As circunstâncias não favoreceram o presidente paraguaio nesses momentos extremamente delicados. A atitude de completo retraimento de Urquiza constituiu surpresa e sério revés aos planos de Lopez.

triplice

No Uruguai, em vez de contar com o governo amigo, deparou-se com Venâncio Flores, aliado do Brasil. O governo argentino cedo verificou que seria difícil manter-se neutro, diante, inclusive, da invasão de seu território. A aliança dos três governos para combaterem o inimigo comum era a tendência política natural que necessitava somente de um tratado que a oficializasse. Foi o que se deu.A Paranhos substituía, como ministro em missão especial em Montevidéu, o conselheiro Francisco Otaviano de Almeida Rosa que chegou a seu posto em março de 1865. Pouco depois assinava, em Buenos Aires, em 10 de maio, com Rufino de Elizalde, Ministro das Relações Exteriores da Argentina e com o plenipotenciário uruguaio Carlos de Castro, o Tratado de Aliança Ofensiva e Defensiva.

Esse Tratado, conhecido como "da Tríplice Aliança" definiu, no artigo l, sua própria finalidade: unirem-se os signatários "em aliança ofensiva e defensiva na guerra promovida pelo governo do Paraguai" esclarecendo, no artigo 7, que a Guerra não é "contra o povo do Paraguai e sim contra o seu governo".O artigo 3 trata do "comando-em-chefe e direção dos exércitos aliados", que recaíram em Mitre, "devendo começar as operações de guerra no território da República Argentina ou na parte do território paraguaio que é limítrofe com aquele".

Firmam, entretanto, as Partes Contratantes, "o princípio da reciprocidade para o comando-em-chefe, caso as ditas operações se houverem de transladar para o território brasileiro ou oriental".De acordo com o artigo 6, "os aliados se comprometem solenemente a não deporem as armas se não de comum acordo, e somente depois de derrubada a autoridade do atual governo do Paraguai; bem como a não celebrarem tratados de paz, trégua ou armistício, nem convenção alguma para suspender ou findar a guerra, se não de perfeito acordo entre todos".O artigo 7 se referia à legião paraguaia, tema que graves problemas suscitaria.

"A independência, soberania e integridade da República do Paraguai" eram garantidas pelo artigo 8 que assinalava com rigor lógico: "em conseqüência, o povo paraguaio poderá escolher o governo e instituições que lhe aprouverem, não podendo incorporar-se a nenhum dos aliados e nem pedir o seu protetorado como conseqüência da guerra".

A questão da livre navegação dos rios Paraná e Paraguai era abordada no artigo 11. Enquanto o 14 tratava do pagamento, pelo governo paraguaio, das despesas da guerra, bem como das reparações e indenizações, o artigo 15 prescrevia que, por uma convenção, se regulariam os temas relacionados com o pagamento da dívida "procedente das causas mencionadas".

O conhecido artigo 16 estipulava as bases "que os aliados exigirão do governo do Paraguai" quando venha a celebrar, "com os respectivos governos, tratados definitivos de limites". As bases então previstas para o Tratado argentino-paraguaio iriam, finda a guerra, ser motivo de sérias dificuldades. O artigo 18 considerava secreto o Tratado "até que se consiga o fim principal da aliança", precaução que não impediu, em breve, a divulgação de seu texto.

Finalmente, pelo artigo 19, estabeleciam os signatários a forma com que começariam a vigorar as estipulações do Tratado: as que independiam da aprovação legislativa, "desde que sejam aprovadas pelos governos respectivos e as outras desde a troca das ratificações".Durante cinco anos pelejaram povos irmãos em uma contenda dramática e penosa que, entretanto, não deixou de marcar o ponto de partida de uma fase inteiramente renovada do relacionamento dos quatro países, o que se evidencia no fato de que estamos prestes a comemorar 131 anos de ininterrupta paz nesta área.

Com a entrada das forças aliadas em Assunção, em Janeiro de 1869, procuraram os Aliados contato com os cidadãos paraguaios que se poderiam dedicar à reorganização do país. Em 2 de julho, os protocolos de Buenos Aires criavam um Governo Provisório no Paraguai.O Tratado da Tríplice Aliança estabelecia (art. 16) que as condições de limites dependeriam de tratados definitivos a serem celebrados entre os aliados e o futuro governo paraguaio.

