Entrar em uma universidade pública sempre foi a prioridade de todo vestibulando, tanto pela gratuidade do ensino quanto pela qualidade dos cursos ofertados.

Mas ultimamente a busca por uma vaga no ensino superior nem sempre segue essa lógica. As instituições federais, estaduais e municipais perderam parte do prestígio entre os candidatos e já não são unanimidade entre aqueles que têm a chance de estudar de graça em uma universidade particular.

“Vejo que isso acontece pela qualidade geral do serviço público no país. Os estudantes têm a impressão de que as empresas particulares têm mais interesse em prestar um bom serviço. Eles acreditam que nas universidades privadas, se houver uma mobilização, podem mudar algo que não está bom”, avalia Daniela Bauer, psicóloga especialista em orientação profissional.

Segundo Daniela, existe hoje a idéia de que a qualidade da formação depende do interesse que cada um tem em aprender, independentemente da universidade onde estudou. “Alguns cursos, de algumas públicas, têm diferença sim. Mas há cursos mais fortes e mais fracos”, afirma.

Já a psicóloga Daniela Foster, mestre em Administração e proprietária da Foster Consult, empresa especializada em gestão de carreira e aconselhamento profissional, diz que a falta de investimento na estrutura física das públicas tem feito com que essas universidades já não exerçam o mesmo fascínio. Ela ressalta, porém, que há instituições de qualidade tanto entre as públicas quanto entre as particulares. “Há universidades públicas e privadas que são referência para o mercado de trabalho”, afirma.

Fuga de cérebros

Para a psicóloga Taís Targa, coordenadora da Central de Carreiras da Universidade Positivo (UP), órgão que ajuda os alunos a conseguir uma colocação no mercado de trabalho, a preferência pelas instituições particulares não acontece em grande proporção, mas é mais comum do que há 10 anos. “Nem sempre os melhores cursos ficam nas federais, e o aluno que pode vai estudar na instituição que ofereça as melhores condições”, diz.

Outro motivo para a valorização das particulares seria o movimento de migração de professores qualificados para essas instituições. “Há quem se aposente em uma pública (onde os funcionários recebem aposentadoria integral) e vá para a particular. E há professores que fazem carreira nas faculdades privadas, pois elas oferecem melhor estrutura física e salários mais atrativos do que os salários dos professores substitutos contratados pelas públicas”, afirma.

Falta de investimento afasta alunos

A história de Sônia Regina Martins de Oliveira, 24 anos, mostra que, quando não existe impedimento financeiro, a universidade pública nem sempre é a primeira opção dos estudantes. Aprovada nos vestibulares de Jornalismo da PUCPR e da UFPR, ela preferiu cursar o primeiro. “A predileção pela Federal era pelo fato de o curso ser gratuito. Mas a PUCPR dá bolsas de estudo para os primeiros lugares de cada curso e eu consegui o desconto”, diz.

Antes de se decidir, Sônia conversou com um aluno que estudava Jornalismo na PUCPR e outro que fazia o curso na UFPR. Os dois elogiaram as instituições onde estudavam, mas o segundo disse que a graduação passava por algumas dificuldades técnicas. Nas provas de Fotografia, por exemplo, cerca de 30 alunos precisavam dividir a mesma câmera.

Sônia fez a matrícula na PUCPR e, após um mês de aulas, foi convocada a efetivar o registro acadêmico na Federal. “Eu estava gostando dos professores da PUCPR e resolvi ficar”, afirma. Além da qualidade do corpo docente e da infra-estrutura, ela diz que o fato de a universidade particular ofertar o curso em apenas um período também pesou na decisão. “Fiz o curso de manhã, e no turno da tarde aproveitei para fazer estágio e cursos de línguas. Na Federal as aulas eram de manhã e à tarde”, relata ela, que se formou em 2004.

Ailime Kamaia Espinola Moreira, 18 anos, também prestou vestibular para Jornalismo na UFPR, mas quer mesmo é estudar na Universidade Positivo. Por isso, inscreveu-se no Programa Universidade para Todos (ProUni), do governo federal, que concede descontos em universidades particulares. Antes de fazer a escolha, ela visitou as instalações e conversou com estudantes das duas instituições. “Achei os alunos da Federal um pouco desanimados em comparação com os outros estudantes”, afirma.

Aprovado em Engenharia Civil na PUCPR e classificado para a segunda fase do vestibular da UFPR para o curso de Matemática Industrial, Rodrigo Garcia Strozzi, 18 anos, pretende estudar na particular. “Mesmo a Federal sendo pública, prefiro fazer a PUCPR, porque lá há mais investimentos na minha área de interesse”, explica o estudante.

Já Eliseu Raphael Venturi, estudante de Direito, passou nos vestibulares da UFPR e da Unicuritiba, e planeja levar os dois cursos adiante. “Minha sincera vontade é concluir os dois cursos. Muito embora o MEC regulamente todas as instituições do país para manter certa uniformidade, os enfoques dos cursos mudam em cada instituição, o que se pode verificar pela distribuição das disciplinas e pelo perfil dos professores”, explica.