Foi aprovado no último dia 06 de abril o novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que agora passa a ser o novo vestibular unificado para as 55 universidades federais do Brasil. O novo sistema permitirá concorrência nacional por todas as vagas oferecidas pelas instituições que aderirem ao novo sistema.

Conforme este novo modelo proposto pelo Ministério da Educação (MEC) a pessoa, após receber o resultado da sua prova do Enem, poderá listar até cinco cursos em cinco universidades federais de sua preferência e concorrer com os demais candidatos do país.

Durante anúncio, no dia 06 de abril, foi explicado que com relação à nota de corte dos cursos será de acordo com a concorrência entre os candidatos, ou seja, quanto maior o número de candidatos com notas altas concorrendo a um determinado curso, maior será a nota de corte.

Foi divulgado também, que o candidato poderá, até o penúltimo dia do anúncio do resultado pela instituição, mudar suas opções de curso. Sendo assim, caso o candidato venha a perceber que o curso que colocou como primeira opção esteja com a nota de corte superior à sua nota do Enem, poderá optar pelas demais opções de sua primeira lista, ou até mesmo modificá-la, escolhendo novos cursos e até mesmo novas instituições.

O MEC estará colhendo, por meio de um sistema digital, todas as opções dos candidatos e, esta lista elaborada, pelos menos não terá nenhum tipo de restrição.

Este novo modelo do Enem passará a conter 200 questões de múltipla escolha, além de uma prova de redação e será realizado em dois dias. Hoje, a prova do Exame Nacional conta com 63 questões e uma redação. Neste novo formato serão quatro grupos de questões: matemática, ciências humanas, ciências da natureza e linguagens (o que inclui português, inglês e redação).

Final de abril
Durante o anúncio do MEC no dia 06 de abril, nenhum reitor das 55 universidades federais se comprometeu a adotar este novo método de avaliação para o vestibular ainda este ano. Desta forma foi estipulado que os reitores têm até o final de abril para decidir se o novo vestibular entra ou não em vigor nesse ano de 2009.

A reitora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Maria Lucia Cavalli Neder, considera que a proposta é de dimensão política e pedagógica. Política porque permite que entre no circuito das universidades, candidatos de baixa renda para que possam  estudar em outras cidades, o que antes somente pessoas de média e alta renda podiam fazer, pois tinham condições de se locomover para outra cidade ou Estado para prestar um vestibular.

Quanto à dimensão pedagógica, a reitora explica que haverá um grande reflexo no ensino médio, pois este não está preparando seus alunos como deveria. “A formação do ensino médio deveria ter fundamentos teóricos para que o aluno possa entender o mundo de uma forma mais crítica. Hoje os alunos trabalham com memorização e informação”, esclarece Maria Lucia.

Maria Lucia ainda diz que outra questão na dimensão pedagógica é a mobilidade, pois os candidatos daqui de Mato Grosso, por exemplo, que prestam vestibular em outras universidades fora do Estado, poderão conhecer uma nova realidade, uma nova cultura. “O MEC está ampliando em 100% os recursos para o Programa de Assistência Estudantil, permitindo que a mobilidade aconteça”, completa a reitora.

A UFMT ainda não possui uma posição concreta se irá ou não adotar o novo método de avaliação ainda este ano, pois ainda estão ocorrendo reuniões internas com os diretores das faculdades, com os campus do interior, com o Conselho de Ensino e Pesquisa (Consepe), com a Coordenação de Concursos e Exames Vestibulares (CEV) e todas as coordenações da Universidade. “Nas reuniões que já tivemos, houve uma demonstração de simpatização com a ideia. A UFMT já utiliza o Enem como percentual de 20% para aprovação no vestibular”, revela Maria Lucia. Em relação à utilização de uma segunda fase, Maria Lucia conta que, por hora, a decisão é de utilizar o Enem como fase única, mas que o assunto ainda está em discussão.

Quanto à classificação dos candidatos esta ocorrerá por meio de mérito, ou seja, serão classificados aqueles que obtiverem a maior nota. “Será uma avaliação que se fixará no conteúdo”, diz Maria Lucia.

Apesar de nenhuma universidade federal ter dado uma resposta concreta ainda, uma vez que esta será dada no dia 30 de abril, o MEC já estabeleceu que, se as universidades disserem que adotam ainda este ano o novo modelo de vestibular, as provas ocorrerão dia 03 e 04 outubro.

Aceitação
Apesar de a mudança ser positiva, segundo o ministro da Educação, Fernando Haddad, há quem desaprove tal decisão e ache que é algo desnecessário. Este é o caso do coordenador da Escola Estadual Liceu Cuiabano Maria de Arruda Müller, Alceu Trentini, essa decisão do MEC é absurda, pois se hoje pessoas de fora do Estado já tomam as vagas dos vestibulandos de Mato Grosso, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), imagina se agora, com essa proposta do Vestibular Unificado onde a pessoa pode optar onde quer estudar, depois de fazer a prova. “Como educador não vejo o porquê de fazer isso. Essa história de chocar datas dos vestibulares não existe, pois são sempre em datas diferentes. Hoje quando vemos o resultado do vestibular da UFMT é visível o tanto de gente que vem de São Paulo e Goiás para cá, principalmente, atrás do curso de medicina. Vamos acabar ficando sem vagas para os mato-grossenses”, diz Alceu.

