Quando a lista dos aprovados no vestibular é divulgada, a alegria é para poucos. De fora da festa ficam aqueles que amargaram a experiência de não ler seu nome entre os futuros calouros. Pode ser por falta de estudo, de preparo psicológico, ou simplesmente porque a concorrência estava muito forte. Se a batalha é por uma vaga em universidade pública, alguns desistem e partem para faculdades particulares; outros sacodem a poeira e já começam a se preparar para mais um ano de dedicação às apostilas.

Esse foi o primeiro vestibular de André Vinícius Kaled Segato, 17 anos. Ele se candidatou a uma vaga em Odontologia na Federal, mas não passou. “Eu e minha mãe ficamos chateados. Ela disse que eu deveria ter estudado mais, e é verdade”, conta. André diz que se empenhou, mas não todos os dias nem o ano todo. “Mas eu não desisti. Esse ano vou fazer um semiextensivo e vou dar um gás para passar”, diz.

Para a psicóloga e psicopedagoga Ligia Aparecida Cimim, é importante fazer a análise do que pode ter acontecido de errado no processo de preparo para o vestibular. Assim como o aluno não pode deixar para estudar somente no ano do exame, os pais também não podem deixar para acompanhar o filho apenas na hora da aprovação. “O estudante precisa ter apoio durante o percurso. Se há proximidade dos pais, eles vão perceber, ao longo da vida escolar da criança, se ela precisa de ajuda para superar alguma dificuldade”, afirma.

Família deve oferecer apoio e compreensão

A ansiedade na hora da prova acabou prejudicando Isabella Hartog Lobo Colli, 17 anos, que não passou no vestibular da UFPR para Design de Produtos. “As questões de Física eram muito fáceis, achei que era pegadinha e acabei zerando. Na hora de preencher o gabarito eu errei também, tudo por causa do nervosismo”, conta. Apesar de ter sido aprovada em uma faculdade particular, Isabella não vai se matricular e esse ano deve tentar novamente o vestibular para a Federal. “Agora vou fazer diferente. Eu me preparei muito para a segunda fase, investi em redação e desenho, mas não passei na primeira fase. Este ano vou me dedicar a todas as matérias”, diz. Além disso, a estudante já tem uma estratégia para estar mais calma no grande dia. “Como já tenho experiência, vou me preparar mais psicologicamente. No dia anterior à prova, vou me desligar e não vou estudar em cima da hora, isso só me deixa ainda mais nervosa”, conta.

O apoio que recebeu dos pais foi fundamental para que Isabella se recuperasse. “Ao saber do resultado, chorei e fiquei com muita raiva. Eu ficava pensando que tinha estudado o ano inteiro e feito essa burrada. Mas meus pais me consolaram, e foi com a ajuda deles que eu comecei a ver as coisas de outra forma”, diz.

De acordo com Sandra Moreira, psicóloga e mestre em Filosofia, a cultura brasileira dá muita ênfase ao fato de a pessoa passar ou não no vestibular de uma universidade gratuita, e os filhos costumam ter o desejo de corresponder ao que a família espera. Quando isso não acontece, não se pode deixar que a frustração dos filhos e a angústia dos pais atrapalhe a relação entre eles.

Para a psicóloga, os pais devem acolher o sofrimento e ensinar o adolescente a lidar com a situação, incentivando novos desafios. “Uma de minhas filhas tentou o vestibular da UFPR para o curso de Medicina. Depois do primeiro resultado negativo, ela falou que nunca mais ia fazer a prova para entrar na Federal. E eu disse para ela ‘está certo, filha, hoje nunca mais você faz, mas vamos dar um tempo para você refletir’. Ela tentou mais duas vezes e conseguiu”, conta.

As pessoas devem encarar a frustração como uma oportunidade para aprender a dar a volta por cima, de acordo com Sandra. “Quem quer que a vida não tenha problemas está querendo da vida algo que ela não pode dar. Não é porque eu quero que eu consigo, mas porque eu persisto”, diz. A psicóloga lembra que o segredo da vida é saber que imprevistos existirão sempre, e que tem sucesso quem se adapta às mudanças, fazendo sempre o melhor.

Para os pais

Se o adolescente não está conseguindo lidar com a reprovação, pode ser que ele precise de ajuda para superar as frustrações. Confira algumas dicas para ajudá-lo:

- Em vez de cobrar e culpar o estudante por não ter sido aprovado, ajude-o a refletir sobre o que pode ser melhorado.

- Não procure culpados para o problema. Não adianta dizer que o cursinho não ensinou ou que a prova foi mal elaborada.

- Ajude o adolescente a manifestar sua frustração. Deixe-o chorar, ficar com raiva ou passar um tempo sozinho. Mas imponha limites, nada de sair quebrando coisas ou encher a cara.

- Incentive o estudante a praticar esportes. Em jogos e partidas a pessoa aprende a lidar com a frustração, que está presente o tempo todo.

- Se o adolescente tem irmãos que já estão na faculdade ou acabaram de ser aprovados, não faça comparações. Cada pessoa é única e tem suas próprias dificuldades.