de uma maneira
diferente”.
Fernanda, que estava fazendo a prova escondida do
irmão, com 37 anos, também portador da doença, e já estudante da
Uninter no curso de pós-graduação em Recursos Humanos, e do namorado,
Altamir Rosa, estava afastada dos estudos desde 1995, quando finalizou
o ensino médio, no Colégio Cilon Rosa. Para ela, que ao fazer a prova
teria de abordar o racismo, afirma ainda existir preconceito.
“Há em
todos os sentidos. As pessoas ao conversarem comigo, num primeiro
momento, não reparam minha deficiência, até mesmo porque meus olhos são
normais. Mas, quando digo que não enxergo, na grande maioria das vezes,
o tratamento já muda.
Então, tenho que me qualificar, até mesmo porque
a independência financeira, a autonomia, proporciona uma melhor
socialibilização”, argumenta a candidata, que tem a companhia de sua
mãe, Leonir Taschetto, 60 anos, sempre. “Ela é minha companheira,
totalmente”, diz Fernanda, que confessa não ter coragem para sair
sozinha à rua. “Para a Universidade, vou e volto de van”, explica.
A servidora pública contou com uma ledora-escriba
para fazer a prova da Uninter, fazendo brincadeira desde o primeiro
minuto de convivência, quando Aletéia Carpes Fantinelli, 26 anos,
administradora, e tutora da instituição, a encaminhava para a sala de
aula, na qual prestaria o concurso. “Eu que não enxergo e tu que se
bate”, brincou Fernanda com Aletéia, que num gesto de proteção com a
candidata, acabou se chocando com o marco da porta ao ingressar na
sala. “Foi uma empatia muito grande, desde o primeiro telefonema da
Fernanda aqui para nós”, relatou a tutora, e por ontem, ledora-escriba.
“Não mesmo, foi amor a primeira voz”, rebateu Fernanda, sempre com
alegria nas colocações. Aletéia explica, que além de ter uma hora a
mais, garantida por Lei, para a realização do concurso, Fernanda, na
prova de redação, é avaliada pela argumentação do tema, e pela
pontuação. “A grafia não conta, nestes casos, porque quem redige o
texto é o ledor-escriba, a partir do que o candidato ditar. Mas a
pontuação, terá que ser correta”, esclarece Aletéia, que também é
coordenadora dos cursos da Uninter.

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