Hoje, depois de dois anos de dedicação, a dona-de-casa Marlene Terezinha dos Santos, 49 anos, sente-se realizada. Moradora do Jardim Cidade Nova, em Maringá, ela passou em 40º lugar no vestibular da Universidade Estadual Maringá (UEM).

Até 2014, quando deve terminar o curso de Letras Português-Francês, ela espera ter fluência na língua-mãe de Marcel Proust, Victor Hugo e Edith Piaf. "Parei de estudar há dez anos, após concluir o supletivo do Ensino Médio", conta. "Agora que os meus três filhos se formaram e se casaram, decidi voltar", disse Marlene.

Naturalmente, a volta é um desafio. Ter de relembrar e, em muitos casos, reaprender conteúdos, exige dedicação. De outra forma seria difícil dominar o objeto direto e indireto, compreender as fórmulas de cinemática ou, ainda, não enxergar as mitocôndrias como inimigas. "Tive muita dificuldade com gramática e com as disciplinas exatas", diz a mais nova caloura da UEM.

"Prestava muita atenção em tudo o que o professor do cursinho dizia, porque, em casa, precisava dar conta dos serviços domésticos também". Marlene fez quatro cursinhos preparatórios na UEM até, finalmente, conseguir garantir uma vaga no ensino superior. Ela estudou sempre em classes com alunos das mais diferentes idades.

Enquanto alguns desistiram no meio do caminho, Marlene foi persistente e agora é motivo de orgulho para toda a família. "Sempre gostei muito de estudar", diz. "Escolhi Letras porque, há 15 anos, fiz um cursinho básico de francês e a professora disse que eu levava jeito." Ansiosa para o começo das aulas, ela garante que vai manter o pique.

O coordenador pedagógico do cursinho da UEM, Geovanio Rossato, explica que o objetivo é, justamente, permitir a inclusão social no ensino superior. Por esse motivo, os estudantes são pessoas de baixa renda, com deficiência visual ou física, além de funcionários da
UEM e seus filhos. "A metodologia é diferente", diz. "O conteúdo só anda quando todos os estudantes tiverem aprendido aquela matéria que está sendo ensinada", explica Rossato. Para o segundo semestre, há a previsão de abrir vagas para alunos com deficiência auditiva.

Ao todo, na última edição do vestibular da UEM, cinco estudantes do cursinho foram aprovados. Marlene é a mais experiente desse grupo seleto. A mais nova é Valquíria Brito da Rocha, 19 anos, caloura de Física. "Meus pais estão muito orgulhosos, porque, na minha família, eu fui a única que ingressou em uma instituição pública", conta. A intenção dela, que trabalha como professora em uma pré-escola, é fazer alunos do ensino médio gostarem de Física. Uma missão e tanto.