Tão logo, porém, foi criado o Governo Provisório, o General Mitre ocupou Vila Ocidental.É verdade que a 27 de dezembro de 1869 o Secretário das Relações Exteriores da Argentina, Mariano Varela, dentro do espírito e da letra do Tratado de 1865, declarava, em nota, que "o governo argentino sustentou há muito tempo, em discussões com o representante de S.M. o Imperador, que a vitória não dá às nações aliadas direito para declararem por si, limites seus aqueles que o Tratado assinala.

Crê o mesmo governo, hoje como então, que os limites devem ser discutidos com o governo que se estabelecer no Paraguai e que a sua fixação será feita nos tratados que se celebrarem depois de recebidas pelas partes contratantes os títulos em que cada um apoiar os seus direitos".Após os acontecimentos de Cerro Corá, Paranhos sugeriu que os plenipotenciários aliados fossem para Assunção negociar o ajuste preliminar de paz.

Como a Argentina não aceitava discutir com o Governo Provisório, surgiu a questão de se saber se, de acordo com o Tratado da Tríplice Aliança, poderia um dos aliados tratar bilateralmente com o Paraguai, caso não se chegasse a um acordo conjuntamente.A Argentina, desde logo, se opôs a essa interpretação. No Brasil, o assunto foi submetido ao Conselho de Estado que opinou favoravelmente, com votos contrários, entretanto, de Nabuco e Abaeté.

A questão não era, assim, pacífica. Entretanto, a 20 de junho de 1870 foi assinado em Assunção o Protocolo Preliminar de Paz.A negociação do tratado definitivo enfrentava, porém, sérias dificuldades. Questões como a referente à destruição das fortalezas de Humaitá e a própria interpretação do Tratado de 1865 criaram sérios atritos entre o Brasil e a Argentina.

Pensou-se inclusive em propor uma rescisão amigável daquele ato internacional.A Paranhos, chamado a organizar novo gabinete, sucedeu João Maurício Wanderley, Barão de Cotegipe, que ao chegar a Assunção, tomou contato com o representante argentino, Manuel Quintana. Segundo este, sem abrir mão das vantagens do Artigo VI, a Argentina poderia tratar das questões de limites com o Paraguai, cabendo aos outros aliados apoiá-la.

Os representantes do Brasil e do Uruguai não concordaram com essa interpretação, retirando-se Quintana a Buenos Aires para consultar seu governo.Cotegipe não teve, então, dúvidas em assinar, com o plenipotenciário paraguaio, em 9 de Janeiro de 1872, os tratados definitivos de Paz, de Limites, de Amizade, Comércio e Navegação e para a Entrega de Criminosos e Desertores.Em Buenos Aires foi grande a repercussão desse acontecimento.

Foram, nos meses subseqüentes, trocadas entre os governos da Argentina e do Brasil, notas que manifestavam a gravidade daquele momento nas relações entre os dois países. Sarmiento tomou então a iniciativa de enviar ao Rio o general Mitre que, com Pimenta Bueno, assinou o acordo Mitre-São Vicente pelo qual, entre outros pontos, se declarou a manutenção do Tratado da Tríplice Aliança, se aprovaram os Tratados Cotegipe, se garantiu o apoio moral do Império a seus aliados e se estabeleceu a retirada das tropas brasileiras e argentinas de Assunção.Restava pois à Argentina negociar seus limites com o Paraguai.

As conversações foram difíceis mas se chegou finalmente a um entendimento que previa uma solução arbitral. Tendo sido escolhido árbitro o Presidente Hayes, dos Estados Unidos da América, seu laudo, de 12 de novembro de 1878, atribuiu ao Paraguai a posse do Chaco e da Vila Ocidental que passou a chamar-se Vila Hayes e da qual as autoridades paraguaias tomaram posse em 13 de maio de 1879.Como comenta Delgado de Carvalho, "poucas negociações de tratados de paz tiveram tão longa duração": prolongaram-se de 1869 a 1879.