Apesar do documento que detalha e oficializa a proposta só ficar pronto no dia 30, a comunidade acadêmica já debate os seus prós e contras. “O vestibular é sempre uma estratégia em aperfeiçoamento. Esta é uma questão que não pode ficar estabelecida de uma vez para sempre”, diz o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Jr. “Já solicitei ao Decanato de Graduação e ao Cespe que examinem essa sugestão à luz dos estudos que tem sido feitos nos últimos tempos, ainda sob a forma de modelos teóricos”, informa.
A Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) diz, de antemão, que está sempre disposta a melhorar os critérios de seleção de alunos, e que a proposta do MEC não traz grandes dificuldades para ser implementada.
O secretário-executivo da entidade, Gustavo Balduíno, no entanto, teme que esse processo possa criar uma hierarquia entre as instituições, uma vez que a nota da prova única definiria em qual universidade o candidato poderá entrar. "Queremos evitar que se crie um ranking de cursos, baseado nesse tipo de seleção”, diz Balduíno.
O professor Joaquim Neto, diretor do Cespe (Centro de Seleção e Promoção de Eventos), prefere esperar o detalhamento da proposta para avaliá-la. É o Cespe que realiza o vestibular da UnB, que conta ainda como meio de acesso o PAS (Programa de Avaliação Seriada) e o sistema de cotas. “São processos seletivos altamente avançados, que examinam toda a estrutura de competências e habilidades, não focando só no conhecimento teórico”, afirma Neto.
O objetivo da proposta do MEC é privilegiar uma prova que meça também a capacidade crítica e analítica do aluno, além de ajudar a modernizar os currículos do ensino médio, que seriam voltados para esse novo processo seletivo.
DECOREBA - O projeto de formular uma prova que priorize a avaliação de habilidades e competências em vez dos peguinhas e decorebas que muitos vestibulares hoje utilizam é recebida com bom grado pela comunidade acadêmica e pelos alunos.
“O mais interessante disso tudo é a proposta de refazer, reorganizar e reconceber o estilo de prova que hoje é aplicado”, afirma o professor aposentado do Departamento de Sociologia da UnB Pedro Demo.
A dúvida reside, no entanto, na eficácia do novo modelo quanto às mudanças estruturais no sistema de ensino médio e superior. Para o professor da Faculdade de Educação da UnB Remi Castioni, a proposta de uma prova mais contextualizada melhora o processo seletivo, mas não é suficiente. “É necessário pensar o ingresso articulado de forma mais horizontal”, diz. “Ele deve ser feito de forma que o jovem ingresse em determinada área do conhecimento e, ao longo do tempo, possa fazer outras opções.”
ALUNOS - Para a aluna do quarto semestre do curso de geologia, Letícia dos Reis Monteiro, 19, a proposta não é boa para o Brasil, onde a qualidade do ensino médio é muito desigual entre diferentes regiões do país. “Isso vai segregar muito. Um candidato de um Estado que não oferece bom ensino vai ser prejudicado em detrimento de outro que tem um ensino bem melhor”, diz.
Já para as alunas do segundo semestre do curso de letras Mariana Nogueira, 20, e Fernanda Garcia, 17, a adoção de um processo único facilitaria os estudos. “Quando você tem um monte de vestibular pra fazer como acontece hoje, você fica muito tenso, tendo que estudar a matéria especificamente para cada universidade”, diz Mariana.
“É um modelo que funciona nos Estados Unidos, onde entra na universidade quem se destaca no ensino médio”, diz o aluno do segundo semestre do curso de física Diego Silva Veloso, 20. “A vantagem é que ele força o aluno a estudar mais no ensino médio”.


