Se você pensa em ser designer não deixe de ler estas dicas.

O diferencial está em alta. Produtos iguais, com poucas opções de modelos e cores estão fadados a encalhar espera de clientes. Inovar virou obrigação para quem quer ganhar sua fatia em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado. E, na busca pelo quê a mais para conquistar clientes externos, empresas dos mais diversos ramos aumentam os investimentos na área de design.

Para alguns setores, a estratégia foi decisiva, como aconteceu com a indústria coureiro-calçadista. A recuperação veio graças mudança de foco: o número de pares exportados diminuiu, mas o valor embarcado aumentou. Tudo em função do maior valor agregado do produto. Em 1993, foram vendidos 201 milhões de pares de calçados brasileiros para outros países, o equivalente a US$ 1,8 bilhão.

Quinze anos depois, em 2008, após a adoção de novo perfil, foram exportados 165 milhões de pares, o equivalente aos mesmos US$ 1,8 bilhão, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

O setor moveleiro também apostou na criatividade para criar linhas mais arrojadas e, com isso, incrementar o faturamento. A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) considera o design tão fundamental para o desempenho da atividade que decidiu incentivar a constante inovação nos processos produtivos e nos produtos. Assim surgiu o Prêmio Design Abimóvel, que valoriza os criadores de peças que possam ser viabilizadas economicamente e produzidas com originalidade. Neste ano, o prêmio tem sua sexta edição.

O próprio governo federal, com base nos resultados positivos, decidiu promover o desenvolvimento do setor e criou o Programa Brasileiro de Design (PBD), iniciativa que surgiu em 1995. Na justificativa, a União classifica o design como diferencial que gera maior valor agregado s exportações, promovendo a oferta de produtos diferenciados e inovadores. Também atribui a ele responsabilidade de criação de uma identidade e uma imagem favorável ao produto nacional.

De lá para cá, muita coisa avançou. Na política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior do MDIC, lançada em 2004, o design está implícito nas diretrizes gerais de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico - inovação de produto, processo e gestão e no Programa Imagem do Brasil no Exterior. Mas ainda há muito que evoluir.

O diretor da design.comDESENHO, Cristiano Basso Gallina, lembra que, de uma maneira geral, as empresas brasileiras - incluindo as gaúchas - ainda têm receio de correr riscos. "Talvez por falta de capital ou por uma questão cultural", avalia.

Ele lembra que segmentos variados da indústria ainda mantêm a velha prática de copiar o que se faz lá fora, especialmente na Europa, onde a estética e funcionalidade do design são mais valorizadas. Assim, catálogos de produtos importados servem muitas vezes de modelos para as linhas de produção brasileiras.

O fato é que, na maior parte dos casos, muito mais do que uma opção, investir na área tem sido uma necessidade de mercado. "As empresas não precisavam inovar porque negociavam volumes. Isso gerava certa acomodação", afirma o presidente da Associação dos Profissionais de Design do Rio Grande do Sul (ApDesing), Mauro Martin.
E mais: os consumidores também passaram a exigir mais. "Antes, a compra era só pela marca. Agora, o público quer o diferencial", afirma. Outro fator que motivou a virada foi a abertura do mercado, com competidores internacionais mais bem preparados. Assim, agregar valor passou a ser a forma de se manter no mercado.

Nova roupagem ajuda Melissa a se reposicionar no mercado

Primeira linha da Grendene a fazer sucesso, a Melissa passou por um reposicionamento de mercado nos últimos anos. A marca, que está no mercado há quase 30 anos, é voltada para o design no início dos anos 1980. Mas foi dentro da estratégia de fortalecimento do produto que surgiu a ideia de levar s consumidoras formas mais arrojadas. Em 1998, a empresa começou a recriar a tendência ao trabalhar com o plástico. "O Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento investiu fortemente para buscar a vanguarda de acordo com cada segmento da linha", lembra Francisco Schmitt, diretor de relações com investidores da Grendene.

