O Ministério da Educação anunciou o seu firme desejo de mudar o sistema de ingresso nas universidades públicas brasileiras. O diagnóstico apresentado pelo ministro Fernando Haddad parte do pressuposto de que o vestibular “contaminou” o ensino médio, estimulando atitudes comportamentais condicionadas aos exames praticados pelas universidades.

O condutivismo em educação teria criado uma cultura da “decoreba”, e os vestibulares estariam priorizando isso à capacidade crítica dos alunos. A primeira pergunta a ser feita é, se o diagnóstico está correto, por que não se muda então o ensino médio?

A inspiração é usar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que começou tímido – no bojo da Reforma do Ensino Médio em 1998, no polêmico Parecer 15/1998 do Conselho Nacional de Educação –, com menos de 400 mil e alcançou a marca de 3 milhões de inscritos no ano passado, principalmente porque as universidades começaram a premiar os alunos com melhor desempenho no exame.

O Enem está estruturado na avaliação de competências e habilidades, que embora previstas no referido parecer não tiveram a sua implementação devida no âmbito das escolas do ensino médio. Eu diria que o grande problema do vestibular não está no exame que está sendo modificado, mas sim no próprio ensino médio.

A proposta visa criar uma prova única ou um Enem “turbinado”, com 200 questões divididas em provas de dois dias. Ele teria basicamente as mesmas características do exame atual, que contempla também a redação. A idéia é avaliar a capacidade de raciocínio, de interpretação de textos e de resolução de problemas. O Enem sempre foi um exame voluntário, mas pela proposta ele seria praticamente obrigatório, pois para o ingresso na universidade o aluno necessariamente teria de prestá-lo.

A inspiração no modelo norte-americano do Standard Reasoning Test (SAT), literalmente "Exame Educacional Padronizado", teria sido a inspiração do MEC. O SAT é o teste para ingresso nas universidades dos Estados Unidos. Atualmente, tem duração estimada de 4 horas. Desde a sua implementação, em 1901, teve várias formas, e a atual combina 3 seções de 800 pontos cada (matemática, leitura crítica e escrita, tudo em inglês).

O importante, entretanto, é que há questões ainda não muito claras. Dadas as atuais intenções de separar 50% das vagas do acesso ao ensino superior para políticas afirmativas, a concorrência da outra metade ficaria ainda mais disputada. A alegada mobilidade pretendida pelo MEC também não convence quando o tema é o ingresso. É muito melhor pensar num sistema baseado no programa Erasmus, da União
Européia, que permite a mobilidade dos estudantes durante a realização do curso, e não no seu ingresso.

A mudança no vestibular, porém, é bem vinda. No entanto, apenas a realização de uma prova mais contextualizada não é suficiente para melhorar o processo seletivo. É necessário pensar o ingresso articulado de forma mais horizontal entre os níveis da educação básica e superior. Ele deveria ser feito de forma que o jovem ingresse em determinada área do conhecimento e, ao longo do tempo, possa fazer outras opções. Nesse sentido, seria válido avaliar as iniciativas que estão sendo feitas pela Universidade Federal da Bania e pela Universidade do Grande ABC, de bacharelados interdisciplinares.

Diria que o principal problema que enfrenta o jovem às vésperas do vestibular é a escolha de uma carreira. A escolha precoce é o grande problema. Creio que a universidade brasileira daria contribuições se usasse da sua autonomia, e não se pautasse pelo engessamento das corporações de ofício, originárias das guildas do século XIX. Afinal de contas, nós não estamos no século XXI, sob a égide da economia do conhecimento?