As questões de vestibular mudaram. “A redação vai ser na primeira, ou na segunda fase?”, “e vai ter segunda fase?”, “como vai abranger a literatura regional?”, perguntam alunos à beira do provão, no intervalo entre as aulas da manhã e o reforço das específicas. A proposta de mudança no vestibular das universidades federais, feita pelo Ministério da Educação (MEC) no início deste mês, mexe com a cabeça e os nervos de cerca de 35 mil estudantes que tentam uma vaga na Universidade Federal do Ceará (UFC).

“O MEC propõe a realização de uma prova única para todas as universidades federais. Isso é uma mudança muito grande”, resume o reitor da UFC, professor Jesualdo Pereira Farias. Na última segunda-feira, ele participou de uma reunião com o ministro da Educação, Fernando Haddad, em Brasília. Na ocasião, o ministro tirou dúvidas sobre o novo modelo de seleção que incrementa o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e se comprometeu a enviar, para as 55 instituições federais de ensino superior, uma nota técnica mais esclarecedora. Jesualdo Pereira aguarda a nota para balizar a discussão no Conselho Universitário da UFC.

O reitor já aprova a mudança: “Minha posição, a princípio, é favorável. Acho a ideia boa. Discordo da situação atual do vestibular, como está sendo feito”. A decisão final cabe ao Conselho e, sugere Jesualdo, o novo Enem poderia compor a primeira etapa do vestibular da UFC, ou mesmo se tornar o principal elemento do processo seletivo. “Está em discussão”, pondera, prevendo adaptações para as seleções dos cursos mais concorridos. “Vamos analisar essa nota técnica que vem do ministro e discutir isso com a equipe, a Comissão Coordenadora do Vestibular, os diretores de Centro. É um processo lento de discussão”, considera.

Jesualdo Pereira quer envolver também as escolas públicas e particulares no debate, embora não tenham poder de voto nas deliberações da UFC. O reitor quer saber quais seriam as principais dificuldades de adaptação do Ensino Médio ao novo vestibular.

O diretor de sede do pré-vestibular do colégio Ari de Sá Cavalcante, Mauricélio Araújo, explica que a preparação para o vestibular é um caminho de, no mínimo, três anos. A mudança de rumo, a esta altura do percurso, é uma manobra arriscada. “Os alunos ficam num estado de nervos grande. Esse mesmo problema, tivemos em 2002, quando o MEC forçou para as universidades adotarem o Enem. Isso gerou uma polêmica porque o aluno não tinha conhecimento de como seria a dinâmica da prova”, diz.

Desde que o MEC anunciou as mudanças, o professor de História e seu grupo de três mil alunos tentam entender o que está acontecendo. “Há uma dúvida muito grande, falta maior esclarecimento sobre isso”, demanda Ben-Hur Freitas Machado. As perguntas se multiplicam na cabeça de Hadassa Alencar, 20, que vai tentar Medicina pela terceira vez. “Estudar para o vestibular inclui decorar coisas. E agora, vão quatro anos de estudos por água abaixo?”.

“Tem que haver um processo na base, desde as séries iniciais. E se formar uma outra geração”, compreende Ben-Hur. A professora de Química faz as contas: é preciso, “no mínimo, cinco anos” para uma formação mais adequada. Maryslene Brito aprova o novo exame do vestibular, idealizado pelo MEC: “Trabalhar o conhecimento de forma contextualizada para a vida toda é melhor que decorar fórmulas”. Mas a professora sabe que a mudança altera o modo de ensinar. “Vai ter uma abordagem de conteúdo menor, com todas as disciplinas contextualizadas. A princípio, vai ser difícil”.



E-Mais

O QUE MUDA

1. Pela proposta do MEC, o novo Enem teria 200 questões de múltipla escolha (atualmente, são 63) e seria aplicado em dois dias inteiros (quatro provas
de 50 questões).

2. Estão previstas provas de linguagem, matemática, ciências da natureza, ciências da sociedade e redação, segundo notícias sobre a nota técnica elaborada pelo MEC e destinada aos reitores. As universidades podem indicar pesos diferentes para as provas. O processo de inscrição será, exclusivamente, pela internet.

3. Ainda de acordo com a orientação do MEC, o novo Enem seria aplicado nos dias 3 e 4 de outubro. Os resultados da prova objetiva sairiam em 2 de dezembro e o da redação, em 8 de janeiro de 2010.

4. A nova prova vai exigir interdisciplinaridade. Ou seja, o aluno vai ter que relacionar o conteúdo de diversas disciplinas na resolução de situações novas. O que conta é o conhecimento, o entendimento e a associação entre as ideias.

5. Um exemplo comum: não basta decorar as características de um determinado personagem de romance. O importante será perceber a semelhança entre a personalidade dele e os jovens brasileiros, considerados em um determinado contexto. O vestibular da Unicamp já se aproxima desse novo modelo em discussão.

6. Uma vantagem anunciada pelo MEC é a possibilidade de, com uma única prova, tentar vaga em outras universidades do País. O resultado pode pleitear colocação em até cinco diferentes cursos, em cinco instituições diversas (da rede federal).