O resultado foi a parceria com estilistas mundo afora e a criação de 500 diferentes modelos. Foram fabricados mais de 60 milhões de pares e outros 20 milhões tiveram como destino mais de 80 países. "Saímos a campo em outros países para ver o que é destaque", diz o executivo. Dessa forma, explica Schmitt, a Melissa consegue tornar acessível produtos assinados por profissionais de renome internacional, como Jean Paul Gaultier, os irmãos Campana, a estilista britânica Vivienne Westwood e a arquiteta iraquiana Zaha Hadid.

O design também proporcionou empresa obter produtos que fossem os mais sustentáveis possíveis. "Tudo é projetado para ter o menor impacto possível ao meio ambiente", ressalta Schmitt. Na prática, a criação de um modelo Melissa leva em conta pouco gasto de energia na fabricação, uma vida útil maior, a possibilidade de reutilização e a facilidade de desmontagem e reciclagem.


Gaúcho é referência mundial

O talento individual faz a diferença na área de design. Exemplo é o gaúcho Cristiano Basso Gallina, mais uma vez destaque do iF Product Design Award, na Alemanha, considerado o principal prêmio europeu do setor. Classificado entre os finalistas este ano com uma ferramenta para uso na construção civil, um nível.

Esta é a terceira vez que Gallina, diretor da design.com DESENHO, desponta no iF. Em 2007 também chegou final com uma embalagem para álcool que privilegia a racionalização no transporte e, no ano anterior, foi o vencedor do prêmio com um conjunto de talheres que fica apoiado sobre si e a parte que vai boca não encosta na mesa, privilegiando a higiene.

Entre os projetos reconhecidos lá fora, apenas os talheres foram projetados por encomenda - pela empresa Di Solle, de Gramado - e estão em produção, assim como outro projeto do designer, os talheres identificados em braile, lançamento mais recente. Os demais - o nível e a embalagem para álcool - foram nichos que ele próprio descobriu e decidiu investir, mas que ainda não foram comercializados com a indústria.

No caso do nível, a ferramenta possui forma robusta e encorpada e é produzida em material resistente. Já as embalagens para álcool tiveram como ponto de partida a segurança e a racionalização no transporte, aumentando a capacidade de armazenagem por metro quadrado.

A dificuldade em conseguir uma indústria parceira muitas vezes é resultado do receio que as empresas têm de apostar na inovação. Mas o profissional assegura que essa investida é feita de forma planejada. "Os riscos se reduzem com um projeto efetivo, com pesquisa de mercado, elaboração de protótipos e testes."
Os casos de segmentos inovadores comprovam que a estratégia é acertada. A indústria automotiva nunca vendeu tanto e nunca promoveu tantas mudanças nos modelos de automóveis. Na outra ponta, a indústria de móveis, utensílios domésticos e utilidades para o lar têm um bom espaço para o design conquistar. Recentemente, Gallina desenvolveu dois modelos de sofás para a Artri Móveis, de Bento Gonçalves. Os sofás privilegiam a mudança de layout com diferentes combinações. O modelo Sofatri tem ainda a vantagem de ocupar três vezes menos volume do que os sofás comuns ao ser transportado.

Quando um empresário decide investir, ao optar por uma máquina nova, a vantagem pode se restringir ao aumento da eficiência produtiva e não necessariamente vai trazer um diferencial para o produto. Já o design é estratégico para as empresas que querem se sobressair. "Potencializa o sucesso de um produto perante o mercado", defende Gallina, ressaltando que, dessa forma, pode-se fugir da guerra de preços e atender a um público que procura por algo novo, eficiente e bonito.

