Quando viu seu nome na edição especial da Gazeta do Povo, com a lista dos aprovados no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marlon Ronei Fernandes Muniz se ajoelhou na calçada da Praça Carlos Gomes e ficou parado lá por alguns momentos.

Ele e o amigo Marcus Vinicius Sutil já tinham começado a fazer Federal há alguns anos, mas desistiram dos seus cursos – um deles para mudar de faculdade, e o outro por causa do trabalho. “Em 2008 decidimos voltar. E passamos!”, comemorou Marlon, que, no ano que vem, volta a ser calouro de Tecnologia em Análise de Sistemas, enquanto Marcus fará Gestão da Informação. Como eles, centenas de candidatos, amigos e parentes estiveram na festa organizada pela Gazeta na tarde de ontem.

O professor Júlio César, que leciona História no Curso Acesso, participa da comemoração dos calouros há 15 anos. “Os vestibulandos fazem a parte deles, e nós fazemos a nossa. Justo no momento em que esse trabalho é recompensado, não tenho como não vir aqui prestigiar”, disse. O professor estava munido com uma máquina para cortar o cabelo dos calouros do cursinho onde trabalha, mas logo passou a fazer a festa também de outros aprovados.

Um dos que recorrreu aos serviços de Júlio César foi José Francisco Rodrigues Júnior, aprovado em Ciências Sociais. Ele havia tentado outro curso no ano passado, mas não foi aprovado. Com um ano a mais de preparação, mudou de curso e acha que fez a coisa certa. “A bagagem cultural e o conhecimento de mundo que o curso de Sociais vai me dar têm muito mais a ver com a minha personalidade do que o curso de Exatas que eu queria ano passado”, disse.

Quem também transformou uma reprovação em chance de rever a escolha de carreira foi Samara Helena Mildemberg. Ela havia tentado uma vaga em Engenharia no vestibular anterior. Não passou, e aí descobriu a Pedagogia. E, ao contrário de tantos vestibulandos que esperam menos pressão na vida de universitários, Samara imagina que terá mais cobrança. “Acho que daqui em diante terei de estudar ainda mais”, afirmou.

Lama

O primeiro colocado no curso de Medicina, Almir Antônio Lara Urbanetz, tentou seu primeiro vestibular neste ano. Além da UFPR, prestou Fuvest e Unifesp, em São Paulo, que ainda não divulgaram o resultado. Almir fez o terceiro ano do ensino médio no Colégio Bom Jesus e fez aulas de aprofundamento e o superintensivo no Curso Positivo. “Eu estudava de quatro a cinco horas por dia fora de sala de aula. Para passar em primeiro, acho que fui bem na segunda fase, porque na primeira acertei 60 das 80 questões”, disse, lembrando que optou por Medicina por ser a profissão dos seus pais.

A felicidade é grande também para quem sofreu durante o ano na busca por uma vaga. A estudante Camila Vitória Mageski, 17 anos, teve síndrome do pânico em 2008 devido ao medo e à ansiedade para ser aprovada. Fez tratamento, mas acreditava não ter qualquer chance de passar em Administração. “Eu e minha mãe achávamos que seria impossível. Nos dias de prova tomei cápsulas de guaraná e fiquei mais calma. Depois que passei na primeira fase, ganhei confiança”, contou.

Ao contrário dos anos anteriores, a Federal divulgou o nome do primeiro classificado geral: Bruna Halila Morrone passou no curso de bacharelado em Física. Dentre os dez melhores desempenhos, nove são da área de Exatas e apenas um da área de Humanas.

Para os alunos que passaram na UFPR e em outra instituição pública, a escolha entre uma e outra é obrigatória. Segundo a ex-pró-reitora de Graduação, Rosana Albuquerque de Sá Brito, a universidade está preparada para atender possíveis recursos jurídicos de alunos que insistam em cursar dois cursos gratuitos ao mesmo tempo. “A UFPR sempre se prepara para essas medidas. Foi assim com as cotas também. Até hoje não perdemos nenhum recurso. Estamos tranquilos com o que fazemos, pois sabemos que os cidadãos que pagam impostos não querem pagar para que um mesmo aluno ocupe duas vagas”, explica.

Homens agora são maioria

Os calouros 2009 inverteram um dado que era constante nos vestibulares passados: desta vez os homens são a maioria, com 51,1% dos aprovados. Além disso, a maior parte dos aprovados é paranaense e mora na capital. Quase 20% dos calouros têm mais de 23 anos.

O reitor da UFPR, Zaki Akel Sobrinho, diz que uma conquista foi o aumento da oferta de vagas em cursos noturnos. As 1,8 mil vagas são quase o dobro do que era ofertado anteriormente. Os cursos noturnos possibilitam que o estudante consiga trabalhar durante o dia. “Perto de 21% dos aprovados trabalham em período integral e 40% não fizeram cursinho. Isso mostra que a UFPR não é só para uma classe privilegiada, como se dizia”, diz Rosana Brito, ex-pró-reitora de Graduação.