As mudanças propostas pelo ministro Fernando Haddad aumentam a possibilidade de ingresso em diferentes cursos e universidades, mas podem diminuir ainda mais o número de formandos, aumentando a evasão.

Do modelo americano, Haddad destaca somente o SAT – Scholastic Aptitude Test. Além da nota desse teste, outros instrumentos são utilizados para definir o ingresso nas universidades americanas: entrevista com o aluno, cartas de recomendação, currículo escolar e extracurricular.

Uma vez no “college” (dois primeiros anos), algumas faculdades exigem que os alunos cursem diferentes áreas: história, literatura, ciências sociais, artes etc., dando ao jovem uma ampla visão sobre as possibilidades de carreira e disciplinas da universidade. No terceiro e quarto anos, para cada estudante é designado um professor orientador com o propósito de ajudá-lo a selecionar seu programa de estudo. É nesse momento que o jovem realiza finalmente sua escolha profissional.

No Brasil, o jovem continuará a escolher seu curso antes de ingressar na universidade, logo após a realização do Enem. Ora, os índices de evasão já atingem a brutal marca nacional de 40% nos dois primeiros anos de curso. Inúmeras pesquisas já apontaram que a falta de informação é um dos principais fatores que levam o jovem ao abandono do curso, inclusive nas universidades federais. Soma-se a isso um novo modelo, no qual o candidato pode escolher cinco diferentes cursos em cinco diferentes universidades, sem nenhuma obrigatoriedade por parte das escolas de oferecer um atendimento eficaz e consistente em orientação vocacional, e estará armado o maior modelo para se bater o recorde de evasão universitária no Brasil.

O jovem tem pressa de entrar na universidade, mas nenhum pudor em sair antes do tempo. Alguns, com baixa tolerância à frustração, por não gostarem de duas cadeiras já têm motivo para desistir do curso.

Em muitos anos de atendimento a vestibulandos e a jovens que desistiram de um curso e buscaram ajuda para realizar outra escolha, já deparei com inúmeros “motivos”
que justificaram a evasão: escolheu Oceanologia “porque gostava de surfar”, Veterinária “por adorar o seu cachorro”, Medicina “porque é o único que realmente tem mercado”, Direito “para provar que o advogado conduziu mal a separação de seus pais”, Educação Física “porque não quer envelhecer”, Letras “porque é mais fácil de entrar”! Enfim, por inúmeros equívocos na escolha, além de outros fatores, o caro investimento feito na manutenção dessas universidades vai literalmente para o lixo.

Sem a obrigatoriedade de um competente atendimento em orientação vocacional nas escolas e uma política que dê conta de solucionar a questão das vagas remanescentes em função da evasão, logo estaremos nos perguntando novamente: quem vai pagar mais essa conta?