Por: Cósmo Online
Nas salas Dandara Zumbi
e Florestan Fernandes, do cursinho alternativo Hebert de Souza, na Vila
União, a estudante Veridiana Alves Silva, de 17 anos, se prepara para
realização de um sonho: entrar em uma universidade pública.
Ela, que
vem da escola pública, ainda nem terminou o Ensino Médio — cursa
atualmente o 2º ano na Escola Estadual Sebastião Nogueira Ramos, no
bairro São Bernardo —, mas estuda constantemente há quase dois anos
para conquistar uma vaga no curso superior de história. “A gente, que
estuda em escola pública, precisa se virar para complementar os estudos
e conseguir entrar numa universidade gratuita. Só com o Ensino Médio
normal não dá”, disse Veridiana, que irá prestar vestibular na
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) como treineira pelo segundo
ano consecutivo. “Já vi que a prova é puxada, principalmente as
questões de matemática”, acrescentou.
Assim como ela, outros inúmeros estudantes de escolas estaduais e
municipais se esforçam para encarar o vestibular concorrido da maioria
das universidades públicas do País. Apesar de alguns cursos terem até
78 candidatos disputando uma única vaga, o ingresso desses estudantes
não é impossível, mas é preciso muita dedicação para conquistar o
feito.
“A própria escola estadual, muitas vezes, forma o estudante para
o mercado de trabalho, para ser mais uma mão-de-obra e não incentiva
que o aluno continue os estudos, ingresse numa universidade e faça uma
especialização”, disse o estudante Thiago Gonçalves, de 21 anos, que
também estudou a vida inteira em escola estadual e tentará uma vaga no
curso de ciências sociais da Unicamp.
A última em que o jovem estudou foi a E.E. Prefeito Antonio da Costa
Santos, no Jardim Planalto, e, segundo ele, os professores não passavam
nenhum conteúdo de vestibular para os estudantes do Ensino Médio. “Essa
é uma das escolas clássicas que não está interessada em preparar um
estudante para ingressar numa faculdade. Acho que até mesmo porque não
faz parte da cultura das pessoas que moram naquela região”, afirmou.
O estudante diz que decidiu disputar uma vaga no curso de ciências
sociais numa universidade pública, principalmente, para tentar quebrar
esses estereótipos. “Quem foi que disse que jovens da periferia não
conseguem entrar numa universidade pública?”, questionou Thiago.
Estudar
A dica dos dois jovens para quem quer ingressar numa universidade
pública é clássica: estudar, estudar e estudar. Não há outra
alternativa. A prova costuma ser mais puxada, a concorrência é grande,
mas as chances podem ser as mesmas se a dica for seguida à risca.
Foi o que fez o estudante do primeiro ano do curso de ciências sociais
da Unicamp Fernando Xavier Silva, de 22 anos. Sem incentivo e sem
cobranças na E.E. Eduardo Barnabé, no Parque D. Pedro 2, onde cursou o
Ensino Médio, Silva conquistou praticamente sozinho a vaga na tão
sonhada universidade. “Quem mora na periferia não costuma ter estímulo
para entrar na faculdade. Se alguém consegue, é pura sorte porque, se
for esperar pelo professor, você nunca vai fazer um curso superior”,
disse o estudante, que está conseguindo acompanhar normalmente as
aulas.
O sonho foi realizado graças à força de vontade e à presença dele num
cursinho alternativo com mensalidades que cabiam no seu bolso. “Meu
intuito agora é virar professor da rede estadual e tentar melhorar pelo
menos um pouquinho o ensino público do País”, acrescentou.
USP e Unicamp oferecem programas de incentivo
Além do esforço de cada um e da dedicação absoluta aos estudos, os
jovens estudantes de escola pública ainda contam com alguns incentivos
oferecidos pelas próprias instituições de ensino. Na Unicamp, o
Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais), criado desde
2004, não determina cotas, mas consiste no acréscimo de 30 pontos à
nota final do vestibulando caso ele tenha feito todo o Ensino Médio na
escola pública. Os candidatos que se audodeclararem negros, pardos ou
indígenas ganham mais outros dez pontos.
Desde que o Paais foi
implantado, o número de ingressantes que cursaram a escola pública se
mantém em torno de 30%. A Universidade de São Paulo (USP) também
oferece um programa similar, chamado Programa de Avaliação Seriada da
USP (Pasusp), desenvolvido em parceria com a Secretaria de Educação do
Estado de São Paulo e que será aplicado pela primeira vez no vestibular
2009.
O candidato será submetido a uma prova, aplicada pela própria
Fuvest, e, dependendo do desempenho nessa avaliação, o estudante pode
conseguir até 3% de bônus na nota final do vestibular. Mais informações
sobre os dois programas podem ser obtidos pelos sites
www.comvest.unicamp.br/ e www.usp.br/inclusp/pasusp/. (JF/AAN)