Fatores do design

- Antropologia: comportamento e ideias do cliente/consumidor/usuário
- Ecologia: ciclo de vida do produto, conservação, respeito ao meio ambiente
- Economia: custo é um parâmetro, o que importa é o "valor"
- Ergonomia: adequação natureza humana, conforto ao uso humano
- Filosofia: estética industrial e ética profissional
- Geometria: simplificação e coerência formal
- Mercadologia: relação da qualidade com preço e promoção, estratégia de mercado
- Tecnologia: estudo de matérias-primas, obtenção de materiais e fabricação
- Psicologia: percepção, criatividade,
informação

Coza usa ferramenta como estratégia de crescimento

As utilidades domésticas de plástico ganharam lugar de destaque na casa. A Coza, empresa gaúcha com 26 anos de mercado, investe em design há muito tempo. "Antes mesmo de o conceito ganhar destaque", diz a diretora comercial, Daniela Zatti. A ideia de apostar na inovação como diferencial competitivo inclui desenho, forma, função, cores e materiais usados nas linhas.
A questão foi tão decisiva para a companhia que o design é tratado como meta para alcançar resultados. "Conseguimos tirar o plástico do universo de commodities e fazê-lo ocupar lugar de destaque na casa, criando um novo conceito para o uso desses acessórios", diz Daniela, que atribui s medidas adotadas a conquista da liderança no mercado de design multifuncional de homeware em plástico no Brasil.


A Coza fabrica 12 milhões de peças plásticas por ano em diferentes materiais. São mais de 200 produtos em diversas linhas, exportados para 20 países. A empresa, fundada em 1983, começou produzindo saca-rolhas, abridor de garrafas e kits para bar. Em 1987, começou a usar acrílico e poliestireno. O investimento mais pesado em design veio em 1995, ano em que passou a trabalhar com polipropileno. Duas vezes por ano, a companhia apresenta novos produtos e combinações. Entre os lançamentos, foi pioneira, em 2007, com a linha em plástico 100% biodegradável. As peças são feitas com o bioplástico, matéria-prima orgânica obtida do amido da batata, e apresentam as mesmas características do polipropileno, com a diferença que se decompõem com facilidade em compostagem (a partir de 18 semanas enterradas, conforme a espessura da peça). Em 2006, a mistura com a matéria orgânica lignina permitiu a redução de 65% de polipropileno na linha ecológica, que ganhou reforço com itens feitos com biopolímero nacional, base de fibras e casca de coco.

UniRitter lança mestrado com foco na formação de professores

O Rio Grande do Sul acaba de ganhar mais um mestrado na área de Design. Depois da Ufrgs e da Unisinos, agora é a vez da UniRitter investir na especialização com foco na área. A novidade fica por conta do foco do curso, que tem uma das linhas destinadas formação de professores. Voltado para designers e profissionais de áreas afins, o mestrado é o primeiro no Estado e um dos pioneiros no Brasil a ter esse caráter. "É preciso formar multiplicadores educacionais especializados em design, inovação e criatividade", defende o coordenador do curso, professor Julio Carlos de Souza Van Der Linden.


Na área de Educação para o Design, a UniRitter quer desenvolver bases teóricas e metodológicas. Já na linha de Inovação, a universidade dará ênfase ao uso de novas tecnologias e novos produtos no cotidiano das pessoas, com foco no Rio Grande do Sul. "Queremos estimular também a visão crítica sobre o papel desses profissionais e sua responsabilidade", diz Van Der Linden.
O design ganha destaque não só pela estética arrojada, mas também pela funcionalidade que imprime aos produtos. "Isso envolve todo o processo, da matéria-prima a todo o estudo que está por trás da criação", resume Martin. Além das indústrias
moveleira e coureiro-calçadista, estão na vanguarda desse cenário as áreas plástica e química, moda e gráfico-digital.

O fato é que a procura por especialistas na área trouxe tona uma briga antiga de quem atua no setor: a profissão de designer ainda não está regulamentada. "É um filão de mercado que deve continuar a crescer e a atrair mais gente", acredita o presidente da APDesign, Mauro Martin. Embora tenha cada vez mais pessoas trabalhando no setor, o fato é que não há estatísticas oficiais que tracem um raio-x. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam que, em 2007, cerca de 17 mil estudantes ingressaram em cursos de Design no Brasil e 6,8 mil concluíram os estudos naquele ano.

