Concluir o ensino médio e entrar direto em uma faculdade pública de saúde é para poucos. A conquista da vaga é resultado de muito estudo e dedicação, receita que deu certo para os mais novos alunos da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), do Governo do Distrito Federal, que divulgou o resultado do último vestibular na manhã de ontem. São 80 calouros de medicina e 29 de enfermagem. Eles realizaram as provas nos dias 10 e 11 deste mês.

Quando ligou o computador para conferir o resultado, Raíssa Maya, 16 anos, aluna do Setor Oeste, na 912/913 Sul, sabia que tinha grandes chances de ser aprovada em medicina porque se saiu bem na prova objetiva. “Acordei e entrei no Orkut (site de relacionamentos) para ver se já tinha algum recado, e nada. Depois abri o site da faculdade, vi meu nome e gritei muito”, lembrou. Ela fez o ensino médio e o fundamental em escolas públicas e mudou a rotina para se dedicar ao vestibular.

A escolha do curso de medicina não foi fácil. No início do 3º ano, Raíssa, moradora do Guará, estava na dúvida entre 14 cursos, inclusive filosofia, nutrição e física. Depois de um teste vocacional com a psicóloga do colégio, reduziu as opções para música e medicina. Mesmo adorando tocar violão nas horas de lazer, a garota decidiu virar médica. Ainda não sabe em qual área quer se especializar, mas já descartou pediatria e geriatria. Raíssa tentou o vestibular da ESCS para medicina e o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) para odontologia — nesse último, não passou.

A trajetória de sucesso de Raíssa começou na Escola Classe da 315 Sul, seguiu no colégio Polivalente e terminou no Setor Oeste, onde ela fez todo o ensino médio. Para complementar os estudos, fez cursos de inglês, francês e violão. Segredo para o sucesso? “Nunca fui de fazer dever de casa, mas sempre fui bem na escola. Fiz cursinho o ano todo, mas só estudava à noite, quando tinha alguma dificuldade. Desde pequena mantive as notas boas”, revelou.

Método
O método de ensino de medicina da ESCS atraiu a atenção do estudante Victor Oliveira Alves, 18 anos. Ele passou em segundo lugar entre os alunos vindos de escolas públicas, que concorreram pelo sistema de cotas. “O curso é ministrado em forma de tutoriais, você tenta resolver uma problemática, desenvolve hipóteses. E a inserção no ambiente hospitalar acontece desde cedo”, comentou. Desde crianças, Victor sonha em ser médico. O desejo cresceu aos 12 anos, quando ele sofreu um acidente de trânsito. O calouro passou por uma cirurgia na coluna e ficou mais de um ano em tratamento no hospital Sarah Kubitschek. O contato com médicos e pacientes resultou na escolha da neurologia como profissão. “Desde
que saí do Sarah tenho vontade de voltar, mas agora como médico. Me encantei com o ambiente, é uma profissão muito nobre”, afirmou.

Victor abriu mão de quase todas as atividades de lazer enquanto se preparava para a prova. Aluno do Setor Oeste e morador da Candangolândia, não tinha folga — até domingo era dia de revisar a matéria. “Tem meses que não jogo uma bola. Eu estava focado, queria muito conquistar isso”, disse.

O jovem acredita que alunos de escolas públicas têm desvantagens em relação aos estudantes de particulares na hora de concorrer a uma vaga na faculdade pública, mas as dificuldades não impedem que eles alcancem os mesmos objetivos. “Nossa escola tem carência de recursos e laboratórios, o de física é uma sala vazia. Mas nunca vi diferença entre mim e o aluno de escola particular”, concluiu. Até o início de março, quando devem começar as aulas da ESCS, Victor e Raíssa devem aproveitar para fazer o que mais gostam: divertir-se com amigos e familiares. Nada mais justo para quem vai passar os próximos seis anos estudando para salvar vidas.