As universidades e faculdades começam, na sua maioria, o ano letivo
esta semana. Algumas ainda preservam certos rituais de passagem, com o
trote, que, originalmente, servia como um divisor de águas entre os que
queriam e podiam buscar a iluminação que o conhecimento traria.
Nas primeiras universidades, como Bolonha, os alumini, os sem-luz (a-lumine), eram apresentados à comunidade por meio de um passeio pelas ruas da cidade, isso por volta dos anos 90 (do ano de 1090), e usavam um chapéu amarelo em forma de cone. O chapéu simbolizava o processo que começava.
Ao final dos estudos, mudavam de condição, não pelo título, mas pelo saber, e podiam, finalmente, tirar o chapéu. Por isso jogamos até hoje o chapéu no ritual de formatura. As coisas mudaram.
Nas férias, encontrei um ex-aluno, conversamos amenidades e ele confessou-me que o "negócio" era se formar rápido, que só queria o título. Ao que tudo indica, o ensino superior virou um "negócio"?. Nos cursos privados, muitas vezes, a lógica é que se paga pelo título e, no meio disso, estuda-se alguma coisa.
Do ponto de vista das instituições privadas, a lógica prioritária está sendo a do economicamente viável, doutores e mestres só no limite da exigência do Ministério da Educação. Muitos irão pensar que não faz diferença ter alguém com experiência em pesquisa e, no mínimo, uns oito anos a mais de estudo.
Por certo, quando o ensino superior vira apenas um negócio, cujo objetivo é título fácil, não faz diferença mesmo e o mais razoável é diminuir os custos e a incomodação. Mas se maquiamos tudo isso, dizendo que as universidades são espaços de ciência, formação intelectual, construção de ideias, aí vai ter diferença porque não é possível sair da condição de alumine sem debate, pesquisa e conflito.
Várias pessoas gastam anos das suas vidas em um curso superior para saírem exatamente como entraram. O objetivo, inclusive, é este - o de reafirmar suas verdades e se dar bem sem esforço. Incrível como o perfil do universitário hoje é o de um negociante. O que negociam, porém, não é o conhecimento porque isso é impossível, uma vez que o saber é um processo lento, solitário, no qual o professor apenas orienta, educa.
Educar vem do latim educare, que é a ideia de potencializar o que o outro tem de melhor, ou seja, não é entrar em sala de aula e ler mecanicamente artigos de um código dizendo como o Supremo está decidindo. Educar é fazer com que aqueles personagens percebam o objeto do que estão estudando, sejam críticos e, portanto, criativos.
Mas isso só é possível com pesquisa, dúvidas e incômodos. A grande vantagem de entrar e sair igual de um curso é a ausência de incômodo e a falsa sensação de certeza. Se a verdade da ciência é uma verdade refutável, no sentido de Popper, como fica a formação de alguém que busca, exatamente, avalizar suas crenças.
Vivemos a era do ensino McDonald, vale mais cumprir burocraticamente os minutos do horário do que desenvolver bem os conteúdos. Liberdade de cátedra
virou mito constitucional, professor que foge à regra da "normapatia" pode se incomodar.
É mais importante uma aula sem dificuldades do que a dúvida e a discussão. O segredo é falar algo que vá ao encontro do que o aluno deseja, no tempo exato dos minutos do período, como um jogo de futebol sem prorrogação. O silêncio nas aulas de um curso de direito só é interrompido quando algum aluno esta a mostrar o seu IPhone ou a última tatuagem.
Autoridade virou palavrão e respeitar professor é sinal de fraqueza. A capacidade de mobilização só surge quando algo aperta o sapato ou o interesse, ou seja, para discutir a nota ou a questão que obrigava a pensar um pouco mais que o normal.
Brigar por excelência acadêmica para quê? Até porque, nesse contexto, é difícil identificar o que é. Ceticamente, estou a acreditar, diante do perfil dos alunos e da maioria das instituições privadas, que se a ideia de educação é potencializar o que o outro tem de melhor, ou não há muito de bom para vir à tona ou, simplesmente, estamos a optar pela via mais fácil.