O Estado pensa na possibilidade de criar o primeiro sindicato da área. "Outra frente é o Fórum Brasil Design (FBD), que nasceu com essa proposta", explica Martin, ao destacar a meta da entidade, que é a de representar todas as associações profissionais e acadêmicas da área, além dos centros de promoção de design do País.

Gestão estratégica é tema de dissertação sobre design

A gestão de projetos de design foi tema da dissertação do primeiro mestre formado em um Programa de Pós-Graduação em Design do Rio Grande do Sul. Maurício Bengenthal de Andrade, graduado em Administração de Empresas, decidiu-se pelo design por considerar a alternativa mais econômica para a implantação da inovação nas empresas. Com nota A no curso realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), optou por ser um estudioso do assunto, privilegiando a área estratégica em vez da operacional. Atualmente, é professor de Empreendedorismo e Mercados na Feevale, em Novo Hamburgo, gestor da Rede Gaúcha de Design, consultor de gestão estratégica e consultor do projeto Redes de Cooperação, da Secretaria Estadual do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais (Sedai).

Jornal do Comércio - Por que o senhor decidiu estudar design?
Maurício Bengenthal de Andrade - Enxerguei que é a alternativa mais econômica para a inovação dentro das empresas. O processo de design não necessariamente precisa de uma pesquisa tecnológica, como outros processos, para atingir resultados de melhoria de produtos, de processos e de incremento na competitividade das empresas.

JC - O senhor tem algum caso de sucesso com o design como estratégia?
Andrade - No Sport Club Internacional realizamos um trabalho, em 2001, para ampliar as vendas de licenciamentos. Saímos de 70 itens da linha de produtos licenciados para 250. O ano de 2001 foi bem complicado para o clube. Mesmo assim elaboramos uma estratégia de aumento de distribuição através de abertura de novos pontos-de-venda. Com isso, tornamos o licenciamento do clube atrativo, ampliando o número de lojas. Para negociar com os fornecedores para vender as 80 lojas, a receptividade era maior do que para um número reduzido de pontos-de-venda.

JC - As empresas efetivamente investem em design?
Andrade - Minha percepção é que o design é a maneira mais barata para a empresa inovar.

JC - As empresas sabem disso?
Andrade - Esse é outro problema. A maioria das empresas não tem acesso ao que efetivamente é design e entende o design como resultado, que por uma iluminação divina alguém conseguiu desenvolver. E não é assim. Design é um processo com conhecimentos vinculados estética, arte, criatividade, ergonomia etc., ou seja, a uma série de ciências que, com o somatório desses conhecimentos, consegue um resultado atrativo ao consumidor.

JC - Se houvesse a percepção por parte das empresas sobre a importância do design, haveria espaço para todos os profissionais?
Andrade - Espaço existe, mas nem todas as empresas têm condições de ter um profissional exclusivo para o design. As empresas de médio e grande porte terão capacidade de montar uma estrutura e ter um profissional, e as menores devem terceirizar o serviço.

JC - A abertura de mercado e a concorrência internacional ampliaram a atenção para o design?
Andrade - O maior interesse sobre o design é por uma necessidade de mercado. Depois da abertura econômica, tivemos uma maior necessidade pelo desenvolvimento de novos produtos e de aumento de competitividade. A universidade é um dos braços para que a gente consiga evoluir para um estudo científico.

JC - O mestrado na área é relativamente recente no Estado. Devemos avançar para o doutorado?

Andrade - Temos três programas de mestrado aprovados pelo MEC (Ministério da Educação) e devemos ter o doutorado em seguida, até pela quantidade de publicações que estamos produzindo.

JC - Qual o futuro para o profissional do design?
Andrade - Acredito que haverá uma grande demanda por profissionais de design, o que ainda não aconteceu. Por outro lado, teremos um esgotamento do mercado pela enorme quantidade de faculdades que abriram, formando um contingente considerável em quatro ou cinco anos. Não sei se haverá mercado para todo mundo trabalhar dentro da indústria, esses profissionais terão que ser empreendedores, empresários.