Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris VII-Jussieu, Alfredo Pena-Vega é um dos maiores pensadores da atualidade. Coordenador do Observatório Internacional das Reformas Universitárias (Orus), organização não-governamental criada em 2001 para pensar mudanças na educação superior, ele visitou o reitor da Universidade de Brasília José Geraldo de Sousa Junior, na manhã da sexta-feira, 27 de março.

Autor de livros como O Pensar Complexo e Edgar Morin em Foco, ele falou à reportagem da UnB Agência sobre reforma e autonomia universitária e o papel do Orus na busca de transformações nas universidades pelo mundo. Exilado no Brasil no fim dos anos 70, o francês ministrou seu primeiro curso na UnB sobre Complexidade, em 1993, a convite de Cristovam Buarque, então reitor da universidade.

Anos depois retornou como convidado do Departamento de Sociologia para um outro curso com duração de três meses e frequentemente ministra palestra e aulas na pós-graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável. "Vim aqui encontrar meu amigo reitor José Geraldo. Nos conhecíamos de outro tempo. Quero retomar nossa colaboração e ver se o Observatório pode ser útil no projeto que o reitor tem, que eu acredito ser muito interessante" disse.

- COMO O SENHOR AVALIA O DESEMPENHO DAS UNIVERSIDADES NO MUNDO?

Cada universidade, em cada contexto, tem seus próprios problemas e desafios. Mas há um elemento que é comum a todas elas e que temos observado em diferentes continentes do mundo. A universidade de hoje, tal como está sendo construída, não tem possibilidade de responder aos grandes desafios que nós estamos enfrentando agora. Desafios econômicos, sociais, ecológicos, de novos conhecimentos, políticos, e desafios de novos pensares também. Estamos sentindo isso muito forte. Os desafios são grandes e também para nós da Orus, de poder acompanhar isso.

- OS DIRIGENTES E OS REITORES TÊM TIDO ESSA CONSCIÊNCIA?

Alguns, não todos. Existem os que estão muito cegos não só a isso tudo, mas também à realidade econômica, que é uma realidade, não pode se desconhecer. Por outro lado, não se pode focalizar tudo sobre esse ponto de vista. E o econômico também está sendo uma presença muito forte dentro das universidades, como as privatizações, a mercantilização da educação.

Isso traz dificuldades para os próprios dirigentes de enxergar de outra forma. Estamos fazendo no mês de junho um fórum de discussão na China para entender justamente a dificuldade que tem a universidade chinesa para se inserir dentro do mundo universtário, porque os chineses entraram numa expansão econômica sem limite e as universidades estão sendo engolidas por grandes conglomerados econômicos, que compram a universidade, e que vendem o saber.

- AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS ATUALMENTE DEBATEM E BUSCAM AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA. O QUE O SENHOR PENSA SOBRE ISSO?

É um tema que se está em todos os países, é um assunto recorrente. Penso que as universidades devem ser independentes mas dependentes, pois eu não posso ser autônomo sozinho, eu preciso do outro. É uma dialógica complexa. A universidade não pode ficar fechada em torno da autonomia, porque ela depende de outra coisa, depende de fora também.

- QUAL É O PAPEL DO OBSERVATÓRIO NISSO TUDO?

A Orus é como um satélite, tenta captar aquilo que está se fazendo e não procurar uma solução. Não tem ponto final, e sim pontos de referência. O papel é de dar um feedback. Não temos uma
proposta de um caderno de soluções. Nós tentamos dialogar, observar e tentar dar uma resposta de intercâmbio, de discussão entre aqueles que estão atento ao problema.

E nós estamos observando de uma maneira autônoma, não tem nenhuma instituição oficial que nos prende. Somos independente, e daí a nossa força, porque não somos enviados por nenhum governo, não temos nenhum partido por trás. Queremos participar de uma mudança, e a mudança tem que partir dos atores próprios. Agora é uma dificuldade, porque cada um está dentro do seu próprio universo e quer proteger a sua categoria, mas, como disse o reitor.

- VOCÊ CONCORDA COM UMA INSERÇÃO MAIOR DA RESPONSABILIDADE SOCIAL NAS UNIVERSIDADES?

O professor não pode estar desconectado de sua responsabildiade individual. Acho que isso é um ponto muito importante que vamos trabalhar agora pra frente, tentar identificar como a responsabilidade social pode entrar e fazer parte da universidade, que seja uma coisa transversal. Mais do que nunca, hoje, a sociedade precisa, temos desafios que são muito grandes, basta pensar no aquecimento global, por exemplo.

Um departamento, um centro de pesquisa sozinho não tem a possibilidade de responder a essa complexidade. Então aí que está a iniciativa da transversalidade, da interdisciplinalidade. Nós não temos que ser apenas utopistas, temos que ser utopistas realistas. E não é uma discussão de demagogia, temos que pensar nas novas gerações e em soluções para as relações presentes.