No ano em que se comemora o quinto século do Descobrimento, com a proposição da leitura de O Guarani, de José de Alencar, lado a lado com a de Macunaíma, o examinador deixa clara a intenção de trazer à baila a questão da identidade nacional, através de dois dos diversos rostos que a literatura brasileira criou na busca dessa identidade:

Peri, Iracema, Leonardo (ancestral de Macunaíma na dialética da malandragem), Policarpo Quaresma, Jeca Tatu, Martim Cererê, João Miramar, Serafim Ponte Grande e tantos outros que são, cada um a seu modo, "heróis da nossa gente".

Filho do medo da noite, concebido por uma índia tapanhuma no fundo do mato virgem do Uraricoera; índio-negro que vira branco, a peitaria peluda, um corpanzil enorme e o rosto infantil ("a carinha enjoativa de piá"), este é Macunaíma, irmão de Maanape, já velhinho, e de Jiguê, "na força do homem". Gosta muito de "brincar" e não perdoa nem as cunhadas

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– Sofara, Iriqui e Suzi; joga no bicho e quer levar vantagem em tudo; inteligente e preguiçoso, medroso e afoito; imperador do Mato Virgem, casado com uma guerreira amazona, Ci, a Mãe do Mato, que lhe dá, antes de morrer, a Muiraquitã, amuleto nacional, talismã da sorte, cuja recuperação passa a ser o objetivo da vida de Macunaíma, sua grande aventura.

A muiraquitã é o seu "santo graal", por ela percorre todo o Brasil e vem a São Paulo enfrentar o gigante Piaimã/ Venceslau Pietro Pietra.

Vitorioso na sua "demanda", comete o erro fatal: atraído pela Europa, cai nos braços de Dona Sancha, a "uiara enganosa", trai o compromisso com a Vei-a-Sol (a mãe-natureza tropical), desarmoniza-se com seu universo, perde a muiraquitã, adoece de todos os males, volta destronado para o Uraricoera devastado, vira um "defunto sem choro" e se transforma na Ursa Maior, estrela distante, brilho inútil. Vai fazer companhia para Ci, a Mãe do Mato, que se transformou na estrela Beta do Centauro e para outras personagens que viraram astros do céu.

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Virar astro, na cosmogonia indígena brasileira, significa virar tradição. Nas palavras de Mário de Andrade: "vai ser astro, que é o destino fatal dos seres (tradição)", o que significa tornar-se uma referência para o presente.

Referência permanente, que fecundou o filme de Joaquim Pedro de Andrade (1969), a montagem teatral de Antunes Filho (1978), e que desfilou na Avenida, no carnaval de 1974, como samba-enredo da Portela, com o refrão: "índio, branco, catimbeiro, / negro, sonso, feiticeiro, / mata a cobra e dá um nó".

Arquétipo e protótipo, Macunaíma é o barro amorfo, mas vital, no qual continuamos a modelar nossa identidade, é a matéria-prima inesgotável para a reflexão do brasileiro sobre si mesmo, sobre o que fomos, somos e seremos. (F.T.A.)

Por: Curso Objetivo.