Afinal, excelência acadêmica e aprendizado dão trabalho, mas nem sempre dão dinheiro. O negócio é fazer o direito virar curso técnico de uns três anos que habilite para concurso. Eis o sonho dourado de muitos dos meus alunos.
Nas primeiras universidades, como Bolonha, os alumini, os sem-luz (a-lumine), eram apresentados à comunidade por meio de um passeio pelas ruas da cidade, isso por volta dos anos 90 (do ano de 1090), e usavam um chapéu amarelo em forma de cone. O chapéu simbolizava o processo que começava.
Ao final dos estudos, mudavam de condição, não pelo título, mas pelo saber, e podiam, finalmente, tirar o chapéu. Por isso jogamos até hoje o chapéu no ritual de formatura. As coisas mudaram.
Nas férias, encontrei um ex-aluno, conversamos amenidades e ele confessou-me que o "negócio" era se formar rápido, que só queria o título. Ao que tudo indica, o ensino superior virou um "negócio"?. Nos cursos privados, muitas vezes, a lógica é que se paga pelo título e, no meio disso, estuda-se alguma coisa.
Do ponto de vista das instituições privadas, a lógica prioritária está sendo a do economicamente viável, doutores e mestres só no limite da exigência do Ministério da Educação. Muitos irão pensar que não faz diferença ter alguém com experiência em pesquisa e, no mínimo, uns oito anos a mais de estudo.
Por certo, quando o ensino superior vira apenas um negócio, cujo objetivo é título fácil, não faz diferença mesmo e o mais razoável é diminuir os custos e a incomodação. Mas se maquiamos tudo isso, dizendo que as universidades são espaços de ciência, formação intelectual, construção de ideias, aí vai ter diferença porque não é possível sair da condição de alumine sem debate, pesquisa e conflito.
Várias pessoas gastam anos das suas vidas em um curso superior para saírem exatamente como entraram. O objetivo, inclusive, é este - o de reafirmar suas verdades e se dar bem sem esforço. Incrível como o perfil do universitário hoje é o de um negociante. O que negociam, porém, não é o conhecimento porque isso é impossível, uma vez que o saber é um processo lento, solitário, no qual o professor apenas orienta, educa.
Educar vem do latim educare, que é a ideia de potencializar o que o outro tem de melhor, ou seja, não é entrar em sala de aula e ler mecanicamente artigos de um código dizendo como o Supremo está decidindo. Educar é fazer com que aqueles personagens percebam o objeto do que estão estudando, sejam críticos e, portanto, criativos.
Mas isso só é possível com pesquisa, dúvidas e incômodos. A grande vantagem de entrar e sair igual de um curso é a ausência de incômodo e a falsa sensação de certeza. Se a verdade da ciência é uma verdade refutável, no sentido de Popper, como fica a formação de alguém que busca, exatamente, avalizar suas crenças.
Vivemos a era do ensino McDonald, vale mais cumprir burocraticamente os minutos do horário do que desenvolver bem os conteúdos. Liberdade de cátedra
É mais importante uma aula sem dificuldades do que a dúvida e a discussão. O segredo é falar algo que vá ao encontro do que o aluno deseja, no tempo exato dos minutos do período, como um jogo de futebol sem prorrogação. O silêncio nas aulas de um curso de direito só é interrompido quando algum aluno esta a mostrar o seu IPhone ou a última tatuagem.
Autoridade virou palavrão e respeitar professor é sinal de fraqueza. A capacidade de mobilização só surge quando algo aperta o sapato ou o interesse, ou seja, para discutir a nota ou a questão que obrigava a pensar um pouco mais que o normal.
Brigar por excelência acadêmica para quê? Até porque, nesse contexto, é difícil identificar o que é. Ceticamente, estou a acreditar, diante do perfil dos alunos e da maioria das instituições privadas, que se a ideia de educação é potencializar o que o outro tem de melhor, ou não há muito de bom para vir à tona ou, simplesmente, estamos a optar pela via mais fácil.
Afinal, excelência acadêmica e aprendizado dão trabalho, mas nem sempre dão dinheiro. O negócio é fazer o direito virar curso técnico de uns três anos que habilite para concurso. Eis o sonho dourado de muitos dos meus alunos.


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