Ao contrário de Alceu, o diretor pedagógico do Colégio Salesiano Santo Antônio, mestre Tarley Nunes da Mata, diz que a instituição de ensino vê essa mudança com muita expectativa, pois “entende que toda e qualquer política que favoreça uma maior presença dos alunos nas Universidades é sempre bem-vinda”.

Mestre Tarley conta que hoje a entrada para o vestibular é cansativa, principalmente para aqueles que vão até outros Estados prestar vestibular e, às vezes, acabam passando dois meses só fazendo isso. “Sobre a mudança que o MEC está pretendendo fazer, é interessante observar que ela padroniza a ‘entrada’ dos alunos nas universidades públicas e, em tese, o aluno poderá entrar na universidade que pretende, sem o inconveniente de se deslocar para outras cidades ou Estados onde se encontram as universidades.

Todavia, para que efetivamente favoreça os estudantes, é preciso que tanto o MEC quanto as Universidades façam algumas experiências, ou seja, ainda serão necessários alguns anos para que a proposta seja efetivamente implementada com os ajustes que se fizerem necessários. Será preciso encontrar canais efetivos que ouçam as universidades quanto aos alunos, os principais interessados numa nova modalidade de acesso ao ensino superior”, diz Mestre Tarley.
 
Alguns professores do ensino médio veem essa mudança com bons olhos e outros não, pois a metodologia de ensino teria de passar por uma reformulação desde o ensino fundamental. Para o professor de sociologia, Lívio dos Santos Wogel, a mudança do vestibular unificado é favorável, pois hoje o Enem exige memorização e outras habilidades dos candidatos, além de favorecer também a comodidade com relação ao deslocamento do candidato para outros Estados ou cidades para fazer a prova.

“De certa forma, o Enem novo não será nem mais inclusivo e nem menos inclusivo. A entrada da pessoa numa Universidade continuará sendo por mérito. A mudança irá favorecer aqueles que querem estudar fora de seu Estado. Quanto à concorrência esta continuará sendo normal. Ainda não está claro se as faculdades assumirão o Enem como vestibular, elas podem optar por fazer uma segunda avaliação”, diz Lívio.

Assim como Lívio, o professor de biologia Marcus Vinicius de Carvalho também é a favor da mudança, mas tem a preocupação com a questão do regionalismo nas provas, pois segundo ele, todas as Universidades tem em seus  vestibulares questões de regionalismo, principalmente nas disciplinas de história, geografia e biologia. Outra coisa que preocupa Marcus Vinicius é de como será à entrada do aluno na Universidade.

“Não vejo a repercussão disso daqui alguns anos. Se haverá preocupação em colocar o aluno no vestibular. A memorização é importante e hoje é toda a base para os vestibulares. Hoje algumas faculdades levam em conta a ajuda do Enem, quanto à nota, algumas chegam a substituir a nota da redação pela nota da redação do Enem se esta foi maior. Essa mudança vai tirar a regionalização dos vestibulares. Se pegar o vestibular do Rio Grande do Sul, veremos muitas questões regionais. Sou a favor, mas essa é a minha principal preocupação”, comenta Marcus Vinicius.

Tanto Marcus Vinicius quanto Lívio alegaram que seus alunos estão preocupados, pois durante todo o ensino médio deles, foi um ensino de memorização e informação e hoje eles terão de reaprender tudo em pouco tempo, para que não fiquem somente na memorização e informação, principalmente os alunos do 3º Ano do ensino médio.

Lívio diz que é mais complicado devido ao fato do material didático não ter ainda passado por uma adequação frente à essa mudança que está ocorrendo. “Ainda está tudo suspenso quanto à elaboração da prova desse vestibular unificado, mas me parece que serão 40 professores, que compõe o grupo para elaboração, mas acredito que as questões não fugirão do Enem atual”, diz Marcus Vinicius.

Os dois professores acreditam que nessa mudança mais gráficos, imagens e interpretação de textos serão apresentados. “Em algumas matérias deverão ser acrescentados mais gráficos para que não se fique só na decoração das fórmulas e sim para que o candidato passe a interpretar mais a questão. O aluno deverá buscar o seu próprio conceito”,completa Marcus Vinicius.

Entre aos futuros vestibulandos a aceitação do novo modelo de vestibular vem causando um furor ainda maior, pois nem todos estão sabendo direito desta decisão do MEC e os que sabem não sabem ao certo como funcionará.

Há ainda aqueles que acreditam que possam realmente acabar ficando sem vaga na UFMT, como é o caso do estudante da Escola Liceu Cuiabano, Everton Pereira Camilo, 17 anos. “Discordo dessa decisão, pois pelo que entendi, com essa mudança, pessoas de fora do Estado vão acabar vindo para cá, mais do que já vem estudar e as pessoas de Mato Grosso perderiam suas vagas”, diz Everton.

Ao contrário de Everton, um outro aluno do terceiro ano do Colégio Liceu Cuiabano, que não quis ter seu nome revelado,diz que a decisão é legal, pois o Enem é feito pelo Governo Federal e não é tão fácil, ao contrário das faculdades particulares, onde o vestibular é fraco.