Eles estão em turnê pelo Brasil desde novembro. Passaram de ônibus por cidades de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Estão bem afinados, estudaram o ano todo. Mesmo assim, ainda não ensaiaram seu principal número.

— Falta fazer a "dança do vestibular" — sugere a paulista Ana Carolina Jorge Fogolin, 19 anos, de Presidente Prudente.

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Ana Carolina está entre os 180 vestibulandos de São Paulo e Paraná que vieram em três ônibus a Porto Alegre prestar provas na UFRGS (ao todo, 2.977 estudantes de fora do Estado se inscreveram). A capital gaúcha foi o ponto final de uma jornada por mais de uma dezena de instituições federais e estaduais nos últimos três meses. O objetivo explica o esforço: passar em algum dos cursos mais difíceis do país, com destaque para Medicina.

Stephanie Theodoro, 18 anos, moradora da capital paulista, é uma exceção, pois tenta Veterinária. Depois da UFRGS, segue viagem a Santa Maria (UFSM) e Pelotas (UFPel). A escolha pelas universidades gaúchas, para todos, passou por pesquisa de notas no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), no qual aparecem entre as melhores do país.

O custo do "pacote vestibular" para Porto Alegre chega a R$ 600 e inclui transporte (desde São Paulo e aos locais das provas) e hospedagem com café da manhã. A empresa se encarrega da inscrição nos concursos.

A paulistana Adriana Miyashiro é a sênior da turma. Com 24 anos, largou uma faculdade particular em Santos para tentar Medicina em uma instituição pública. Para isso, vale qualquer esforço, até passar o Natal fazendo exames em Viçosa (MG). Depois de tantas provas e quilômetros percorridos, o estresse é inevitável. Além do gasto, há a cobrança pessoal pelo sucesso.

— Graças a Deus é o último — comemora Andressa Salazar, 18, que já fez nove vestibulares para Medicina nos últimos meses.

Depois de 12 vestibulares entre 2008 e 2009, três anos de cursinho e muita poeira na estrada, Fabiana confessa estar no limite. Passou na Unisa, uma instituição privada paulista, porém, a vontade era de passar em uma universidade gratuita. Seguir tentando é outra dúvida.

— Tem que ter vontade — suspira.

O ruim da maratona é a superexpectativa gerada por causa do investimento. A definição é da psicóloga do Núcleo de Apoio ao Estudante (Nae) da UFRGS, Maria Célia Lassance. Isso pode causar estresse com reflexos imediatos, como "brancos" durante as provas.

— Pior que isso é fazer do vestibular o centro da vida. O concurso deve ser parte de um projeto de vida, e não o centro dele — diz a psicóloga, que também vê a atitude dos estudantes como parte de um projeto de vida de se tornar independente.

Para o diretor do curso Unificado, Enio Kaufmann, a tática de fazer o maior número possível de concursos é errada. Com 30 anos de experiência na área, ele afirma que o mais adequado é limitar em, no máximo, três opções.

— É um sintoma de desespero, só para descargo de consciência. O candidato precisa ter foco, conhecer as provas — diz.

A etapa porto-alegrense terminou na tarde desta quarta-feira, quando os ônibus partiram para São Paulo. Na bagagem, vai um desejo que o aspirante à carreira de médico Marcos Vinicius Maia, 21, viu refletido em uma placa na praça do Colégio Rosário, onde fez as provas. Ele sorriu ao ler a chamada na propaganda de rua de um cursinho de Porto Alegre: "Encerre sua carreira de vestibulando".

Experiência de viagem

Para os estudantes viajantes, a UFRGS é a prova mais regionalista do Brasil. Quem não mora no Estado sente dificuldade para responder questões em algumas provas.

 Em Maringá (PR), os fiscais acompanham os vestibulandos até o banheiro e é proibido fechar a porta.

Em São Paulo, os vestibulandos podem comer durante as provas e as mesas viram uma espécie de piquenique. Na UFRGS, só água e em garrafa sem rótulo.

 A UFSM pede foto 5x7 com data aos vestibulandos.

Outras curiosidades encontradas em concursos: proibição de usar brinco, ordem a meninas e cabeludos para fazer coque, rabinho ou colinha e uso de câmeras para filmar os vestibulandos nas salas